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Os mercados globais operaram em tom de cautela, com as bolsas recuando ao menor nível em duas semanas, pressionadas por uma nova onda de vendas no setor de tecnologia. A queda das ações da Apple, as dúvidas sobre um eventual adiamento do IPO da OpenAI e a forte correção das empresas de chips na Coreia do Sul, que provocou novas suspensões de negociação, reforçaram o desconforto dos investidores com os custos crescentes da infraestrutura de inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, o cenário geopolítico segue no radar. O acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã continua sendo o principal pano de fundo, mas a situação no Estreito de Ormuz permanece instável após o ataque a um navio próximo à costa de Omã e a pausa temporária da Organização Marítima Internacional em seu plano de evacuação. Ainda assim, o petróleo recuou, com Brent e WTI abaixo dos níveis recentes, sugerindo que o mercado ainda trabalha com a hipótese de normalização.
· 00:54 — O corte virá…
No Brasil, o Ibovespa fechou em alta, aos 171.990 pontos, com o mercado tentando decifrar os sinais ainda truncados de política monetária após a divulgação do Relatório de Política Monetária e a entrevista de Gabriel Galípolo. Como havia mais espaço para explicações, seria natural esperar um detalhamento maior e, portanto, mais clareza. Ainda assim, algumas dúvidas permanecem.
De certa forma, desde a semana passada, os ruídos vieram tanto do comunicado quanto da ata do Copom, que deixaram em aberto a possibilidade de pausa ou de novo corte da Selic.
Depois dos eventos da manhã de ontem, o mercado voltou a se inclinar levemente para uma redução de 0,25 ponto percentual em agosto, especialmente após o IPCA-15 de junho vir abaixo do esperado, com alívio nos núcleos e nos serviços subjacentes. Está longe de ser uma solução definitiva, mas ajudou. Também contribuiu a queda expressiva dos yields nos Estados Unidos, diante de detalhes do PCE que permitiram uma leitura menos dura para a política monetária americana (gastos com consumo mais fracos).
De todo modo, ainda permanece obscuro o cenário alternativo para o primeiro trimestre de 2028, no qual seria possível observar uma inflação abaixo da meta de 3%. É possível que o Banco Central tema uma desaceleração mais forte da atividade caso persiga a meta de forma muito rígida e, por isso, aceite continuar cortando juros, ainda que isso implique abrir mão de parte da credibilidade conquistada no ano passado com o aperto monetário.
Trata-se de uma estratégia arriscada, mas que, considerando o patamar dos juros no Brasil e a situação de estresse financeiro das famílias e de alguns setores da economia, tem sua lógica — embora possa ser interpretada como uma postura demasiadamente dovish. Ainda assim, o quadro doméstico segue exigindo cautela. Embora o IPCA-15 tenha avançado 0,41% no mês, abaixo da mediana do mercado, a inflação em 12 meses acelerou para 4,80%, e o qualitativo ainda permanece desconfortável, apesar da melhora pontual em algumas métricas subjacentes.
Na agenda de hoje, os destaques ficam com a PNAD Contínua, as contas externas, a Pesquisa Firmus do BCB e a definição da bandeira tarifária pela Aneel. No plano político, os desdobramentos do vídeo de Michelle Bolsonaro continuam gerando ruídos no PL e criando uma nova crise para Flávio Bolsonaro administrar, especialmente porque uma eventual perda de apoio entre mulheres e evangélicos pode ser decisiva em um possível segundo turno do senador.
· 01:48 — Digerindo os gastos com consumo
Nos Estados Unidos, os mercados tiveram uma sessão sem direção única, mas marcado por sinais mistos entre os principais índices. O Dow Jones chegou a superar brevemente os 52 mil pontos e encerrou em leve alta, enquanto o S&P 500 ficou praticamente estável e o Nasdaq recuou, pressionado pelas ações de tecnologia. Ao mesmo tempo, a inflação voltou ao centro das atenções.
