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Investimentos

Ibovespa hoje: resultado da Petrobras (PETR4) no 4T25, payroll dos EUA e petróleo mais pressionado; veja o que ecoa no mercado nesta sexta (6)

O petróleo passa a ocupar papel central como principal canal de transmissão do choque geopolítico para a economia global. Veja manchetes.

Por Matheus Spiess

06 mar 2026, 09:34

Atualizado em 06 mar 2026, 09:34

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Imagem: iStock.com/NatanaelGinting

Após uma semana marcada por forte volatilidade, provocada pela escalada da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, os mercados globais iniciam a sexta-feira (6) sob um clima de cautela. O tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, sofreu uma redução drástica, chegando a uma paralisação quase total em alguns momentos, o que elevou as preocupações com o abastecimento global de energia. Como reflexo, o petróleo permanece em patamar elevado, com o Brent orbitando a região de US$ 87 por barril. Ao mesmo tempo, o conflito continua se expandindo pela região, com episódios envolvendo diferentes países do Golfo, enquanto Washington avalia possíveis medidas para conter a alta do petróleo e seus efeitos sobre os preços da gasolina. Apesar de alguma recuperação pontual observada em mercados asiáticos, o ambiente global ainda é caracterizado por aversão ao risco, com bolsas pressionadas.

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Nesse cenário, o petróleo passa a ocupar papel central como principal canal de transmissão do choque geopolítico para a economia global, reacendendo o debate sobre o equilíbrio entre inflação e crescimento. A alta da energia tende a pressionar as expectativas inflacionárias e manter os bancos centrais em estado de alerta, ao mesmo tempo em que reforça o interesse por commodities dentro do chamado macro-inflation trade. Nesse contexto, indicadores macroeconômicos, especialmente o payroll dos Estados Unidos hoje, ganham ainda mais relevância para calibrar as expectativas sobre a trajetória de juros do Federal Reserve. Paralelamente, governos e empresas buscam alternativas logísticas para preservar o fluxo de energia.

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· 00:54 — O ciclo de cortes

No Brasil, o mercado acionário voltou a perder fôlego ontem, com o Ibovespa recuando abaixo da marca de 181 mil pontos, em movimento que acompanhou a correção observada nos mercados internacionais. Parte desse ajuste reflete um processo natural de realização de lucros, após o rali recente que levou o índice a níveis historicamente elevados. Para o pregão de hoje, a atenção dos investidores se volta principalmente para a repercussão dos resultados da Petrobras, divulgados na noite de ontem. As ADRs da companhia em Nova York chegaram a registrar queda nas negociações após o fechamento, mas apresentam recuperação no pré-market desta manhã, indicando uma leitura inicial mais equilibrada por parte do mercado.

No resultado, a Petrobras reportou lucro líquido de R$ 15,6 bilhões, com um nível de capex mais elevado e aumento da alavancagem, embora com melhora operacional nas áreas de refino e comercialização em relação ao trimestre anterior. O conselho de administração também aprovou o envio à assembleia da proposta de R$ 8,1 bilhões em juros sobre capital próprio referentes ao período, com data ex em 23 de abril e pagamentos previstos para maio e junho. Dado o peso da companhia no índice, a leitura desse resultado pode influenciar de forma relevante o humor do mercado local.

Na agenda econômica, o destaque fica para a pesquisa industrial do IBGE, divulgada em um momento em que o mercado tenta calibrar suas expectativas sobre a intensidade do início do ciclo de cortes de juros. A principal dúvida é se o Banco Central optará por um primeiro movimento de 50 pontos-base ou por um ajuste mais moderado de 25 pontos-base. Ontem, a taxa de desemprego subiu de 5,1% para 5,4%, enquanto declarações recentes do diretor de Política Monetária do BC indicaram que os planos de flexibilização monetária permanecem no radar da autoridade.

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Na minha leitura, apesar de eventuais ruídos de curto prazo — especialmente vindos do cenário externo — a direção da política monetária no Brasil continua apontando para cortes de juros ao longo do ano. O ponto central parece ser mais o ritmo do que a direção do movimento. Mesmo que o início do ciclo seja conduzido de forma mais gradual, a perspectiva de juros mais baixos tende a continuar oferecendo suporte aos ativos de risco, especialmente em um ambiente em que o crescimento doméstico mostra sinais de moderação e a inflação, apesar de volátil, segue em trajetória de acomodação ao longo do horizonte relevante.

