O choro é livre

Se em 2013 a população foi às ruas, em geral, para pedir mais serviços e tomar mais um gole nas tetas do Estado, a discussão agora migra para eficiência do gasto público e caminhada na agenda liberal.

O choro é livre

Termina mais um semestre.

O que isso quer dizer? Nada. Com efeito, é só mais um dia, como qualquer outro. Embora ainda procure diferença entre os economistas e os astrólogos, com maior afeição aos últimos por conta da menor empáfia, não há razões para acreditar em impactos do efeito calendário sobre o preço dos ativos.

De todo modo, ainda que não seja uma atitude alinhada estritamente à racionalidade perfeita (na prática, o que é?), ninguém resiste a uma reflexão nesses momentos que encerram ciclos. Serve para tentarmos olhar com afastamento, procurando distanciar-nos um pouco das árvores para que possamos enxergar a floresta inteira.

Em várias situações, se nos enveredamos pelos ruídos dos indicadores de alta frequência, perdemos a noção da caminhada mais ampla. Acompanhando em tempo real cada comissão especial, cada nova fase da Lava Jato, cada novo índice de preços, não sabemos mais para onde estamos indo.

Como chegamos ao final de junho? Quanto avançamos ou retrocedemos nesse intervalo de tempo?

Eu entendo que evoluímos. Não foi fácil, evidentemente. Quando olhamos para o desalento da cena política e vislumbramos o desastre fiscal à frente caso não sejam aprovadas a reforma da previdência e muitas outras, encontramos motivos para pessimismo. Também é evidente que imaginamos no começo do ano que poderíamos chegar aqui ainda melhores do que realmente estamos – com efeito, talvez estivéssemos ainda além da imaginação não fosse o fatídico áudio Temer-Joesley. E, por fim, ao ver os protestos desta sexta-feira, ninguém pode supor um país voando.

Mas, apesar do choro, do ranger de dentes e da ciência das dificuldades à frente, encontro um balanço positivo em termos líquidos. Meus critérios são objetivos. O primeiro deles é imediato e se liga diretamente a uma questão pessoal. Mesmo num ambiente difícil, conseguimos entregar resultados consistentes a nossos leitores, o que deixa claras as oportunidades presentes no mercado. Supondo a não ocorrência de maiores surpresas nesta sexta-feira (isso é sempre capcioso e muitas vezes serve apenas para trair o redator), a Carteira Empiricus conclui o semestre com ganhos em torno de 8,5 por cento, bem acima do CDI e de seu próprio objetivo tradicional.

Ainda que o ambiente tenha sido especialmente desafiador, quando pudemos entrar em contato real com a fauna dos cisnes negros, apuramos bons lucros com os fundos imobiliários, posições em renda fixa e mesmo com ações (book de Bolsa acumula alta de 12,5 por cento no ano) – ainda que o desempenho do Ibovespa não tenha sido bom, houve bons lucros a serem capturados por quem soube escolher.

A visão de um copo meio cheio, porém, não se restringe ao universo financeiro ou mesmo às minhas questões particulares e vocacionais. O país teve, sim, conquistas no sentido de abandonar aquela rota rumo ao desastre que vinha sendo adotada desde a trágica nova matriz econômica.

Controlamos a inflação e as expectativas. Agora, há inclusive risco de que a inflação fique abaixo da meta. Isso cria um ambiente favorável para consumo e investimento e inclusive ajuda na distribuição de renda – quem mais perde com a alta dos preços é o pobre.

Sob preços controlados e uma equipe econômica responsável, podemos seguir cortando a Selic, possivelmente para a casa dos 8%, onde o juro básico deve permanecer por bastante tempo.
A esses avanços, soma-se a revisão para baixo na meta de inflação. Ainda que imponha dificuldades adicionais para seu cumprimento e até dificulte o ajuste fiscal (a inflação faz parte do ajuste), a decisão é positiva e aproxima o Brasil de outros países emergentes, com uma inflação anual mais na linha de 3%.

Em paralelo, firmamos o compromisso com a PEC do teto de gastos, abandonamos a farra com crédito subsidiado no BNDES, fechamos as torneiras dos bancos públicos, avançamos nos programs de concessão e privatização, evoluímos em alguns marcos regulatórios, estamos na cara do gol da reforma trabalhista, as contas externas emitem sinais acima das expectativas, com um desempenho formidável da agricultura e recuperação do minério de ferro. Talvez ainda mais importante seja que trouxemos a discussão fiscal para as mesas de bar. Se em 2013 a população foi às ruas, em geral, para pedir mais serviços e tomar mais um gole nas tetas do Estado, a discussão agora migra para eficiência do gasto público e caminhada na agenda liberal.

