Juros de antigamente

Caraguatuba, litoral norte de São Paulo, verão de 1978. Aquele foi o primeiro verão em que passamos as férias no recém-comprado apartamento na Prainha, com […]

Caraguatuba, litoral norte de São Paulo, verão de 1978.

Aquele foi o primeiro verão em que passamos as férias no recém-comprado apartamento na Prainha, com vista para a Pedra do Jacaré.

A rotina era sagrada. Depois de uma manhã toda e começo de tarde na praia, subíamos famintos, desgastados pelo sol e os banhos de água salgada.

Minha mãe era ótima cozinheira, e aquele arroz com feijão era puro amor.

Mas antes de sentar à mesa a gente tomava uma ducha, com direito a hidratar o judiado cabelo com um tubinho de Neutrox.

Super alimentado, com direito a picolé de coco queimado do Rocha, retirava-me ao quarto, onde a cama do beliche me aguardava.

Apenas de shorts, ligava o ventilador Arno (só conheci ar-condicionado uns anos depois, na casa do Pitida, lá em Caraguá mesmo).

Deitado e de pernas cruzadas, abria alguma revistinha da Turma da Mônica.

Se existe algo como a felicidade plena, talvez tenha chegado o mais próximo dela em tardes assim.

Quando observo meus filhos, tento imaginar quais momentos estarão gravados na memória deles a ponto de serem lembrados futuramente, daqui a 40 anos.

E o que existiu no passado jamais se repetirá.

Nesta semana, Mansueto Almeida, o bravo secretário do Tesouro Nacional, disse que juros reais de 6 por cento ao ano viraram uma anomalia do passado.

Eduardo Campos, do Seu Dinheiro, comentou a declaração desta semana de Mansueto, na sua apresentação sobre dívida pública.

Os juros prefixados de dez anos, encontrados nas NTN-Fs, estão abaixo de 8 por cento, nível absolutamente inédito no país.

Quem aproveitou, ótimo. Mas concordo com o secretário do Tesouro, que viramos a página de juros reais polpudos para o aplicador brasileiro.

Daqui para a frente, quem quiser remunerações maiores terá que assumir riscos, na forma de crédito privado ou na renda variável.

E o mercado imobiliário pode estar entrando em um novo ciclo de valorização, graças a taxas de financiamento mais atraentes e menores custos de oportunidade da liquidez financeira.

Na semana passada, comentei sobre a brutal liquidez internacional, com mais de 12 trilhões de dólares aplicados em juros negativos.

Ainda estamos muito distantes disso, mas os juros reais citados por Mansueto parecem se distanciar cada vez mais no espelho retrovisor daquela viagem em família que nunca mais teremos.

Um abraço!

Caio

Inscreva-se em nossa newsletter