· 01:49 — E esse mercado de trabalho?

Em meio à volatilidade provocada pelas tensões no Oriente Médio, o principal foco dos investidores internacionais passou a ser o relatório de emprego (payroll) dos Estados Unidos, que será divulgado hoje. As expectativas apontam para a criação de cerca de 55 mil a 60 mil vagas em fevereiro, abaixo das 130 mil registradas em janeiro, enquanto a taxa de desemprego deve permanecer em 4,3%.

Neste momento, curiosamente, a taxa de desemprego tende a ser mais relevante para o Fed do que o número de vagas em si, já que o crescimento do payroll vem sendo limitado por fatores estruturais, como menor expansão populacional e demanda moderada por trabalho. Ainda assim, mesmo com um eventual dado mais fraco, que poderia aliviar a tensão, o mercado continua mais preocupado com pressões inflacionárias ligadas à alta da energia, o que já levou parte das apostas de cortes de juros a migrarem de julho para setembro.

· 02:37 — Impacto logístico

A escalada da guerra com o Irã já começa a provocar disrupções relevantes na logística global, especialmente após a forte redução do tráfego pelo Estreito de Ormuz, rota por onde normalmente passa cerca de 20% do petróleo transportado no mundo. O fluxo marítimo caiu drasticamente, de cerca de 138 navios por dia para apenas dois em determinado momento, diante do aumento do risco militar, dos ataques a infraestruturas energéticas e da alta dos custos de seguro marítimo. Os efeitos vão além do petróleo: cadeias de suprimentos também começam a sentir impactos, com atrasos em entregas de empresas globais e pressões sobre setores dependentes da região, como fertilizantes, alimentos, eletrônicos e produtos farmacêuticos, além do aumento do custo do frete aéreo em rotas que cruzam o Oriente Médio.

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Esse choque logístico tende a se refletir nos preços globais, especialmente por meio da alta da energia e do transporte. O petróleo reagiu com força — com o Brent acima de US$ 85 e o WTI próximo de US$ 81 por barril — reforçando o risco de pressões inflacionárias. Segundo o FMI, um aumento de 10% nos preços da energia mantido por um ano poderia elevar a inflação global em cerca de 0,4 ponto percentual e reduzir levemente o crescimento econômico em até 20 pontos-base. O impacto tende a aparecer principalmente na inflação cheia e no custo de bens transportados, enquanto a inflação núcleo deve sentir efeitos mais limitados. Ainda assim, a dinâmica reforça o risco de um ambiente macroeconômico mais desafiador, com energia mais cara.

· 03:23 — Qual o objetivo final?

Inicialmente, o objetivo declarado dos Estados Unidos ao iniciar a ofensiva contra o Irã era promover uma mudança de regime em Teerã. A aposta de Washington era que uma campanha militar rápida, combinada com a eliminação de parte relevante da liderança política e militar iraniana, poderia enfraquecer o regime a ponto de provocar uma ruptura interna, seja por meio de divisões nas forças de segurança, seja por uma reação da própria população contra o governo dos aiatolás. Na prática, porém, essa estratégia rapidamente revelou seus limites. Apesar dos danos militares relevantes e da eliminação de figuras-chave do aparato de poder, a estrutura institucional da República Islâmica permaneceu intacta, o regime manteve capacidade de retaliação e não surgiram sinais claros de uma oposição organizada capaz de assumir o poder.

Esse ponto ficou ainda mais evidente após a morte de Ali Khamenei no contexto do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A Assembleia de Peritos, órgão formado por 88 clérigos responsável pela escolha do líder supremo, já se movimenta para definir um sucessor, com Mojtaba Khamenei, filho de Khamenei, entre os principais nomes considerados. Nesse contexto, torna-se cada vez mais claro que uma mudança de regime exigiria tropas em solo ou a existência de uma oposição interna organizada e capaz de assumir o poder, dois elementos que, no momento, parecem ausentes. Diante desse impasse, os EUA podem passar a perseguir um objetivo estratégico mais limitado, porém potencialmente decisivo do ponto de vista econômico: controlar ou neutralizar pontos críticos da infraestrutura petrolífera iraniana, em especial a ilha de Kharg, responsável por cerca de 80% a 90% das exportações de petróleo do país. O domínio ou a neutralização desse terminal daria a Washington influência sobre a principal fonte de receita do regime, pressionando economicamente Teerã sem a necessidade de uma ocupação do território.

