Times
Mercado em 5 minutos

O meu lugar é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor

Tudo o que você precisa saber sobre o mercado financeiro nesta quarta-feira (25)

Por Matheus Spiess

25 de janeiro de 2023, 08:12

Imagem representando o private equity, mostrando uma apresentação financeira para um grupo de investidores.

Bom dia, pessoal. 

Lá fora, os mercados asiáticos operaram sem uma única direção nesta quarta-feira, com investidores de vários países voltando do feriado de Ano Novo Lunar. O tom predominante foi positivo, ainda que haja temores de recessão global. Algumas regiões ainda não voltaram e só saem do feriado na semana que vem, como a própria China.  

Embora as ações tenham desfrutado de um forte início de ano, já que a desaceleração da inflação dá aos bancos centrais espaço para moderar seus aumentos nas taxas de juros, o foco agora está voltado para o impacto dos aumentos dos juros no ano passado sobre a economia, contrabalanceado pela reabertura da China. 

Os mercados europeus e os futuros americanos voltaram a ter dificuldade nesta manhã, depois de números de atividade fabril e de serviços dos EUA mostrarem os setores em contração. No Brasil, estamos um pouco afastados da realidade global, ainda que atentos aos caminhos das commodities.  

A ver… 

· 00:46 — Na festa de 469 anos de São Paulo, a comemoração é trabalhar 

Por aqui, no meio do aniversário de São Paulo (o mercado opera normalmente), os investidores acompanham alguns dados no exterior que podem fortalecer o euro frente ao dólar, em um movimento que pode ser favorável para mercados emergentes, como o brasileiro. Ainda vemos certa cautela com o contexto político, em especial sobre os movimentos da equipe econômica frente ao Conselho Monetário Nacional (CMN), Banco Central e novo arcabouço fiscal.  

Ontem foi dia de recuperar um pouco o que perdemos com a volatilidade recente e talvez hoje, com liquidez reduzida, possamos dar continuidade a esse movimento. Nós aguardamos a formalização de Jean Paul Prates para o comando da Petrobras, que deverá ter seu nome aprovado pelo Conselho de Administração na quinta-feira. Suas primeiras medidas como presidente da companhia devem ter caráter sistêmico, considerando o peso da companhia no Ibovespa.  

· 01:27 — Mais resultados corporativos 

Nos EUA, o tom negativo voltou a comandar o sentimento dos investidores, com os índices experimentando bastante volatilidade, abalados por alguns relatórios de resultados e dados econômicos. Mais de 40% do S&P 500 vem divulgando os resultados do quarto trimestre esta semana, de uma ampla gama de setores. 

Os destaques de ontem incluíram a 3M, que ofereceu uma visão sóbria da economia e dos gastos do consumidor, fazendo com que as ações caíssem 6%. A General Electric mostrou progresso em sua recuperação, enquanto a Johnson & Johnson alertou sobre a economia, mas deu uma perspectiva financeira melhor do que o esperado.  

No geral, os últimos resultados mantiveram o sentimento de uma temporada decididamente mista até agora. Poucas empresas estão mostrando o forte crescimento dos lucros de 2022 e as perspectivas para 2023 não são tão boas. Hoje, teremos a digestão dos números da Microsoft, que chegaram a subir mais de 4% no after-hours de ontem, mas devolveram tudo na sequência. 

A companhia foi a primeira gigante de tecnologia a comentar seus resultados, anunciando a demissão de mais de 10 mil pessoas. O crescimento mais lento da empresa desde 2016 impede um otimismo mais claro. Hoje temos Tesla, AT&T, Boeing e IBM. O mercado definitivamente estará de olho. 

· 02:29 — Como vai a inflação europeia? 

Na Europa, os investidores se debruçam sobre a inflação de preços ao produtor de dezembro no Reino Unido e na Espanha. A expectativa geral é de que as pressões de preços continuem desacelerando, como temos visto nos últimos meses, dando espaço para que o BCE reduza o tom agressivo em seu aperto monetário. Os preços ao produtor representam o poder de precificação das empresas; isto é, acabam tendo em um segundo momento desdobramentos mais evidentes sobre o consumidor. 

Enquanto isso, na Alemanha, temos a tradicional pesquisa de sentimento empresarial. Depois de um inverno quente, a narrativa da mídia tem sido mais positiva na Europa, com dados de sentimento apoiando a tese de aprimoramento do ambiente. É importante para que não tenhamos uma recessão tão dura no continente, apesar da alta dos juros em diferentes países, não só na Zona do Euro. Mesmo que a desaceleração venha, ela não deverá ser tão brutal. 

· 03:15 — Um ponto a se observar na China 

Uma mudança histórica está ocorrendo na China e deve ter impactos de longo prazo para a economia global. Acontece que a população total do país caiu 850 mil em 2022 para 1,4 bilhão, marcando o primeiro declínio desde 1961. A China tem sido uma fonte importante de mão-de-obra e demanda, mas sua taxa de natalidade continua a diminuir à medida que os casais adiam ou decidem não ter filhos. 

O movimento ocorre apesar do fim da política do filho único do governo em 2015 e dos incentivos lançados em 2021, que encorajam as pessoas a ter mais bebês (deduções de impostos, subsídios de moradia e licença maternidade mais longa). Os altos custos da educação também levaram a uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo, bem como a uma tendência de rápida urbanização em um país historicamente rural. 

A tendência demográfica questiona se a China envelhecerá antes de distribuir a riqueza para todos. As Nações Unidas também projetam que, em 2023, a China perderá seu status de país mais populoso do mundo para a Índia, cuja população estimada em 1,4 bilhão ainda está crescendo. No longo prazo, projeta-se que a Índia tenha a maior população em idade ativa, podendo se tornar o principal polo de fabricação mundial. 

· 04:17 — A dívida global 

O mundo está endividado e alcançou recentemente um patamar recorde para a dívida: US$ 300 trilhões — esse é o valor total que governos, famílias e corporações em todo o mundo deviam em 2022, conforme estimado pelo Institute of International Finance. Esse número representa cerca de 350% do produto interno bruto global e o equivalente a US$ 37.500 em dívidas para cada pessoa no mundo. 

A alavancagem mundial é muito maior do que era antes da crise financeira global. O problema é que a demanda por dívida para ajudar os consumidores com a inflação, reconstruir a infraestrutura e enfrentar a mudança climática continua aumentando. Ao mesmo tempo, o aumento das taxas de juros e a desaceleração das economias estão tornando o fardo da dívida mais pesado. 

Os fundos do Fed e as taxas do Banco Central Europeu subiram em média 3 pontos percentuais em 2022. Isso pode significar US$ 3 trilhões a mais em despesas com juros. Ao mesmo tempo, a dívida tornou-se menos produtiva desde 2007, o que significa que o efeito multiplicador de cada dólar adicional emprestado diminuiu. 

Não há saída fácil para uma crise da dívida global. Evitá-la exigirá ações impopulares e uma “grande redefinição” da mentalidade dos formuladores de políticas públicas. Nos próximos anos, os empréstimos serão mais cautelosos, reduzindo o consumo excessivo e reestruturando projetos ou entidades que não dão lucro. 

Um abraço, 

Matheus Spiess 

Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.