Brasília amarela

Estive em Brasília ontem. É sempre divertido. Ao caminhar pela Esplanada dos Ministérios sob efeito de Red Bull, a imaginação cria asas.

Brasília amarela

Estive em Brasília ontem. É sempre divertido. Ao caminhar pela Esplanada dos Ministérios sob efeito de Red Bull, a imaginação cria asas. Não sei por que, mas me veio na cabeça uma conversa meramente hipotética, criada assim do nada entre dois parlamentares.

Vamos chamar arbitrariamente os personagens fictícios de RM e Fulano – este último como um simbolismo do indivíduo representativo. Foi mais ou menos assim:

RM: É um prazer receber vossa excelência em meu gabinete. Há muito não nos falávamos. Precisamos nos ver mais.

Fulano: Ah, não tenho dúvida. É sempre um prazer encontrar vossa excelência.

RM: Tempos difíceis, né?

Fulano: Ah, nem me fale.

RM: Só um minuto que a Rita há está trazendo o café. Ou será que vossa excelência prefere um whiskynho? 

Fulano: Eu adoraria, mas me parece um pouco cedo para embarcar naqueles maravilhosos 18 anos que vossa excelência tradicionalmente nos serve. Vou de café mesmo.

RM: Claro, claro. Se vossa excelência me permite, eu não vou resistir a uma dosinha. Só pra abrir o apetite.

Fulano: Fique à vontade…

RM: Mas, então… Vossa excelência me perdoe o mau jeito. Entenda a minha posição… Eu tenho de perguntar…

Fulano: Ow, certamente. Não temos cerimônias entre nós. Somos velhos companheiros.

RM: Olha, é melhor evitar este termo. 

(risos)

Fulano: Pode perguntar, presidente.

RM: É… veja bem… O senhor é a favor ou contra a reforma da Previdência?

Fulano: Vossa excelência sabe que eu sou contra. Tenho uma longa causa de defesa do direito dos trabalhadores. Vossa excelência conhece minha trajetória, ao lado do povo, muito ilibada.

RM: Sem dúvida alguma. Uma longa tradição de serviços prestados ao Brasil e ao povo. Vossa excelência deveria se orgulhar.

Fulano: Ah, mas eu me orgulho muito.

RM: Merecidamente…

Fulano: Olha, acho que vou aceitar aquele whisky. Garganta até ficou seca aqui. E seria uma desfeita da minha parte não acompanhar vossa excelência.

RM: Companheiro é companheiro. 

Fulano: Ops, melhor evitar o termo…

(risos)

RM: Mas, então.. além de sua defesa pelos trabalhadores, há alguma outra coisa que faça vossa excelência ser contrário à reforma?

Fulano (falando para Rita): Muito obrigado. A senhora ainda lembra do jeito que eu gosto. Apenas uma pedra de gelo. Um brinde!

Fulano (agora dirigindo-se a RM): Eu preciso me reeleger no ano que vem. Não só eu. Mas toda a bancada que eu acompanho e que represento.

RM: Sim, é muito importante. E é muito merecido, por tudo que vossa excelência já fez ao País.

Fulano: Exatamente! E essas reformas são muito impopulares. Se eu for favorável a isso, eu corro o risco de não me reeleger. Então, fico exposto à turma lá de baixo.

RM: Perdão, deputado. Turma lá de baixo? Não entendi…

Fulano: Vossa excelência sabe…O pessoal de Curitiba, do Moro.

RM: Ah, sim, claro. Como pude não fazer a ligação…

Fulano: Não que eu tenha cometido nenhuma irregularidade. Tenho uma trajetória da mais perfeita retidão moral.

RM: Ah, disso não temos dúvida, deputado.

Fulano: Mas aquele pessoal está imparável. É uma cruzada contra os políticos. Querem colocar nas nossas costas todo o ônus. Assim não temos condições. 

RM: Com isso, eu concordo. Precisamos colocar um freio lá. Pelo bem do Brasil..

Fulano: Sim. É disso que estou falando. O Moro se acha um justiceiro. Mas deste jeito ele para o País. Quantos empregos vão ser perdidos? As empreiteiras, os frigoríficos… E se o Palóti (caprichando no sotaque italiano) vier a falar, entram os bancos também. É quebradeira geral. O País não aguenta, não.

RM: É a mais pura verdade.

Fulano: Rita, será que eu teria direito a mais um golinho?

RM: Mas, deputado, pensando aqui… neste contexto de destruição da classe política, acho que vamos precisar da Lista Fechada para as eleições de 2018. Vossa excelência não acha?