O PCE geral de maio subiu 4,1% em 12 meses, superando a marca de 4% pela primeira vez em três anos, impulsionado sobretudo pela alta recente dos combustíveis. Embora a queda do petróleo sugira que o pico inflacionário possa ter ficado para trás, o núcleo do PCE ainda avançou 0,3% no mês e 3,4% em 12 meses, permanecendo acima da meta de 2% do Fed, com composição desfavorável em serviços financeiros, transporte e saúde.
A deflação de bens indica algum alívio no repasse de tarifas, mas a persistência dos serviços e o risco de que parte dos aumentos de preços se torne permanente mantêm o Federal Reserve em uma posição delicada: por ora, o cenário ainda favorece juros estáveis, mas a probabilidade de uma postura mais dura aumentou.
· 02:39 — A corrida
A Micron voltou ao centro do rali de inteligência artificial ao entregar resultados muito acima do esperado, em linha com o que comentei ontem, com alta superior a 15% nas ações após a divulgação do balanço e projeções fortes para o quarto trimestre. Mais do que os números em si, o mercado reagiu positivamente aos 16 acordos estratégicos firmados com clientes, que garantem volumes mínimos e faixas de preço por cinco anos, reduzindo parte da volatilidade típica do setor de memória.
Em um mercado em que a oferta de HBM, a memória de alta largura de banda usada em aplicações avançadas de IA, segue apertada e novos projetos são grandes, complexos e demorados, a Micron ganha poder de precificação e passa a capturar uma parcela relevante do valor gerado pelo boom de data centers e inteligência artificial.
O outro lado dessa história é que o sucesso da Micron começa a aparecer como pressão de custos para o restante da cadeia de tecnologia. Apple e Microsoft já anunciaram aumentos de preços em produtos como MacBooks, iPads e consoles Xbox, citando a disparada dos custos de memória e armazenamento.
Esse movimento sugere que o boom da IA não está sendo financiado apenas pelas hyperscalers, as grandes empresas que operam data centers em escala global, mas também pelo consumidor final. Essa dinâmica reforça a leitura de que a IA pode funcionar, no curto prazo, como um vetor de “aceleração da inflação”, pressionando eletrônicos, componentes e possivelmente a política monetária, enquanto os ganhos de produtividade prometidos pela tecnologia tendem a levar mais tempo para aparecer.
· 03:21 — Retomada gradual
A retomada gradual do tráfego pelo Estreito de Ormuz reforça a urgência de normalização das operações de petróleo e gás, mesmo após o primeiro ataque a uma embarcação desde o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã.
Apesar do episódio envolvendo um navio porta-contêineres e dos alertas da Guarda Revolucionária iraniana sobre as rotas autorizadas, dados de rastreamento indicam que petroleiros carregados voltaram a deixar o Golfo Pérsico, enquanto superpetroleiros vazios seguem em direção à região. Esse movimento sugere alguma confiança dos operadores na reabertura progressiva da rota.
O Brent chegou a recuar para a casa dos US$ 73 por barril, depois de ter subido com o ataque, sinalizando que o mercado ainda trabalha com a hipótese de normalização da oferta do Oriente Médio. Ainda assim, o episódio mostrou que o prêmio de risco geopolítico não desapareceu. Alguns navios recuaram, a Organização Marítima Internacional suspendeu temporariamente seu plano de evacuação e Teerã passou a contestar corredores de navegação que não tenham sido coordenados com o Irã.
A percepção predominante segue sendo de retomada parcial do fluxo de petróleo, mas ainda condicionada à consolidação da paz e à reabertura plena de Ormuz.
· 04:17 — Antecipando eleições
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, estaria avaliando antecipar para abril as eleições originalmente previstas para ocorrer até o fim de 2027, em meio à queda de sua popularidade e ao avanço de uma força ainda mais à direita dentro do próprio campo conservador.
