“Levy tem capacidade, mas não vai dar certo”, diz sócio da Empiricus

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O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, dificilmente terá condições de implementar um acerto nas contas públicas com a dimensão necessária para resgatar a credibilidade dos investidores e empresários. Diante do recrudescimento da crise na Europa e na Rússia, da desaceleração chinesa e do arrocho que suas medidas causarão em um primeiro momento, Levy corre o sério risco de se tornar um bode expiatório e ser demitido pela presidente Dilma Rousseff em pouco tempo. Esta é a avaliação de Felipe Miranda, sócio da casa de análise independente Empiricus.

Miranda causou um verdadeiro furacão, em julho do ano passado, quando lançou a primeira versão de sua tese O Fim do Brasil. Nela, o economista defende que o modelo desenvolvimentista adotado pelo governo, depois de 2008, batizado de nova matriz econômica, deve ser abandonado ou levará o País ao caos. Publicada no início da corrida presidencial, Miranda foi processado pelo PT, partido de Dilma, e acusado de fazer campanha para o senador Aécio Neves, que concorreu ao cargo pelo PSDB.

Na época, suas previsões incluíam uma alta do dólar para R$ 2,60, a queda do superávit primário para cerca de 1% do PIB e um crescimento da economia da ordem de 1,3% para 2014. A realidade, porém, mostrou-se bem mais sombria: o dólar fechou acima desse valor; a economia dá sinais de crescimento nulo e as contas devem fechar com um déficit de 1%. “Foi pior do que imaginava”, diz. Agora, o sócio da Empiricus está pessimista com a capacidade de Joaquim Levy arrumar a casa. E, mesmo que consiga, o impacto das medidas se traduzirá em uma retração do PIB de 0,5% em 2015. “Ele tem capacidade, mas não vai dar certo”, afirma. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista ao site da DINHEIRO.

DINHEIRO – Joaquim Levy, novo ministro da Fazenda, será capaz de reconduzir a economia, efetivamente, ao crescimento?
Felipe Miranda –
 É difícil falar com precisão neste momento, mas não há dúvidas de que a sua nomeação foi muito positiva. O Levy representa a antítese neoliberal à tese desenvolvimentista em curso. Temos possibilidade de brecar essa excrescência que foi a nova matriz econômica. Mas poderemos ter problemas. Enquanto a presidente prometer um ajuste fiscal sem dor, isso não é crível. A conta não para em pé, porque o emprego e a renda precisam entrar como variáveis. O meu grande medo é justamente esse. E o exemplo mais clássico é o que aconteceu com o Nelson Barbosa [ministro do Planejamento], que foi desautorizado por Dilma, quando apontou mudanças no reajuste do salário mínimo. Ela sinalizou que admite ajuste, desde que não atinja o núcleo da política desenvolvimentista que defende, que tenta preservar o salário e o emprego a todo custo. Mas eles precisam entrar como variáveis do ajuste. Sem isso, será um ajuste parcial, e a gente precisa de um grande ajuste.

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DINHEIRO – Não há espaço para um ajuste pela metade, hoje?
Miranda – 
Não. A gente precisa, grosso modo, de um ajuste equivalente a 3,5% do PIB. Ele vai buscar um ajuste de 1,2% neste ano. É um passo importante, mas ainda insuficiente para estabilizar a relação dívida sobre PIB. O País precisa de algo mais perto de 2,5%, talvez 3%. Como está com um déficit primário, sem truques, de 1% do PIB, precisa levar de -1% para 2,5%, ou seja, avançar 3,5 pontos percentuais. E a situação é diferente do Levy versão 2003 [quando Joaquim Levy ocupou a secretaria do Tesouro, no governo Lula], que fez um ajuste de 1,5 ponto. A gente chegou a fazer isso, mas ele veio com três elementos: aumento de impostos, aumento da formalização da economia e melhora dos termos de troca, que é a relação entre o preço pelo qual o Brasil vende seus produtos e aquele pelo qual compra. Essas condições não ocorrem hoje. Fazer um ajuste dessa magnitude exige cortar pesado, mas o governo não admitirá isso. E esse é o meu medo.