Fulano (a Rita): Obrigado, Rita. Agora a senhora caprichou..

Fulano (a RM): Eu acho, sim. A Lista Fechada é muito importante.

RM: Pois é. E vossa excelência sabe como funciona a Lista Fechada, não é?

Fulano: Claro. Vossa excelência sabe o quanto acompanho de perto essa discussão, e todas as outras relevantes ao País…

RM: Claro, claro. Eu tinha certeza disso. Só estava construindo o raciocínio.

Fulano: Prossiga, prossiga. Eu interrompi. Me desculpe.

RM: Na Lista Fechada, para se eleger, é fundamental estar relacionado entre os primeiros, né?

Fulano: Claro. É o princípio desta construção toda.

RM: Então… e quem decide sobre os primeiros e os últimos na Lista é o partido.

Fulano: Certamente…

RM: Pois bem…O partido precisa respeitar os princípios democráticos. E, claro, por uma questão de coerência, vai ter de privilegiar aquele pessoal que foi fiel nas votações, principalmente naquelas mais difíceis. Essa lealdade ao partido precisa ser recompensada pelo próprio partido.

Fulano: Entendi perfeitamente. Na Lista Fechada, só é eleito quem está entre os primeiros lugares, claro. E estarão nos primeiros lugares aqueles que tiveram suportado a Reforma da Previdência…

RM: Vossa excelência aceita um reforço ai? Rita, serve o reforço ao deputado, por favor?

Fulano: Obrigado, Rita.

RM: Então, mesmo vossa excelência sendo contrário à reforma, será que o senhor não votaria a favor?

Fulano: Mas é claro que eu votaria. Se é pelo bem do Brasil, vossa excelência pode contar comigo.

RM: Eu não tinha a menor dúvida. Isso, sim, vale um brinde!

Comissão Especial aprovou texto da Reforma da Previdência na noite de ontem, numa primeira vitória formal sobre o assunto. Com 23 votos favoráveis, governo obteve 62% de apoio. Se fosse no Plenário, o percentual garantia a aprovação do texto. Mas o se não entra na história.

Mercado não quer comprar com antecipação, com razão. Treino é jogo, e jogo é guerra. Mas me parece razoável o prognóstico de que a reforma será aprovada e conduzirá os prêmios de risco a níveis menores, possivelmente com recorde histórico para o Ibovespa e mínimas locais para os juros futuros.

A conta da reforma da Previdência será a Lista Fechada. É uma atrocidade, claro. Mas, se esse, infelizmente, é o ônus com o qual temos de pagar, ok, que assim seja. A hora de comprar Bolsa e juro longo, pra mim, é agora.

Hoje jornais começam a destacar melhora dos balanços corporativos no primeiro trimestre. É uma realidade – claro que o jornalismo sempre trata com o atraso de sempre, mas que é verdade, é. Empresas passaram 2016 inteiro ajustando custos e despesas. Ao longo do ano passado, essa limpeza toda estava transitando pelos balanços (demissão é um custo inicialmente). Agora, os resultados já estão sem os efeitos negativos desses ajustes, com as empresas bem enxutas. Imagina quando voltar, de fato, o crescimento de top line? Ai é alavancagem operacional brutal na veia..

Para alguns, porém, isso é assunto para depois. Mercado focado em questões mais imediatas. Ruído em torno da Previdência, com o exército das hienas do Tio Scar fazendo o circo de sempre, associado à derrocada do minério de ferro em Qingdao e Dailan traz aversão a risco – commodity bateu limite de baixa na China sob preocupações com bolha de crédito e excesso de oferta.

Bolsas na Europa sobem lideradas por bancos, enquanto mineradoras impedem apreciação mais vigorosa. Futuros de Wall Street também apontam para alta. Resultados corporativos acima do esperado estão no centro das atenções.

Por aqui, mercados com tendência predominantemente negativa. Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,35 por cento, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam.

Agenda norte-americana traz pedidos de auxílio-desemprego, encomendas à indústria, balança comercial e produtividade da mão-de-obra. China trouxe desaceleração do setor de serviços, para pior nível em quase um ano.

Por aqui, destaque para repercussão da aprovação da Previdência na comissão especial e nova fase da operação Lava Jato, além de IPC-Fipe levemente acima do esperado.

PS.: Encerraremos nesta quarta-feira as adesões ao Empiricus 1 MR – projeto do Walter Poladian. Três meses para formar um caminho crível para se tornar um milionário. Vale muito a pena conhecer. Sucesso incrível de público e crítica.

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