Times
Mercado em 5 minutos

Votação do Arcabouço fiscal enfrenta bloqueios na Câmara e Petrobras quer reajustar preço dos combustíveis; confira

Além disso, ma semana passada, o Brasil sediou uma reunião da Organização do Tratado de Cooperação Amazônia, para discutir tópicos como a proibição de novos projetos de perfuração e a erradicação do desmatamento.

Por Matheus Spiess

14 de agosto de 2023, 08:46

Bandeira da Petrobras (PETR4) ao lado de bandeira do Brasil dividendos
Fonte: Shutterstock

Bom dia, pessoal. No cenário internacional, os mercados asiáticos encerraram a segunda-feira (14) em território negativo, seguindo a tendência desfavorável de Wall Street na sexta-feira passada. Os investidores permanecem cautelosos, especialmente após a divulgação de dados que indicaram um aumento nos preços ao produtor dos EUA em julho, superando as expectativas. Isso alimentou especulações de que o Federal Reserve possivelmente optará por manter as taxas de juros elevadas por mais tempo.

Na semana anterior, os números da inflação nos EUA e na China estiveram no centro das atenções dos investidores, sendo que os dados chineses revelaram deflação e um desempenho fraco na balança comercial, o que gerou preocupações.

Os mercados europeus apresentam alta nesta manhã, impulsionados pela divulgação dos dados de preços no atacado da Alemanha referentes a julho, os quais ainda indicam deflação. Os futuros das bolsas norte-americanas também estão em ascensão. No que diz respeito às commodities, há pressão negativa devido a novos indicadores da China que evidenciam desafios estruturais na economia do país.

Ao longo desta semana, esperamos discursos de autoridades monetárias europeias que poderão oferecer insights sobre os próximos passos do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco da Inglaterra (BoE). No cenário nacional, ressurgem preocupações em relação à possível interferência no setor petrolífero, com a sombra da ingerência na Petrobras novamente pairando sobre o mercado financeiro brasileiro.

A ver…

· 00:52 — Quanto você tem pagado no litro da gasolina?

No contexto brasileiro, os investidores optaram por não dar grande importância ao fato de o IPCA ter superado as expectativas do mercado. Isso se deve ao caráter qualitativamente positivo do índice, com um comportamento favorável da inflação de serviços e dos núcleos, além da redução da disseminação inflacionária. Em outras palavras, a possibilidade de um corte de 75 pontos-base nas taxas de juros ainda em 2023, possivelmente na última reunião do ano, permanece em discussão.

No entanto, as preocupações dos investidores se concentram em outra área. Em Brasília, o Centrão está bloqueando a votação do arcabouço fiscal na Câmara dos Deputados, buscando obter uma reforma ministerial que aumente sua influência dentro do governo. Esse rearranjo já deveria ter ocorrido no semestre anterior, mas foi adiado até o momento atual, principalmente por decisão do presidente Lula.

Além disso, a situação se agrava quando se trata da Petrobras. Há uma crescente expectativa entre os agentes do mercado em relação a um possível reajuste nos preços dos combustíveis pela estatal, que está operando com preços dos derivados defasados desde o aumento do petróleo.

É amplamente reconhecido que um reajuste é necessário, como reforçou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, na semana passada, durante o lançamento do Novo PAC. Contudo, ninguém quer ser responsável por comunicar essa notícia impopular, especialmente o presidente Lula.

O atual dirigente da Petrobras, Jean Paul Prates, parece estar inclinado a implementar o aumento nos preços, mas a decisão ainda está por ser tomada. Enquanto aguardamos esse desenrolar, voltamos a sentir a pressão do risco de interferência política. No ambiente corporativo, acompanhamos hoje o último dia da temporada de resultados.

· 01:51 — Sem resolução sobre a Amazônia…

Na semana passada, o Brasil sediou uma reunião da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, que contou com a participação de oito nações que compartilham territórios na região da floresta amazônica. Esse encontro marcou o primeiro do grupo em 14 anos e já era esperado que as discussões sobre mais de 130 questões fossem complexas e controversas. Tópicos como a proibição de novos projetos de perfuração e a erradicação do desmatamento estiveram no centro das negociações.

O ex-presidente Lula pressionou por um compromisso para eliminar o desmatamento até 2030, e seis das oito nações presentes concordaram com essa meta. No entanto, tanto a Bolívia, cuja perda florestal aumentou em 32% no último ano, quanto a Venezuela optaram por se abster. É crucial destacar que a preservação da floresta amazônica é de extrema importância na luta global contra as mudanças climáticas.

Apesar do encontro, parece que não houve um consenso sobre a melhor abordagem para combater o desmatamento. A declaração conjunta divulgada após a cúpula sugeriu que cada país deve estabelecer suas próprias metas de conservação, em vez de adotar uma política regional unificada. Além disso, as nações não chegaram a um acordo sobre como lidar com a questão da mineração ilegal de ouro na Amazônia. Outro ponto de grande relevância é a exploração de petróleo, principalmente na Margem Equatorial, que atrai o interesse da Petrobras.

