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A semana que se passou foi carregada em eventos macro. O conflito no Oriente Médio continua no centro das atenções: não apenas pela questão bélica, mas pelas distorções que tem gerado na economia, e que terminaram por impactar as decisões de política monetária ao redor do globo.
Os quatro maiores bancos centrais do planeta reuniram seus comitês na mesma semana: Federal Reserve, Banco Central Europeu, Bank of England e Bank of Japan. O veredito, sem exceção, foi o mesmo: pausa. Com a inflação pressionada pela energia e sem perspectiva clara de alívio no conflito, qualquer movimento nos juros torna-se uma decisão de risco, dado que o impacto ainda é difícil de calcular.
Nesta edição, destrinchamos como essa dinâmica afeta os criptoativos, o que saiu da reunião do FOMC — o comitê de política monetária dos EUA, cuja decisão é a que mais pesa sobre o segmento e acaba por influenciar as demais — e um movimento regulatório que o mercado aguardava há anos.
De olho no gráfico: bitcoin (BTC) em reversão à média
O bitcoin (BTC) chegou a testar a resistência dos US$ 76 mil na terça-feira (17), nível que já havia funcionado como teto no início de março. A rejeição foi rápida.
No rastro das bolsas americanas — pressionadas pelo PPI acima do esperado e pelo tom mais cauteloso do Fed — o ativo recuou, agora lutando para ficar acima da faixa dos US$ 70 mil.
O momentum da semana veio sustentado por entradas via ETFs de bitcoin listados nos EUA e compras sistemáticas da Strategy (MSTR), empresa que adota o bitcoin como principal reserva de valor em seu balanço.
Ainda assim, nosso modelo proprietário de análise topológica, que tenta identificar a “forma” do mercado para distinguir regimes de tendência de lateralização, aponta que o ativo segue em regime de reversão à média, sem força suficiente para um movimento direcional expressivo no curto prazo.

O mercado de derivativos corrobora essa leitura. Os dados mostram que há pouca alavancagem acumulada, ou seja, poucos investidores estão apostando com dinheiro “emprestado” — o que reduz o risco de liquidações em cascata e movimentos bruscos de preço.
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De olho nos juros: FOMC mantém taxa nos EUA entre 3,5% e 3,75%
Na quarta-feira, o FOMC manteve a taxa de juros norte-americana entre 3,50% e 3,75%. A decisão em si não moveu nada, e há uma razão para isso.
Quando uma expectativa se torna amplamente compartilhada, dizemos que ela já está embutida nos preços antes de acontecer. A manutenção estava tão precificada que sua confirmação foi quase ignorada. O que o mercado buscou foi o que viria depois: o guidance, que chegou em duas formas.
A primeira, foram os relatórios publicados junto com a decisão. O dot plot, diagrama onde cada membro do comitê registra onde acredita que os juros devem estar ao longo dos próximos anos, mostrou divisão: sete membros não veem cortes em 2026, e outros sete veem apenas um.
Não é um comitê alinhado, é um comitê que genuinamente não sabe (reflexo. em boa parte. da imprevisibilidade de uma guerra). As projeções econômicas reforçaram isso: inflação revisada para cima, crescimento revisado levemente para cima também. A economia não está quebrando, o que tira a urgência de cortar os juros. Mas a inflação tampouco está domada.
A segunda forma foi Jerome Powell, presidente do Fed, na coletiva de imprensa. Quando questionado sobre a solidez das projeções, foi direto: admitiu ter “pouca convicção” nelas. O motivo é o conflito no Oriente Médio. Ninguém sabe quanto tempo vai durar, até onde o petróleo pode ir, nem como isso vai se propagar pelos preços ao longo dos próximos meses.
O cenário que se desenha é o que o mercado chama de “higher for longer“, juros elevados por mais tempo. O Fed não vai cortar enquanto a inflação não mostrar sinais claros de melhora, e quanto mais o conflito se prolonga, mais ela tende a persistir. Para ativos de risco, isso significa um ambiente macro de menor liquidez e maior custo de oportunidade — ao menos enquanto o quadro não mudar.