Eleita em 2022 com uma agenda marcada pelo endurecimento das regras migratórias, pela defesa de valores conservadores e por uma postura de maior resistência ao poder da União Europeia, Meloni adotou uma linha mais pragmática ao chegar ao governo. Buscou ampliar o diálogo com Bruxelas, manteve o apoio à Ucrânia e expandiu o acesso a vistos de imigração, embora tenha preservado medidas mais duras contra requerentes de asilo. Essa inflexão ao centro, somada à derrota de uma reforma judicial em referendo, reduziu parte de seu apoio político.
O principal risco, porém, vem da direita mais extremista. O National Future Party ganhou força nas pesquisas e já atraiu ao menos oito parlamentares da coalizão governista, aumentando a pressão sobre Meloni. Nesse contexto, a antecipação das eleições passa a ser vista como uma alternativa para tentar recuperar o controle da narrativa política antes que a erosão dentro de sua própria base se aprofunde.
· 05:02 — Mais sinais do ciclo virtuoso
A Argentina começa a apresentar sinais mais consistentes de entrada em um ciclo virtuoso, sustentada pela melhora de pilares macroeconômicos essenciais. As exportações avançaram mais de 20% em dólar entre janeiro e abril, impulsionadas não apenas por preços mais favoráveis, mas também por volumes maiores, com destaque para commodities agrícolas e minerais, manufaturados e energia.
O setor energético é um dos exemplos mais relevantes dessa virada: depois de registrar déficit comercial há dois anos, passou a acumular superávit próximo de US$ 9 bilhões nos últimos doze meses, com expectativa de aumento da produção de petróleo e início das exportações de gás natural liquefeito a partir do fim de 2027. A melhora do setor externo também contribui para dar sustentação ao câmbio, reduz a necessidade de ajustes bruscos no peso e amplia a capacidade do Banco Central de recompor reservas, que já superaram a meta anual de acumulação em 2026.
Esse avanço começa a se refletir na percepção de risco do país. A S&P elevou a nota soberana da Argentina de CCC+ para B-, movimento já antecipado pela Fitch, enquanto os spreads dos títulos externos recuaram de forma expressiva.
A MSCI, por outro lado, manteve o país como “Mercado Standalone”, adiando uma eventual reclassificação para mercado emergente, e a Moody’s ainda conserva a nota argentina em Caa1, embora novas revisões possam ocorrer com o tempo. A inflação também segue em trajetória de melhora: após atingir pico em fevereiro, o índice de preços ao consumidor avançou 2,1% em abril, com núcleo de 1,9%, enquanto as projeções apontam desaceleração gradual em 2026 e 2027.
A atividade, por sua vez, ainda é o ponto mais frágil do cenário, com crescimento modesto de 1,7% no primeiro trimestre de 2026. Ainda assim, juros mais baixos, maior dinamismo exportador, investimentos em infraestrutura e recuperação da confiança do consumidor podem sustentar uma retomada mais forte nos próximos trimestres.
Nesse contexto, a tese de investimento na Argentina permanece apoiada na combinação de desinflação, melhora externa, recomposição de reservas, queda do risco-país e retomada gradual da atividade. Para capturar essa recuperação, há dois veículos principais: o ARGT39 e o ARGE11. O ARGT39 oferece uma exposição regional válida, mas possui concentração relevante em MercadoLibre, cuja geração de receita depende mais da América Latina como um todo — especialmente do Brasil — do que da economia argentina em si.
Já o ARGE11 tende a oferecer uma exposição mais direta ao ciclo doméstico argentino, por replicar um índice composto por ADRs de empresas ligadas a bancos, energia, utilities e materiais, como Grupo Financiero Galicia, YPF, Pampa Energia, Ternium e Banco Macro. São setores que tendem a responder de forma mais imediata à queda da inflação, à melhora do crédito, à redução do risco-país e ao avanço da agenda econômica local.