(Imagem: iStock.com/basiczto)
Quem nunca usou VPN – ou algum macete parecido – para consumir algum filme pirata, que atire a primeira pedra. Especialmente lá em meados de 2013, quando saía aquele filme ou série nova, mas a opção legalizada mais próxima era um pacote de TV a cabo que custava caro.
Então, o que muita gente sedenta por conteúdo fazia na época? Pagar por uma VPN, configurar para acessar algum país específico e assim, acessar uma biblioteca gigantesca de conteúdo. Moral da história: a internet permitia contornar as barreiras de acesso.
Tenho a impressão de que estamos vendo a mesma coisa acontecer agora, só que no setor financeiro.
Desta vez, o fator determinante é a regra do investidor credenciado
Segundo fontes próximas ao assunto, a SpaceX pretende abrir seu capital na Nasdaq em 12 de junho. O valuation estimado é de US$ 1,75 trilhão.
Wall Street ainda aguarda o prospecto. Contudo, na Hyperliquid, “ações” da SpaceX, com o código SPCX, já estão disponíveis, e sendo negociadas em torno de US$ 201 por ação.
As empresas são negociadas na forma de perpétuos: basicamente, perpétuos são uma aposta no preço de algo, sem data de vencimento e sem necessidade de possuir o ativo subjacente.
Preço do perpétuo de SpaceX na Hyperliquid:

O preço-alvo divulgado para o IPO é de aproximadamente US$ 150, o que significa que o mercado on-chain está precificando um prêmio de cerca de 35% antes mesmo de qualquer corretora de varejo disponibilizar um botão de “compra” para as ações da SpaceX em seu site.
E o mesmo padrão está se repetindo em outros gigantes do setor privado: um exemplo disso é a Anthropic, que está sendo negociada na Hyperliquid a US$ 1.245, aumento considerável em relação aos cerca de US$ 500 em fevereiro. Isso representa uma valorização de aproximadamente 2,5 vezes em três meses.
Preço do perpétuo de Anthropic na Hyperliquid:

Além dessas duas empresas, temos também a OpenAI, que atualmente está sendo negociada na Hyperliquid por cerca de US$ 1.182, um aumento considerável em relação aos US$ 700 no início de fevereiro.
A analogia com a VPN está começando a fazer sentido?
Dois dos laboratórios privados de IA mais valiosos do mundo (nenhum deles listado em bolsa) possuem mercados de descoberta de preços ao vivo, acessíveis a qualquer pessoa com uma carteira de criptomoedas em cerca de 90 segundos.
E a proliferação desse tipo de coisa será enorme!
Porque historicamente, para ter exposição às empresas privadas nos EUA, era necessário ser um “investidor credenciado” (patrimônio líquido acima de US$ 1 milhão ou renda acima de US$ 200 mil). Esse bloqueio impedia o acesso de aproximadamente 90% das residências americanas (e esqueça qualquer pessoa que tentasse obter exposição fora dos EUA).
Já a Hyperliquid não cobra. Você traz a carteira, você recebe o preço. Porém…
Você não está comprando ações reais da SpaceX. Na verdade, você está negociando um derivativo que acompanha uma avaliação divulgada, e o preço pode se desviar de qualquer valor de mercado privado “real”.
A liquidez também é menor do que parece. O número de contratos em aberto na SPCX gira em torno de US$ 33 milhões. O que é dinheiro de verdade, mas não o tipo de dinheiro que se vê em ações da Apple, por exemplo.
Se as ações da SpaceX forem negociadas a US$ 150 no dia do IPO, todas as posições compradas a US$ 200 na Hyperliquid sofrerão uma perda.
(O mercado pode antecipar-se e também errar ao mesmo tempo.)
Mas o mais legal disso é que, pela primeira vez na história, qualquer um pode ter uma chance na SpaceX, OpenAI ou Anthropic – de forma semelhante a um investidor institucional.
A barreira passou de “ser rico e ter conexões” para “ter uma conexão com a internet”.
Data a acompanhar: 12 de junho.
Se a SpaceX atingir um preço próximo à meta de US$ 200 da Hyperliquid, o mercado on-chain poderá afirmar que previu essa avaliação meses antes que o sistema financeiro tradicional tivesse a chance de fazê-lo.
Se o preço de emissão se aproximar dos cerca de US$ 150 divulgados, os investidores que apostam na alta on-chain sofrerão perdas, e as corretoras tradicionais manterão o direito de se gabar.
No fim do dia, o que importa é a tecnologia e a inovação na infraestrutura financeira.
