Riders on the storm

Dirigiremos sob tempestade nos próximos anos ou talvez meses. E o problema maior é que hoje todos só enxergam um céu de brigadeiro.

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Riders on the storm

“A volatilidade é um instrumento de revelação da verdade. A volatilidade, como um conceito, é algo completamente mal interpretado. Volatilidade não é medo. Volatilidade não é o índice VIX. Volatilidade não é uma estatística ou um desvio-padrão, tampouco um número derivado de uma fórmula abstrata.

Volatilidade não é diferente nos mercados do que ela é na vida.

Independentemente da forma como é medida, volatilidade reflete a diferença entre a forma com que enxergamos o mundo e o mundo como ele existe, de fato.

Nós só vamos prosperar se perseguirmos obstinadamente somente a verdade, nada além da verdade. Caso contrário, a verdade nos encontrará por meio da volatilidade.”

Isso é Cristopher Cole, Artemis Capital Management. Eu quase chorei quando li isso. Precisaria encerrar a semana da mesma forma como a comecei. Quero insistir neste ponto, pois é ele que tira hoje meu sono: preocupa-me fortemente a volatilidade muito baixa dos ativos, num momento em que os valuations, em âmbito global estão esticados e, mais do que isso, dialogamos com o fim de uma era.

Qual foi o jogo de um investidor global desde 2009? Tudo o que você precisava fazer era seguir os Bancos Centrais e ser feliz. Não havia avaliação de ativos ou qualquer coisa. Os banqueiros centrais estavam despejando toneladas de dinheiro no sistema e bastava segui-los. O risco moral esteve estimulado por oito anos! Não é pouco tempo. Agora, não mais. Caminhamos na outra direção, em que os Bancos Centrais começam a retirar seus estímulos ou sugerem a possibilidade de fazê-lo em breve. There is a killer on the road, diria Jim Morrison em Riders on the Storm, título que me parece apropriado para o momento.

Dirigiremos sob tempestade nos próximos anos ou talvez meses. E o problema maior é que hoje todos só enxergam um céu de brigadeiro. A ausência da volatilidade mostra uma percepção de mundo muito calmo. O problema é que a percepção não necessariamente converge para a realidade. É tudo uma grande ilusão de ótica.

As pessoas querem comprar o que é provável. Eu quero comprar o improvável, pois, por definição, ele é o único que pode estar underpriced. Nesse ambiente em que percepção e realidade não são necessariamente a mesma coisa, percebemos o mundo de certa forma e achamos que ele é, de fato, assim. Logo, essa percepção de mundo, que reitera-se: é apenas uma percepção, é levada aos preços como se fosse realidade material. O cenário alternativo, não contemplado por essa ilusão de ótica, não está em nada nos preços, ficando totalmente subavaliado.

Faço questão de chamar atenção para os riscos do cenário global, pois a tese de um bull market estrutural para os ativos brasileiros, vista há poucos meses como mais um de meus devaneios, começa a ganhar contornos materiais. Banco estrangeiro acaba de elevar a recomendação para os títulos soberanos brasileiros para overweight. Jura? Mais agora? Depois da porrada das últimas semanas?

Eu não estou falando hoje, quando os jornais estampam a possibilidade de sua aprovação em setembro, que a previdência será reformada. Eu falei isso em 18 de maio, em que “as chances da reforma da Previdência foram zeradas”, de acordo com os ternos vazios que atravessavam a Faria Lima, do Rubayat em direção ao Hamburguinho, com todo simbolismo que isso representa.

Na verdade, eu falo isso desde que aprovamos a PEC do teto de gastos. Pra mim, aprovamos filosoficamente a Previdência naquele dia, sem que os parlamentares percebessem. A vitória formal poderia até demorar um ou dois anos, mas viria como corolário da PEC 55, como mera imposição aritmética. Ou reformamos a Previdência, ou ela responderá em poucos anos por 120 por cento do Orçamento, hiperbolicamente, claro.

Há a alternativa, claro, de revermos a PEC do teto de gastos, o que, em português, representaria caos total. Mas a verdade, e desculpem o linguajar tão distinto – emprego palavrões deliberadamente em alguns momentos, pois eles transmitem mais facilmente a mensagem -, é que o brasileiro é bundão. Nós flertamos com o precipício, mandamos mensagem de texto no Whatsapp para ele. Mas na hora de nos jogarmos mesmo, nós afinamos.

Como conciliamos essas duas coisas? O otimismo muito acima do consenso com Brasil, combinado com uma preocupação muito acima do consenso com o resto do mundo?

Estamos comprados em Bolsa com vigor, com algumas microcaps bem convexas, e em títulos indexados longões, enquanto precisamos nos atolar de seguros e mais seguros. Puts de S&P e compra de VIX ou opções de VIX estão entre as minhas favoritas. Eu adoraria que alguma instituição financeira montasse um COE que se beneficiasse de um eventual aumento da volatilidade lá fora. Para evitar problemas e acusações muito criativas de “operação triangular excêntrica”, podemos chamar de COE Impiricus. Ninguém vai desconfiar!

Mercado começa a sexta-feira meio desconfiado, andando de lado, de olho nos dados do payroll nos EUA. Referências do mercado de trabalho norte-americano são sempre um driver importante, ainda que não haja grande expectativa sobre a reunião do Fed em setembro. Foram criados 209 mil postos de trabalho, um pouco acima do esperado, enquanto taxa de desemprego ficou em 4,3 por cento.

Dólar cai contra principais divisas com dúvidas sobre relação entre EUA e Rússia, permeada por enfraquecimento de Donald Trump, mas reduz intensidade do movimento. Petróleo cai enquanto investidores avaliam dados de produção e estratégia da Opep, em dia de relatório Baker Hughes.

Por aqui, agenda é fraca, contando apenas com dados da Anfavea. Jornais tratam da maior probabilidade de aprovação da reforma da Previdência ainda em setembro, o que, se confirmado, é um belíssimo trigger.

Ibovespa Futuro, dólar e juros estavam bem próximos da estabilidade.

Encerramos a semana com uma recomendação bem enfática no Double-X. Eu, pessoalmente, sou um defensor desta ação há bastante tempo, vendo upside de pelo menos 35 por cento.

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