De fato, a eliminação do desmatamento representa um ônus significativo para os países amazônicos, que teriam que renunciar aos lucros provenientes da pecuária, agricultura e novos empreendimentos de petróleo e mineração. Alguns desses custos poderiam ser mitigados por meio de contribuições internacionais e créditos de carbono. De acordo com estimativas do Banco Mundial, o mercado de créditos de carbono na floresta tropical está avaliado em cerca de US$ 210 bilhões anualmente. Portanto, existe um valor significativo a ser explorado nesse contexto.

· 02:50 — A reta final da temporada de resultado americana

Nos Estados Unidos, os investidores irão concentrar sua atenção no setor de varejo, com Home Depot, Target e Walmart prontos para apresentar seus relatórios de resultados corporativos do segundo trimestre, fornecendo insights sobre as tendências dos consumidores.

Além disso, o Relatório de Vendas no Varejo de julho também estará em foco, com previsões indicando um ligeiro aumento em relação ao ritmo registrado em junho. A expectativa consensual é de um aumento de 0,4% nos gastos em comparação ao mês anterior, após um aumento de 0,2% em junho. A resiliência dos consumidores tem sido cada vez mais evidente, impulsionando a economia neste ano, mesmo em um cenário de retração no setor manufatureiro.

Outro ponto crucial é a divulgação da ata da reunião de julho do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), que proporcionará mais informações sobre a trajetória das taxas de juros, especialmente após o alívio proporcionado pelos dados de julho do Índice de Preços ao Consumidor.

Em termos gerais, a análise detalhada dos dados subjacentes da inflação de julho está alinhada com a contínua trajetória de desinflação. Embora a inflação dos principais serviços tenha mostrado tendência de alta no mês, outras tendências nos diversos componentes estão evoluindo conforme o esperado.

Com base nisso, parece que os dados de inflação de julho reforçaram a argumentação a favor de evitar novos aumentos nas taxas de juros, com a possibilidade de cortes apenas no próximo ano.

· 03:46 — Um acordo pouco provável

Na semana passada, o Irã anunciou a liberação de cinco cidadãos americanos detidos em prisão domiciliar, que possuem dupla nacionalidade, como parte de um acordo. Em contrapartida, os Estados Unidos concordaram em liberar aproximadamente US$ 6 bilhões em ativos iranianos atualmente congelados na Coreia do Sul. Esses fundos serão transferidos para o Catar, onde o Irã poderá utilizá-los para importar itens essenciais como alimentos e medicamentos.

Embora os prisioneiros ainda estejam sob prisão domiciliar, eles deverão ser autorizados a deixar o país em direção aos EUA nas próximas semanas. Este acordo é notável por si só, especialmente à luz das tensões entre os Estados Unidos e o Irã nos últimos anos.

O progresso alcançado aqui é significativo. O Irã, enfrentando restrições financeiras, busca acesso a todos os seus ativos congelados, enquanto o governo Biden busca melhorar as relações com um dos seus principais adversários no Oriente Médio, possivelmente incentivando o Irã a reduzir suas ligações com a Rússia. Este acordo pode ser interpretado como um passo em direção a um possível retorno ao acordo nuclear com o Irã. Mais informações podem estar à vista no final deste mês, quando os inspetores nucleares da ONU apresentarem seu relatório mais recente sobre o progresso do enriquecimento de urânio no Irã.

· 04:35 — Qual o fundo do poço do mercado imobiliário da China?

No final de 2022, havia uma expectativa de que a China emergiria da pandemia de Covid em uma posição mais sólida do que outras partes do mundo. O país recebeu elogios por seu notável sucesso na contenção das mortes pela doença. Talvez essa crença também trouxesse a perspectiva de que a segunda maior economia global recuperaria sua proeminência após uma crise global, como foi testemunhado entre 2008 e 2009.

No entanto, ao invés disso, a economia chinesa enfrentou obstáculos devido à persistente adoção de políticas rigorosas de “Covid-zero”. Mesmo após a flexibilização dessas políticas, a atividade econômica na China permaneceu consideravelmente abaixo do esperado durante esse período.

Atualmente, a recuperação econômica chinesa está enfrentando novos desafios devido ao agravamento da crise no setor imobiliário. Os últimos dados provavelmente mostrarão indícios limitados de uma retomada do crescimento. As estatísticas oficiais divulgadas recentemente indicam um aumento moderado na produção industrial, nas vendas do varejo e nos investimentos em ativos fixos.

O investimento no setor imobiliário, por sua vez, provavelmente continuou a diminuir em julho.

Enquanto isso, a grande empresa imobiliária Country Garden anunciou a suspensão da negociação de quase uma dúzia de títulos no mercado local.

Além disso, Pequim lançou um plano para atrair mais investimentos estrangeiros, incluindo incentivos fiscais e medidas relacionadas a vistos. No entanto, essa iniciativa parece não ser suficiente para enfrentar os desafios em curso.

Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.