DINHEIRO – Será um teste para as convicções do governo?
Miranda –
 Minha perspectiva é de que o PIB caia 0,5% neste ano. O desemprego começará a subir. Some-se a isso, a pressão da inflação, porque haverá o realinhamento de preços que o Levy está prometendo. Com o desemprego e a inflação em alta, o governo será testado. Quando a economia começar a sangrar, como é que fica? E vai começar a sangrar, porque, lá fora, a perspectiva é muito mais nebulosa. O Brasil fez política anticíclica, quando o mundo estava indo razoavelmente bem. Poderia não ser uma recuperação tão vigorosa, mas era uma recuperação. Agora, a perspectiva é outra: a gente tem a Europa voltando ao radar, a Grécia podendo sair da Zona do Euro. É diferente da economia dos Estados Unidos, que é muito resiliente. A Europa tem um problema estrutural de tolerar a convivência, numa zona monetária comum, de políticas fiscais diferentes. Isso não dá certo. Aquela crise dos PIGs [Portugal, Itália e Grécia] não foi resolvida. Foi colocada embaixo dos panos por uma liquidez internacional absurda.

DINHEIRO – O senhor acha que o Levy comprou mesmo o discurso de Dilma, de ajuste sem dor?
Miranda – 
É bem difícil, para ele, não adotar esse discurso, mas ele sabe que é impossível um ajuste sem dor. O discurso da posse dele, em si, teve pitadas quase provocativas. Ele foi ao máximo que um ministro poderia ir, sem causar um grande constrangimento. Parte dos petistas já não gostou das referências favoráveis à estabilização e ao [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso. Ele não pode bater de frente e dizer que vai fazer a economia sangrar, até porque seria muito deselegante, mas ele sabe que vai ter que fazer. E já começou. A revisão dos critérios de concessão de seguro-desemprego e pensão para viuvez, por exemplo, é uma perda de conquista social. Não adianta falar que não. São perdas moderadas, com as quais a maioria concorda, porque era preciso rever os critérios. Só que a metáfora que eu uso é a do jogo de varetas. Você começa pelas medidas mais fáceis, que todo mundo consegue. O problema é quando ele chegar às varetas do meio, àquelas que, para tirar, tem risco de tocar nas outras. E você vai ter que mexer nelas, porque uma hora, passa por aí. Um ajuste fiscal de 3,5% é muito vigoroso.

DINHEIRO – Quando o senhor acredita que Levy começará a ter atritos com o núcleo duro do governo?
Miranda – 
O que me diferencia dos outros economistas é que eu estou mais pessimista no cenário externo. Eu acho que haverá um catalisador externo. Quando o Levy vai bater de frente mesmo? Quando houver esse catalisador, que ainda não dá para precisar qual será. O meu medo são os “cisnes cinzas”, riscos mal avaliados: a China, que pode frear e derrubar o preço do minério de ferro, ou um dos outros mercados emergentes, como a Rússia. Isso geraria a disparada das moedas emergentes em geral. Os riscos ainda estão escondidos, mas a economia mundial é frágil, a liquidez começa a ser reduzida e haverá um catalisador… Imagino que, entre o fim de 2015 e o começo de 2016, nossa mediocridade econômica poderá se transformar em tragédia.

DINHEIRO – Que medidas Levy poderia anunciar que o colocariam em choque com o núcleo duro do governo?
Miranda – 
Com um cenário de crise externa, com o PIB caindo, em taxas anualizadas, 1% ou 2%, haveria uma pressão para que se abandonasse o ajuste fiscal. Não seria necessário que ele anunciasse nenhuma medida nova. Bastaria a pressão para adotar uma política anticíclica. Ele poderia resistir, porque as contas ainda não estariam equilibradas. Isso aconteceria em um momento em que o País ainda estaria em processo de recomposição do superávit, chegando a 1,2% do PIB, e precisando levar para 2,5%. A gente estará cortando gastos, ainda. E a pressão para Levy aumentar os subsídios ou cortar impostos seria muito grande. Então, ele poderia dizer que, ou termina o ajuste para o qual foi chamado, ou está fora do governo.