Variações semanais (13/05/26 a 20/05/26)
- ₿ Bitcoin (BTC): US$ 77.167 | Var. -3,10%
- ♦ Ethereum (ETH): US$ 2.117 | Var. -6,42%
- 🟠 Dominância Bitcoin: 60,67% | Var. -0,3%
- 🌐 Valor total do mercado cripto: US$ 2,55 tri | Var. -3,04%
- 💵 Valor de mercado de stablecoins: US$ 321,952 bi | Var. -0,12%
- 📊 Valor total travado (TVL) em DeFi: US$ 82,814 bi | Var +0,78%
*dados referentes ao fechamento em 20/05/26
Tópicos da semana
ETF Spot Hyperliquid (BHYP) na NYSE
– A Bitwise lançou, em 15 de maio, o ETF Spot Hyperliquid (ticker: BHYP) na NYSE, tornando-se o primeiro produto negociado em bolsa nos Estados Unidos baseado no token HYPE a incluir staking integrado.
O fundo cobra uma taxa de administração de 0,34%, que será reduzida para 0% durante o primeiro mês para os primeiros US$ 500 milhões em ativos.
Segundo Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, o HYPE deve ser visto como um token de “segunda geração” e avaliado não apenas como um ativo ligado a uma corretora de contratos perpétuos de criptomoedas, mas como a base de uma plataforma global de negociação. O token acumula valorização de 77% no ano e é apontado como o criptoativo de grande capitalização com melhor desempenho em 2026.
A Bitwise estima que a Hyperliquid gere entre US$ 800 milhões e US$ 1 bilhão em receita anualizada. Enquanto isso, HYPE é negociado a múltiplos semelhantes aos de empresas como Robinhood e CME Group, impulsionado pelo fato de que 99% das taxas de negociação da plataforma são destinadas à recompra do próprio token.
Além disso, a Hyperliquid está expandindo sua atuação para além dos derivativos de criptomoedas, entrando em mercados como ações, commodities, câmbio e mercados de previsão, ampliando as fontes de receita que sustentam esse modelo de recompra.
‘Canetada’ de Trump
Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Federal Reserve (Fed) e reguladores financeiros avaliem como empresas de criptomoedas e fintechs podem obter acesso a contas e serviços de pagamento do Fed. A medida inclui as chamadas master accounts, que permitem movimentar dinheiro diretamente pelos sistemas do banco central, como o Fedwire.
As agências terão três meses para revisar regras que possam limitar parcerias entre bancos e fintechs, e seis meses para implementar medidas que favoreçam a inovação financeira. A ordem também solicita que o Fed apresente um relatório sobre sua autoridade legal para ampliar esse acesso. Possíveis formas de expansão sujeitas a requisitos de gestão de risco e obstáculos que dificultam o acesso direto aos sistemas.
A iniciativa ganha força após a Kraken ter obtido, no início deste ano, acesso limitado a uma master account do Fed por meio de sua instituição financeira especializada em Wyoming, sinalizando avanços na integração do setor de criptoativos ao sistema financeiro tradicional.
‘Drex’ do Japão?
– O Partido Liberal Democrata (LDP) do Japão, por meio de um grupo de trabalho de políticas digitais liderado pelo parlamentar Seiji Kihara, propôs oficialmente que a Agência de Serviços Financeiros (FSA) desenvolva um plano estratégico de cinco anos para finanças on-chain e reconheça o setor como a 18ª área prioritária de investimento para o crescimento econômico do país.
A iniciativa reflete preocupações de que sistemas de pagamento estrangeiros possam reduzir a influência do iene na economia japonesa. O plano prevê o uso de stablecoins em pagamentos de salários, recolhimento de impostos, financiamento corporativo e transferências internacionais em ienes. Em pararelo, o Bank of Japan avalia depósitos bancários tokenizados e uma moeda digital de banco central (CBDC) voltada para operações entre instituições financeiras.
A proposta amplia um projeto-piloto aprovado pela FSA em novembro de 2025, no qual os bancos MUFG, SMBC e Mizuho começaram a testar a emissão de stablecoins. Além disso, o documento defende a criação de padrões asiáticos comuns para ativos tokenizados, procedimentos de identificação de clientes (KYC), combate à lavagem de dinheiro (AML) e financiamento ao terrorismo. Caso stablecoins em iene sejam lançadas em 2026, elas deverão ser emitidas por bancos e lastreadas por instituições financeiras, funcionando mais como depósitos tokenizados do que como tokens nativos do mercado de criptomoedas.
China em crise, a volta da hegemonia americana e a oportunidade brasileira
No último episódio do Crypto Never Sleeps, recebemos Walter Maciel, CEO da AZ Quest e uma das vozes mais influentes do buy side brasileiro. Em uma conversa sem filtro, falamos sobre macroeconomia, geopolítica, China, Estados Unidos, dólar, inflação, tokenização, stablecoins, Bitcoin e o futuro do Brasil.
Assista ao episódio:
Aviso obrigatório
Este conteúdo é apenas informativo e tem como objetivo compartilhar insights e análises sobre o mercado. Não constitui recomendação de investimento, e qualquer decisão financeira deve ser feita com base em sua própria análise e, preferencialmente, com o apoio de profissionais qualificados.