O mapa regulatório pelo qual o setor esperava
Em meio à pressão macroeconômica, a semana trouxe um movimento pelo qual o mercado cripto aguardava há anos.
Na segunda-feira (16), SEC e CFTC publicaram conjuntamente um documento de 68 páginas que representa a primeira taxonomia formal do mercado cripto nos Estados Unidos, uma espécie de mapa oficial que classifica os diferentes tipos de ativos digitais, e define quem regula o quê.
A conclusão central é que a maioria dos criptoativos não é considerada valor mobiliário, e passa a ser tratada como commodity digital, sob jurisdição principalmente da CFTC.
O documento lista ativos nessa categoria como: Bitcoin, Ethereum, Solana, XRP, Cardano, Chainlink, Avalanche, Polkadot, Dogecoin, Litecoin, Stellar, Hedera e Algorand. Estes são os principais ativos do mercado, representando cerca de 85% do volume negociado nas exchanges por market cap.
Para se ter ideia, alguns podem ser convertidos entre si de forma direta e instantânea pela nova funcionalidade de Conversão Direta de Criptoativos do BTG Pactual, que permite migrar entre posições sem a necessidade de duas operações separadas – mais um ponto positivo para a “institucionalização” do mercado.
O que ainda continua sendo “security“? Ativos que representam instrumentos financeiros tradicionais em formato digital, como ações tokenizadas e títulos de dívida tokenizados. Se o ativo existe para replicar algo que já existe no mercado tradicional, continua sob as regras da SEC. Se é nativo do universo cripto, cai na nova classificação.
Historicamente, SEC e CFTC disputavam jurisdição sobre os mesmos ativos, criando um limbo em que ninguém sabia ao certo a quem recorrer. O documento formaliza a divisão de responsabilidades e sinaliza o fim da chamada “regulation by enforcement“, prática em que os reguladores atuavam processando empresas em vez de publicar regras claras.
Com a CFTC, agência historicamente mais pragmática e menos agressiva que a SEC, assumindo o papel central, o ambiente para inovar e atrair capital institucional muda de patamar.
O que isso muda na prática? Exchanges podem listar SOL, ADA e outros sem risco de processo da SEC, o que havia travado sua adoção nas maiores plataformas americanas. Para bancos e gestoras, a classificação entrega o parecer jurídico que os departamentos de compliance precisavam para aprovar custódia.
O pipeline de ETFs também se beneficia: com ADA, LINK, AVAX e DOT agora classificados, pedidos de ETFs spot têm caminho regulatório mais claro. Há mais de 126 pedidos aguardando análise na SEC.
O documento é uma interpretação regulatória, não lei — e uma administração futura poderia revertê-la. É por isso que o Clarity Act continua sendo peça fundamental: ele transformaria essa interpretação em legislação permanente.
O problema é que o projeto segue parado no Senado desde julho de 2025. Abril é o deadline crítico: se não avançar no comitê até lá, as chances de aprovação em 2026 caem de forma relevante, com o calendário legislativo sendo tomado pelas eleições de meio de mandato (midterms) a partir do segundo semestre.
O contraste da semana é claro: bancos centrais hesitando entre inflação e crescimento, jogando para frente qualquer afrouxamento. Reguladores entregando o mapa que o setor aguardava. Sob outra perspectiva, o que temos é preço e fundamento divergindo, enquanto o cenário macro ofusca avanços expressivos do lado institucional e regulatório.
O mercado cripto opera hoje com um market cap nos mesmos níveis de 2021, quando não havia nenhuma regulação clara, nenhum ETF aprovado e nenhum banco central discutindo o setor. O pano de fundo mudou radicalmente; o preço, ainda não. Em um momento de alívio, essa pressão represada pode se manifestar com mais intensidade.
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