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Mercado em 5 minutos

MERCADO EM 5 MINUTOS: Surpresas ingratas

“Lá fora, os mercados asiáticos fecharam em baixa nesta quinta-feira (17), seguindo os sinais negativos dos mercados globais […]”

Por Matheus Spiess

17 de novembro de 2022, 08:45

Imagem: Freepik

Bom dia, pessoal.

Lá fora, os mercados asiáticos fecharam em baixa nesta quinta-feira (17), seguindo os sinais negativos dos mercados globais durante o pregão de ontem, com os investidores acompanhando de perto os desenvolvimentos na frente geopolítica após a explosão de um míssil que matou 2 pessoas na Polônia — o presidente dos EUA, Joe Biden, disse que é “improvável” que a explosão na Polônia possa ter sido causada por um míssil disparado do território russo (relatórios sugerem que a defesa aérea ucraniana pode ter disparado acidentalmente o míssil).

Os mercados europeus não amanhecem bem, repercutindo não só as questões geopolíticas, como também a ansiedade pelos dados de inflação da Zona do Euro, que devem superar os 10% hoje, e os resultados econômicos mistos nos EUA, o que eleva a incerteza recente sobre as perspectivas para as taxas de juros. Os futuros americanos também estão em queda nesta manhã. Por aqui, os investidores estão lidando com as incertezas políticas, principalmente derivadas da apresentação da PEC de Transição e da falta de perspectiva para os nomes do governo para economia.

A ver…

· 00:40 — O teto também vai ficar fora do teto?

No Brasil, a ansiedade em torno da (gigantesca) equipe de transição e dos próximos passos é evidente. Os juros sobem com a tensão fiscal, o dólar explode e as ações caem — receita de bolo da aversão de risco típica. O governo eleito precisa sinalizar logo a equipe econômica que vai compor os Ministérios da Fazenda e do Planejamento. Entretanto, mais do que isso, é necessário que haja alguma sinalização crível de responsabilidade fiscal, o que não tem sido o caso até agora (e pode demorar até que aconteça).

Ontem, já de noite, o texto da PEC confirmou o que os investidores temiam e apresentou uma proposta de R$ 175 bilhões fora do teto; além disso, também quer destinar 40% das receitas extraordinárias para investimentos, com trava em R$ 22 bilhões (a ideia é elevar os investimentos públicos de 0,2% do PIB para 1%). Contudo, não foi explicado o prazo de vigência da PEC, que deverá ser definido nas negociações no Congresso nas próximas semanas (tem muita margem para negociação).

É natural que haja um receio por parte dos investidores diante do contexto. Aumentar em R$ 175 bilhões (R$ 197 bilhões no pior cenário) por quatro anos é pedir para perder o controle sobre a trajetória do endividamento brasileiro. Sabemos que independentemente de quem ganhasse as eleições, o Orçamento para 2023 precisaria ser revisado, porque o que se tinha antes era uma peça de

ficção, mas o que está sendo feito pode ser muito danoso para a percepção de risco, afastando os investimentos.

· 01:36 — Uma maioria republicana

Como esperávamos, nos EUA, os republicanos alcançaram 218 cadeiras na Câmara dos Representantes, dando-lhes a maioria, ainda que tímida (ainda devem conseguir mais duas cadeiras). A margem é muito mais estreita do que a antecipada, sendo difícil interpretar o número como uma maioria robusta. Enquanto isso, os democratas mantiveram o Senado.

E o que significa um Senado Democrata e uma Câmara Republicana?

Para a legislação, isso significa que os democratas terão suas mãos atadas. Devido à resistência de uma Câmara liderada pelo Partido Republicano, eles provavelmente não serão capazes de aprovar novos programas progressistas como fizeram nos últimos dois anos, como a Lei de Redução da Inflação.

Para o judiciário, ter o controle do Senado, onde são confirmados os juízes e outros indicados do Executivo, é crucial para os democratas, que começarão a trabalhar preenchendo as 118 vagas abertas no judiciário federal — adicionalmente, se uma posição de juiz da Suprema Corte fosse aberta, a posição seria democrata.

De maneira geral, o Congresso dividido significa que democratas e republicanos terão que trabalhar juntos para resolver questões prementes enfrentadas pelo governo, como evitar uma paralisação (shutdown) e elevar o teto da dívida para que o Tesouro não entre em default. A política americana será volátil nos próximos dois anos.

· 02:23 — Trump em 2024?

Os mercados digeriram ontem o fato de o ex-presidente Donald Trump ter apresentado formalmente um aviso de uma terceira candidatura à Casa Branca na noite de terça-feira. A luta pelo coração do partido republicano começou, mas o caminho para Trump não será nada fácil — muitos creditam a frustração republicana nas eleições de meio de mandato ao fracasso dos candidatos apoiados por Trump; além disso, ele vai enfrentar nas primárias o governador da Flórida, Ron DeSantis, favorito da ala mais moderada do partido hoje.

Segundo Trump, ele seria o único capaz de impedir o presidente Biden, para quem perdeu em 2020, de controlar a Casa Branca por mais quatro anos (se Biden optar por concorrer, o que apesar de ser o mais provável, não deixa de ser complicado, uma vez que o democrata terá 82 anos). Outro ponto a se observar é que o ambiente pós 2024 deverá ser muito diferente da situação pós 2016, quando Trump ganhou pela primeira vez — o mundo mudou muito desde que Donald Trump deixou o cargo em janeiro de 2021.

· 03:02 — O Orçamento Britânico

Um dos pontos mais relevantes da agenda internacional hoje é a apresentação do orçamento do governo do Reino Unido. O ministro das finanças, Jeremy Hunt,

apresenta planos fiscais que deverão ser uma mudança muito grande do projeto da antecessora de Sunak, Liz Truss, que quase implodiu o Reino Unido — o mercado não vai tolerar mais algazarra fiscal (se serviu para os britânicos, quem dirá para nós, brasileiros). Entre os pontos importantes, destaque para os novos impostos sobre lucros inesperados das empresas de energia.

Diante das tensões, os ativos europeus estão em queda. Além do evento inglês, também contamos hoje com a inflação dos preços no consumidor no final de outubro na Zona do Euro. Como esperado, o indicador acelerou para 10,6% na comparação anual, alcançando a inédita marca de dois dígitos e ainda sem dar sinais de desinflação, como já acontece nos EUA e no Brasil, por exemplo. Combustíveis e alimentos seguem impulsionando os preços e não devem deixar de o fazer no curto prazo, principalmente porque não há sinais de arrefecimento na guerra da Ucrânia.

· 04:05 — 13F?

Nos EUA, tivemos a temporada 13F, onde os fundos de investimentos com pelo menos US$ 100 milhões em ativos sob gestão revelam seus investimentos. A enxurrada de registros dá aos investidores a chance de ver o que compraram e venderam durante o trimestre, detalhando onde o “smart money” está sendo aplicado.

A Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, por exemplo, assumiu uma nova posição na Taiwan Semiconductor Manufacturing, fazendo com que as ações da gigante dos semicondutores subissem quase 20% nos últimos 5 dias.

Contudo, embora as transações possam ser úteis, é importante lembrar que os 13Fs não contam toda a história sobre o que os fundos estão fazendo. Em alguns casos, os relatórios também podem refletir decisões de investimento tomadas meses atrás, uma vez que só são arquivados até 45 dias após o encerramento do trimestre.

Um abraço,

Matheus Spiess

Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.