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Super Quarta: decisão de política monetária nos EUA e no Brasil domina a agenda econômica de hoje (31); confira

O Federal Reserve dos EUA revelará sua decisão na parte da tarde, enquanto o BC fará sua comunicação após o fechamento do mercado local, por volta das 18h30.

Por Matheus Spiess

31 de janeiro de 2024, 08:55

super quarta
Imagem: Freepik

Bom dia, pessoal. O tópico dominante de hoje inegavelmente gira em torno da política monetária, com os bancos centrais dos EUA e do Brasil anunciando suas decisões sobre as taxas de juros, marcando a primeira movimentação do ano neste sentido. O Federal Reserve dos EUA revelará sua decisão na parte da tarde, enquanto o Banco Central do Brasil (BCB) fará sua comunicação após o fechamento do mercado local, por volta das 18h30.

O dia foi desafiador na Ásia, principalmente devido às preocupações com a China e os impactos da crise imobiliária no crescimento do PIB, refletidos no índice PMI, que permanece abaixo de 50 pontos, indicando contração. Além disso, a China está realizando a maior consolidação do seu setor bancário, fundindo inúmeros bancos rurais em grandes entidades regionais, em meio a sinais crescentes de estresse financeiro.

Os mercados europeus também não tiveram um bom início nesta quarta-feira, seguindo a tendência dos futuros americanos, que estão em queda nesta manhã. Há análises importantes a serem feitas hoje: os resultados da Alphabet (dona do Google) e da Microsoft não foram tão positivos quanto esperado, causando ajustes no pre-market. Similarmente, as ações da Tesla estão em correção após a decisão judicial que invalidou a remuneração de Elon Musk. O dia será difícil para os nomes de tecnologia.

Na Europa, os investidores estão avaliando os números preliminares da inflação ao consumidor de janeiro em países como Portugal, Alemanha e França. Ontem, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, indicou que o próximo ajuste nos juros básicos seria um corte, o que foi bem recebido pelos investidores. O petróleo permanece volátil, negociado acima de US$ 80 por barril, em meio à rejeição do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, às principais exigências do Hamas durante as negociações de cessar-fogo.

A ver…

· 00:57 — E vai continuar caindo

No cenário financeiro brasileiro, já estamos imersos na temporada de divulgação de resultados, com o Santander Brasil apresentando hoje seus números referentes ao quarto trimestre antes da abertura do mercado (foi pior do que o esperado). No entanto, o foco principal do dia recai sobre a decisão de política monetária. A divulgação da Pnad, prevista para hoje e que deve apontar uma taxa de desemprego de 7,5% no último trimestre do ano passado, passa a ter uma relevância menor diante desse contexto. Espera-se que o Banco Central do Brasil siga com sua política atual, reduzindo a taxa de juros em 50 pontos-base e sinalizando cortes futuros na mesma linha. Entretanto, alterações no comunicado do Federal Reserve dos EUA podem ser um fator decisivo, pois cortes de juros por lá podem facilitar as ações das autoridades monetárias latino-americanas, aumentando as chances de encerrarmos o ano com taxas em torno de 9% por aqui. Há expectativas de que os bancos centrais da América Latina intensifiquem o relaxamento monetário em 2024, se o progresso na desinflação possibilitar ciclos mais acentuados de redução nas taxas de juros.

Apesar disso, o mercado brasileiro ainda enfrenta dificuldades. A Petrobras é uma das exceções que vem se destacando positivamente este ano. Em uma entrevista recente, o presidente da companhia, Jean Paul Prates, projetou que o preço do petróleo deve se manter entre US$ 70 e US$ 90 o barril, um patamar similar ao do ano anterior. Se essa previsão se concretizar, o resultado será positivo para o país. Prates também comentou que a Petrobras está atrasada em relação à transição energética, mas agora está em um processo de mudança. Sobre o tema, no tocante à energia eólica, o setor tem registrado recordes de instalações, com mais de R$ 300 bilhões investidos. Em 2023, a energia eólica foi responsável por quase 50% da expansão do setor elétrico, com planos de investir mais R$ 175 bilhões até 2030 (adicionar 25 GW de capacidade, alcançando um total de 55 GW). Com a introdução da tecnologia eólica offshore na próxima década, a expectativa é de que os investimentos tripliquem, podendo dobrar a capacidade instalada total de energia elétrica do país, atualmente em torno de 200 GW. Sem dúvida, a narrativa cola bem, em especial com o investidor gringo.

· 01:50 — O crescimento do Brasil e do mundo

Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para cima suas previsões para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global em 2024, de 2,9% para 3,1%. As projeções de crescimento também foram elevadas para os Estados Unidos, indo para 2,1%, para a China, aumentando para 4,6%, e para o Brasil, subindo para 1,7%. Esse ajuste nas estimativas ocorre em um contexto em que políticas mais rígidas contra a inflação e reduções nos gastos públicos em alguns países são vistas como fatores que contribuem para um crescimento mais moderado do que a média de 3,8% observada nas duas décadas anteriores à pandemia. Contudo, o FMI destaca que o cenário poderia ser pior. No caso do Brasil, a melhoria nas condições do setor externo tem sido um ponto de destaque. Na análise do Boletim Focus desta semana, por exemplo, observa-se um aumento na projeção para a balança comercial, com a expectativa de quase US$ 80 bilhões de superávit neste ano, um resultado considerado muito positivo.

