(Imagem: Suphanat Khumsap/iStock)
Os mercados iniciam o dia em contraste. No exterior, a nova escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã levou o petróleo novamente para perto dos US$ 100 por barril, reacendendo preocupações com a inflação e reforçando as apostas de que o Federal Reserve poderá elevar os juros na próxima decisão monetária.
No Brasil, porém, a dinâmica segue diferente. O mercado continua aproveitando o chamado “trade eleitoral”, apoiado por pesquisas que indicam uma disputa mais equilibrada e pela percepção de que uma eventual mudança de governo poderia resultar em maior disciplina fiscal nos próximos anos.
0:43 – A excepcionalidade brasileira
Mesmo diante da alta do petróleo e da elevação dos rendimentos dos Treasuries americanos, ontem o Ibovespa avançou 1,2%, o dólar recuou para R$ 5,09 e os juros longos voltaram a fechar de forma relevante.
Um dos gatilhos foi a divulgação de pesquisas eleitorais apontando um cenário mais acirrado, já que a leitura é de que uma maior probabilidade de alternância no poder aumente as apostas em um ajuste fiscal mais robusto a partir de 2027.
Não à toa, os contratos de juros mais curtos ficaram praticamente estáveis, enquanto os vencimentos de longo prazo registraram forte fechamento, refletindo uma visão mais construtiva para o cenário fiscal dos próximos anos.
O movimento ainda depende da manutenção das expectativas atuais e das próximas rodadas de pesquisas, mas, por enquanto, o mercado parece disposto a aumentar as apostas nesse cenário.
2:56 – O gringo voltou a olhar com carinho
Além do fator eleitoral, os ativos brasileiros receberam outro impulso importante.
Após um período de cautela, bancos e gestores globais voltaram a demonstrar uma visão mais positiva para o Brasil. Ontem, o Bank of America elevou sua recomendação para ações brasileiras, citando a combinação de inflação mais comportada, possibilidade de juros mais baixos à frente e um ambiente político potencialmente mais favorável aos investimentos.
O movimento ajuda a explicar por que o mercado brasileiro tem conseguido se descolar de boa parte dos emergentes. Desde o início do mês, o principal ETF brasileiro negociado em Nova York acumula desempenho muito superior ao índice que reúne outros países emergentes, sinalizando que a demanda por Brasil tem sido impulsionada por fatores predominantemente domésticos.
Ainda é cedo para afirmar que se trata de uma mudança estrutural de fluxo, mas os sinais recentes mostram que o investidor internacional voltou a incluir o Brasil no radar.
4:18– O petróleo volta a assustar…
Enquanto o Brasil vive uma história própria, o restante do mundo volta as atenções para o Oriente Médio.
A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã levou o Brent a superar momentaneamente os US$ 100 por barril pela primeira vez desde julho, reacendendo os temores de uma interrupção na oferta global de petróleo.
Ao mesmo tempo, a retomada das compras da China, maior importadora mundial da commodity, adiciona um componente de demanda que ajuda a sustentar os preços em patamares mais elevados.
O resultado é um desconforto adicional para os bancos centrais. Depois de um payroll mais forte do que o esperado e com o petróleo pressionando as expectativas de inflação, os investidores passam a olhar com ainda mais atenção para os próximos indicadores americanos. Amanhã será divulgado o PPI, que mede a inflação ao produtor, enquanto na sexta-feira sai o CPI, principal indicador de inflação ao consumidor.
Em um momento em que o mercado já debate a possibilidade de um Fed mais duro, os dois dados podem trazer novas pistas sobre a trajetória dos preços nos Estados Unidos. Qualquer surpresa altista tende a reforçar a percepção de que os juros precisarão permanecer elevados por mais tempo.
5:12 – …mas ele não é tudo
Com o petróleo novamente próximo dos US$ 100 por barril, é natural que os investidores voltem a revisar os impactos de custos mais elevados para diversos setores da economia. Apesar de vir apresentando uma evolução operacional consistente e resultados que surpreenderam positivamente o mercado, a Alpargatas (ALPA4) acabou sendo penalizada de forma relevante por esse movimento nos últimos dias.
Ainda que parte dos custos seja influenciado por derivados do petróleo, o impacto da recente alta da commodity tende a ser limitado e parcialmente compensado pelo comportamento do câmbio. Vale lembrar que essa mesma preocupação já havia penalizado as ações no início do conflito no Oriente Médio. Mesmo assim, a companhia surpreendeu positivamente o mercado ao entregar resultados acima das expectativas, com avanços em eficiência operacional, rentabilidade e execução.
Os números mais recentes reforçam que a reestruturação operacional segue produzindo efeitos concretos, enquanto ainda existe espaço para melhorias adicionais nos próximos trimestres. Nesse contexto, a magnitude da correção recente parece desproporcional aos potenciais impactos da alta do petróleo, especialmente para uma companhia que continua mostrando evolução consistente e entregando resultados acima das expectativas. Para investidores com horizonte de longo prazo, entendemos que o movimento recente abre uma oportunidade interessante de compra.