Na esfera micro, além da consolidação setorial, principalmente nos setores elétrico e financeiro, e das privatizações, os lucros das empresas brasileiras no primeiro trimestre vieram acima do esperado e o prognóstico é de mais alavancagem operacional à frente, conforme encontremos alguma recuperação cíclica da atividade.

E, sim, contamos também com a sorte. O cenário externo continua altamente favorável ao Brasil. Querendo ou não, ainda somos um grande beta sobre a economia e os mercados globais. Isso explica muito mais do nosso resultado do que o consenso imagina. Enquanto procuramos filigranas domésticas para explicar a “complacência dos mercados diante dos riscos’, fato é que a ampla liquidez global fundamenta quase a integralidade disso.

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Aliás, sobre isso, há algo curioso. Os traders entenderam muito melhor a dinâmica do que os analistas e os jornalistas. Em termos pragmáticos, importa muito menos a notícia em si do que a forma com que o mercado reage a ela. Nassim Taleb é claríssimo em Iludidos pelo Acaso sobre o tema, ao relacionar como a imprensa consegue atribuir a interpretação que quiser a um determinado fenômeno. Bolsa cai com alta do petróleo. Logo na sequência: Bolsa sobe com alta do petróleo. Decidam!

Agora, a preocupação seria com uma eventual subida de juro lá fora. Isso, supostamente, retiraria fluxo dos mercados emergentes e poderia miar minha interpretação de um copo meio cheio. Mas, da mesma forma que não há correlação entre PIB local e Ibovespa, não há entre juro lá fora e bolsas emergentes. Ao contrário, talvez até haja, no sentido aparentemente contraintuitivo. Juros subindo indicam força das economias centrais, commodities em alta e bom prognóstico para emergentes – com efeito, a recuperação recente dos PMIs traz perspectivas animadoras para a economia global, com muita gente se interessando por bolsa europeia e o smart money começando a olhar Japão, mais barato e esquecido por mais tempo, com carinho.

E o fato de que podemos trocar novamente de presidente não preocupa? Em cada 10 investidores, cinco acham boa sua permanência. Outros cinco acham ruim. Ou seja, quando pode ser bom ou ruim, deixou de ser importante. De novo, não importa tanto a notícia em si, mas como reagiremos a ela.

Sou da opinião pessoal de que sua saída pode trazer volatilidade de curto prazo, mas seria boa ao fim do dia, se respeitada a Constituição, obviamente. Uma eleição indireta traria alguém alinhado à pauta das reformas e provavelmente de maneira mais acelerada, dado que o fatiamento das denúncias contra Temer traz morosidade ao processo.

Ao mesmo tempo, não acho a permanência de Temer uma tragédia. De uma forma ou de outra, mesmo aquém do desejável, estamos caminhando. Aos trancos e barrancos, vamos aprovar a reforma trabalhista. E depois do recesso a Previdência pode voltar à pauta, mesmo que seja apenas com a idade mínima – como brasileiro ficaria frustrado, claro, mas para o mercado pode bastar.

Em outras palavras, não vejo grande downside na saída ou na permanência de Temer. As reformas que importam, e elas parecem depender menos de Temer. O verdadeiro downside para o Brasil seria a eleição de Lula (ou de algum outro candidato contra as reformas em 2018). Furaríamos a PEC do teto de gastos e caminharíamos rumo à escuridão. A Venezuela é logo ali. Mas isso já é assunto para um outro texto.

Mercados começam a sexta-feira de maneira positiva, mas com variações moderadas. Cenário externo favorável, com recuperação de Wall Street após tombo de ações de tecnologia e alta de commodites, ajuda no bom humor.

PMI da China marcou 51,7 pontos, acima das projeções e voltou a dissipar preocupações com desaceleração abrupta, além de empurrar commodities.

Agenda é importante nos EUA, com PCE, renda e gastos dos norte-americanos, atividade em Chicago e sentimento do consumidor.

Por aqui, temos resultado fiscal consolidado e dados de desemprego. Cena política também, claro, segue observada de perto.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,2 por cento, dólar cai 0,28 contra o real e juros futuros buscam definir tendência.

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