Crypto Talks

O rali de fim de ano que não veio

Muitos assinantes me mandam e-mails, e até mensagens nos plantões de dúvidas do Crypto Legacy, perguntando sobre as previsões altistas que esperávamos para o fim do ano. 

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Data de publicação
29 de dezembro de 2021
Categoria
Crypto Talks

A DIFERENÇA ENTRE MODELOS E REALIDADE

Muitos assinantes me mandam e-mails, e até mensagens nos plantões de dúvidas do Crypto Legacy, perguntando sobre as previsões altistas que esperávamos para o fim do ano.

Por que, afinal, o preço do bitcoin (BTC) não foi para próximo dos US$ 100 mil, como acreditávamos que poderia ir?

Primeiramente, uma palavra sobre como entendemos valor intrínseco e quais métodos atuais usamos para avaliar criptoativos como o bitcoin – uma moeda utilizada por muitos como meio de pagamentos, reserva de valor ou simplesmente um ativo especulativo.

Para chegarmos a uma estimativa de valor, precisamos de modelos, que são meramente simplificações formais e padronizadas da realidade e que nos ajudam a priorizar informações relevantes.

Fazendo uma analogia, poderíamos criar um modelo que nos diria o quanto uma vida é bem vivida. Nele, a pontuação de qualidade de vida dependeria de uma relação entre renda, tempo de lazer, relacionamento com familiares, qualidade de nutrição… enfim, “n” variáveis poderiam estar contidas em nossos cálculos.

A priorização de quais variáveis são importantes para chegar a um resultado próximo do verdadeiro ou não é uma consequência de pesquisa, empirismo ou até mesmo palpites.

Quando falamos de modelos de valuation exclusivamente para o BTC, existem algumas dificuldades de chegar a cálculos que sejam precisos e pontuais. Usar um fluxo de caixa descontado (DCF), por exemplo, não é muito eficaz, pois o BTC não produz fluxos de caixa futuros.

Das várias experimentações de modelos para avaliar o bitcoin (NVT, Floor Model, Top Cap, etc.), um se tornou o mais famoso, tanto por prever bandas de preço consistentemente quanto por interpretar o bitcoin como um ativo de reserva de valor, destacando a sua escassez como origem de valor: o modelo Stock-to-Flow.

Nesse modelo, a escassez é medida como a quantidade existente de um ativo, dividida pela quantidade emitida/produzida/minerada em um determinado espaço de tempo. A hipótese do modelo é que o índice do Stock-to-Flow explicaria uma grande parte do valor de mercado do ativo.

Figura 1: Modelo Stock-to-Flow
Fonte: @100trillionUSD

Em 2019, Plan B, o criador do modelo, observou através dele que a capitalização de mercado do BTC chegaria a US$ 1 trilhão em 2021. Dito e feito: foi o que vimos acontecer este ano.

Agora, é crucial lembrarmos que existem muitas outras informações exógenas ao modelo que influenciam o movimento de preços, como o surgimento da variante ômicron, a subida de juros, decisões do Fed e altas inflacionárias, e que consequentemente fazem a trajetória das cotações divergir das previsões.

Afinal, se o modelo contivesse todas as informações que explicam o preço, teríamos um encaixe perfeito entre modelo e preço, algo que é impossível. Sempre haverá novas informações que modificam fluxos de capital de uma forma não prevista.

O Stock-to-Flow não é um modelo perfeito porque modelos perfeitos não existem. Entretanto, esse instrumento nos orienta a respeito da trajetória de valor do bitcoin, baseado na sua escassez e ciclo de mineração.

A trajetória de alta está clara, porém o timing de previsões está sempre sujeito ao erro, por causa de nossa incapacidade de incorporar o futuro e todas as suas complexidades nas meras simplificações que são os nossos modelos.

O rali das criptos, aparentemente, não virá… em 2021. Já em 2022, o ecossistema deve continuar a crescer, tanto em infraestrutura quanto em adoção. O mercado não se definirá em dezembro de 2021, mas ao longo dos próximos anos.

Paciência e foco nos fundamentos são essenciais. Desejo muito disso para você neste ano que adentramos.