Uma estratégia desse tipo poderia oferecer aos EUA uma forma de exercer pressão duradoura sobre o regime iraniano, reduzindo sua capacidade de financiar programas militares, nucleares ou redes de aliados regionais, ao mesmo tempo em que evita o custo político e militar de uma guerra terrestre prolongada. Ainda assim, trata-se de uma aposta arriscada. O regime iraniano poderia optar por destruir parte de sua própria infraestrutura antes de permitir qualquer forma de controle externo, movimento que provavelmente provocaria uma forte disparada nos preços do petróleo e ampliaria significativamente os custos econômicos globais do conflito. Em outras palavras, a estratégia pode aumentar a pressão sobre Teerã, mas também eleva os riscos para o próprio sistema energético internacional. O horizonte não é trivial.

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· 04:16 — Ajuste de posição

A escalada do conflito no Irã provocou uma forte saída de capital estrangeiro das bolsas de mercados emergentes da Ásia, no ritmo mais intenso em quase quatro anos. Fundos globais retiraram cerca de US$ 11 bilhões da região (excluindo a China) nesta semana, com saídas expressivas de Taiwan, Coreia do Sul e Índia, refletindo a reavaliação de riscos geopolíticos pelos investidores. Ainda assim, o último pregão da semana trouxe algum alívio: as bolsas conseguiram se estabilizar parcialmente com a queda do dólar e esforços dos EUA para mitigar os efeitos da alta do petróleo.

· 05:01 — O que importa é o estrutural: lições de um mundo mais conflituoso

A recente operação militar conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã deve ser interpretada sobretudo sob uma ótica estratégica. Mais do que degradar capacidades militares iranianas no curto prazo, a ação também funciona como um sinal de dissuasão geopolítica, direcionado não apenas a Teerã, mas também a outras potências globais, como China e Rússia. Apesar das preocupações iniciais com o mercado de petróleo, interrupções estruturais e permanentes no fornecimento global de energia parecem pouco prováveis neste momento, o que tende a limitar impactos mais duradouros sobre inflação, crescimento econômico e política monetária. Para o investidor, o ponto central é olhar além da volatilidade e identificar tendências estruturais que podem ganhar força em um ambiente geopolítico tenso, como defesa.

Esse contexto de maior instabilidade internacional já começa, inclusive, a produzir respostas concretas na esfera da política em outras regiões. A França anunciou recentemente um reforço relevante em sua estratégia de dissuasão nuclear, com o presidente Emmanuel Macron sinalizando a expansão do arsenal atômico francês e a possibilidade de estender sua proteção nuclear a aliados europeus. A iniciativa envolve maior cooperação com países como Alemanha, Reino Unido, Polônia e Holanda, além da realização de exercícios conjuntos de dissuasão e até o eventual deslocamento de capacidades estratégicas para parceiros. O movimento reflete uma tendência mais ampla: a de uma Europa progressivamente mais responsável por sua própria segurança, em um cenário no qual os Estados Unidos reorganizam prioridades estratégicas e incentivam seus aliados a assumir maior protagonismo em defesa.

A implicação prática desse ambiente é relativamente clara. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas persistentes e orçamentos militares estruturalmente mais elevados, o setor de defesa deixa de ser apenas um tema cíclico e passa a se consolidar como uma tese estrutural de longo prazo. Nesse contexto, ETFs temáticos focados em aeroespacial e defesa — como o iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BDR: BAER39) — surgem como instrumentos eficientes para capturar essa tendência por meio de uma exposição diversificada ao setor. Ainda assim, a disciplina na alocação continua sendo fundamental: posições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com um limite agregado em torno de 5% para a classe dos temáticos, ajudam a equilibrar o potencial de retorno com uma gestão de risco adequada, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente a esse tipo de ativo.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.