DINHEIRO – O senhor acha que ele terá condições de implementar o fim dos incentivos setoriais, em um momento em que montadoras e a construção civil estão em queda, por exemplo?
Miranda – 
Eu acho muito difícil que ele consiga. Não se trata apenas de um problema de pensamento econômico. É um problema de implementação de política econômica. Para chegar ao ponto correto, você precisa ter o pensamento econômico correto e as condições corretas de implementação. Eu não tenho dúvidas de que Levy tem capacidade, mas isso exige convencer o Executivo e o Congresso. E talvez não haja força política para isso. Esse é o grande desafio. Há um agravante, que é o capitalismo de “compadres” que temos. Você fornece um subsídio para uma determinada indústria ou setor, que cria um desequilíbrio. Você não precisa ser eficiente, nem inovador. Basta ir ao governo pedir ajuda. No caso de um subsídio setorial, os efeitos negativos sobre a população são muito diluídos, pouco perceptíveis. Mas as empresas beneficiadas sentem o apoio. Então, se você retira os benefícios, a empresa privilegiada sente, a base parlamentar que gira ao redor da empresa sente e se insurge contra o governo, mas a população não se insurge a favor do governo.

DINHEIRO – O senhor afirmou que o Levy poderá até fazer algumas mudanças cosméticas, mas o cerne dos ajustes não será atingido. O que ficará pela metade?
Miranda – 
Sem dúvida, as reformas. Dilma precisaria fazer uma reforma previdenciária, tributária e trabalhista. Ela não vai fazer. Melhorar o sistema educacional, mas essa Pátria Educadora [lema lançado por Dilma para seu segundo mandato] dificilmente vai funcionar. Para funcionar, você precisa de um Executivo que realmente entenda de Educação. Também será muito difícil se desfazer do capitalismo de compadres, até porque, como você tira o apoio de algumas empresas, depois que elas se tornaram grandes doadoras de campanha? A proposta de revisão da fórmula de reajuste do salário mínimo, do Nelson Barbosa, era muito importante, porque devolveria aos salários uma evolução compatível com a produtividade. Teria que mexer nessa regra, mas não vejo nenhuma possibilidade de o governo fazer isso. Não estou fazendo menção às conquistas sociais. Sou superfavorável a que o Estado promova serviços públicos, como saúde, educação e segurança. Mas em economia, não dá para fugir do livro-texto.

DINHEIRO – Nessa situação que o senhor desenha, o que seria pior: não fazer o ajuste ou fazer um ajuste pela metade?
Miranda – 
Qualquer ajuste é melhor do que nenhum ajuste. A nomeação do Levy é positiva. Se você gerar um ano de superávit de 1% do PIB, é certamente melhor do que ter um ano de 1% de déficit. Isso representaria a perda do grau de investimento já em 2015. Se economia mundial voltar a andar, mesmo sem o grau de investimento, estaríamos mais protegidos com o Levy, que sem ele. Só que, em vez de o PIB cair 2%, cairia 1%, o que ainda é muito ruim.

DINHEIRO – De zero a 100, qual é a probabilidade que o senhor vê de o Brasil perder o grau de investimento?
Miranda – 
É muito difícil fazer essa conta, mas a probabilidade de o País perder o grau de investimento é mediana. Ela estaria entre 40% e 60%, porque depende de fatores externos, por exemplo. Acho que o Levy nos dá uma sobrevida para o grau de investimento. Mas, poucos anos depois de tê-lo conquistado, ter 50% de chance de perdê-lo já representa uma frustração muito grande.

DINHEIRO – Pode ser esse ano?
Miranda –
 Se houver um catalisador externo, pode ser esse ano, mas acho que é mais para 2016.

DINHEIRO – Com tudo isso, o senhor acha que Dilma terá condições políticas de manter o Levy?
Miranda –
 O meu maior medo, na verdade, é que o Levy fique um ano, ou um ano e meio, arrume a casa e, depois, o PIB caia 2%, não por culpa dele, mas porque o setor externo colapsou. Aí, você teria um bode expiatório. A culpa seria do neoliberal, da raposa tomando conta do galinheiro. Aí, o governo tiraria o Levy e colocaria um desenvolvimentista qualquer. A economia mundial voltaria a se recuperar, e o Brasil teria a sorte de surfar essa onda em 2016. Aí, a nova matriz econômica de Dilma entraria para a história como a grande salvadora do País, e eles diriam que estavam certos desde o começo. Há um risco muito grande de que o Levy não dure mais do que dois anos. Acho muito provável, infelizmente.

DINHEIRO – As pessoas com quem conversa, no mercado, pensam assim também?
Miranda – 
Há uma predominância do mercado de ver com ceticismo a presença dele no governo. Alguns acham que é para valer. Eu vejo com descrença. Há uma diferença entre ceticismo e descrença. Eu acho que não vai dar certo. Tem gente que acha que pode dar certo. Eu não acho, mas o consenso de mercado é que ninguém não está pagando para ver, mas espera que dê certo.

DINHEIRO – Em qualquer cenário, o senhor mantém a previsão de queda de 0,5% do PIB neste ano?
Miranda –
 Acho que é inevitável, a essa altura. A queda do PIB já está contratada. A contribuição do PIB de 2014 para 2015 será nula. Talvez, você tenha uma política monetária até mais restritiva do que se imagina, porque as tarifas públicas já estão aumentando. Então, os juros talvez terminem em 13%. Se vier uma crise cambial, talvez 15%. Isso vai nos empurrar para baixo. Depois, você precisa retirar a demanda agregada. Num primeiro momento, isso retira PIB também. Você tem um cenário de piora da situação fiscal, piora da situação monetária e piora do cenário externo. Dificilmente, a gente vai repetir o PIB de 2014, que já foi ruim. E você tem, agora, essa dinâmica chegando ao mercado de trabalho. Com massa salarial e emprego em queda, o consumo vai sentir. O Boletim Focus, do Banco Central, ainda projeta uma alta de 0,5% do PIB neste ano, mas é porque sempre existe uma defasagem para atualizar as estimativas. O consenso vai vir para o campo negativo em algum momento.

DINHEIRO – Quanto desse cenário contamina 2016?
Miranda –
 Ainda é cedo para dizer, porque depende do que vai acontecer. Se o catalisador vier em maio, por exemplo, 2015 será trágico, e 2016 será melhor, por uma questão de ociosidade. Se 2015 for medíocre, 2016 será trágico. E vice-versa. Se tivermos um ano de ajustes homeopáticos, 2016 será péssimo.

DINHEIRO – O senhor foi chamado de alarmista, quando lançou O Fim do Brasil, mas os números da economia já estão piores que as suas previsões. O que fez com que a situação se deteriorasse tão rápido?
Miranda –
 Quando lançamos O Fim do Brasil, colocamos um dólar de R$ 2,60. Ele já está em R$ 2,70. E, agora, já trabalhamos com R$ 3,10, com pico de R$ 3,50. A Bovespa estava em 60 mil pontos, e agora já está em 47 mil. A economia mundial mostrou que tem problemas. A Rússia foi o caso mais emblemático. E isso reforçou algo para o qual a gente já chamava a atenção. A Rússia também tem grandes reservas internacionais, mas, mesmo assim, o rublo se desvalorizou 40% em pouquíssimo tempo. Há uma diferença entre reservas e fluxo cambial. Reserva é estoque de moeda. Fluxo é ritmo de aumento ou perda de moeda. O que determina a taxa de câmbio não são as reservas, mas o fluxo. E o Brasil está fraco em termos de fluxo. Você pode dizer: as reservas ajudam a conter o câmbio. Sim, ajudam, porque você pode usá-las. Mas, se você perder US$ 50 bilhões em duas semanas, o mercado dirá: “puxa, mas essas reservas só vão durar três meses”. Então, é um jogo em que as reservas são importantes, mas não eliminam o risco de uma crise cambial. Piorou a questão fiscal, o cenário mundial, as commodities, e o comportamento do emprego, cujos dados foram adiados por questões de campanha. Os últimos já mostram corte no nível de empregos. As coisas mudaram por falta de transparência nas contas públicas e piora no cenário externo.

DINHEIRO – Com tudo isso, o senhor conseguiu desejar feliz ano novo, com sinceridade, para alguém?
Miranda – 
O ajuste é necessário. O que dizemos para nossos clientes é que 2015 não será um ano em que você vai se posicionar para multiplicar capital, mas é um ano em que você pode comprar oportunidades fantásticas. Se você tiver dólar e se tiver caixa, e nosso caixa rende 12% ao ano, que são os fundos DI, que têm liquidez diária, você pode comprar bolsa a 40 mil pontos. Para formação de poupança de longo prazo, este ano é uma coisa fantástica. O que você não pode é estar muito exposto a risco, agora. Se estiver protegido, com hedge adequado, você pode fazer a sua vida também.

Fonte: Istoé Dinheiro

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