Outro aspecto notável do Boletim Focus é a queda nas expectativas para a dívida líquida em relação ao PIB para todos os anos até 2027, embora seja necessário acompanhar se isso se concretizará na prática. É importante ressaltar que os dados recentes não foram animadores, com o déficit do Governo Central brasileiro atingindo R$ 230,5 bilhões no ano passado. Esse valor é o segundo maior da série histórica iniciada em 1997, superado apenas pelo déficit de R$ 230,7 bilhões em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff (excluindo o ano de 2020 com seu déficit de R$ 940 bilhões devido à pandemia). Mesmo sem considerar os precatórios de R$ 92,4 bilhões e a questão do ICMS junto aos governadores, o déficit ainda teria sido de R$ 138,2 bilhões, equivalente a 1,27% do PIB (igualmente ruim). Diante desse cenário complexo, torna-se essencial que o governo brasileiro apresente um plano claro e eficiente o mais rápido possível, mesmo que isso implique revisar a meta fiscal. Agir prontamente nessa direção será fundamental.

· 02:46 — O peso das Big Techs

As ações de tecnologia nos Estados Unidos continuam a exibir um desempenho notavelmente melhor em 2025 do que no ano anterior, mantendo-se como líderes do mercado. No entanto, o foco de ontem foi direcionado aos bancos americanos, impulsionado por um relatório do Morgan Stanley que sugeriu a possibilidade de uma redução nas atuais exigências de capital estabelecidas pelas regras da Basileia 3. Paralelamente, havia uma expectativa considerável em torno dos gigantes da tecnologia, especialmente devido a uma semana repleta de divulgações relevantes. Microsoft e Alphabet, a empresa-mãe do Google, reportaram resultados bons, mas suas ações enfrentaram quedas nas negociações pós-expediente, o que pode resultar em um dia desafiador hoje.

No calendário financeiro, aguardamos a divulgação de mais resultados empresariais, com destaque para empresas como Boeing, Mastercard, MetLife, Nasdaq, Novartis, Novo Nordisk e Qualcomm. O ponto alto do dia, contudo, será a decisão de política monetária do Comitê Federal de Mercado Aberto. A expectativa é que o FOMC mantenha inalterada a taxa de fundos federais, entre 5,25% e 5,50%. A principal incógnita é sobre a comunicação acerca de quando ocorrerá o primeiro corte de juros. Nas últimas semanas, os investidores descartaram a possibilidade de um corte já em março, projetando que ocorra em maio ou junho. Outro aspecto relevante do dia é o relatório ADP de emprego de janeiro. Resultados mais robustos do que o esperado podem influenciar negativamente o ânimo dos investidores.

· 03:32 — E a geopolítica da América Latina?

Comumente, a atenção em geopolítica se concentra em áreas como China, Europa, Estados Unidos e Oriente Médio. No entanto, é um equívoco pensar que essas são as únicas regiões enfrentando tensões. Por exemplo, já mencionei as questões envolvendo Equador e Guiana. Agora, surge um novo desafio com o Brasil ameaçando anular o acordo que o obriga a comprar o excedente de energia elétrica de Itaipu não utilizado pelo Paraguai. Conforme o Tratado de Itaipu, cada país tem direito a 50% da energia produzida pela usina hidrelétrica, mas o Paraguai nunca consumiu essa totalidade (usa cerca de 17% do total gerado). Assim, o Brasil comprometeu-se a comprar toda a energia excedente paraguaia, garantindo a sustentabilidade financeira da usina. A controvérsia, no entanto, gira em torno da tarifa. O governo brasileiro defende que a tarifa deve ser reduzida após o término do pagamento da dívida pela construção da usina, que ocorreu no final de 2023. Caso não obtenha o resultado desejado, o Brasil ameaça cancelar o acordo, uma medida sem precedentes. Isso teria consequências drásticas para o Paraguai, forçando-os provavelmente a ceder.

Além disso, os Estados Unidos consideram restabelecer as sanções ao petróleo venezuelano se o país persistir na proibição de uma candidata da oposição se candidatar à presidência. Maduro, supostamente comprometido a realizar eleições “mais justas” este ano, tem feito esforços contínuos para manter sua posição autoritária. Uma retaliação dos EUA esfriaria as recentes tentativas de melhorar as relações bilaterais, além de outras medidas punitivas que estão sendo avaliadas pelos americanos contra a Venezuela. É claro que, se Donald Trump retornar à presidência, qualquer progresso na relação com a Venezuela pode ser desfeito. A tensão não está limitada apenas às regiões historicamente mais turbulentas; até mesmo a América Latina, tradicionalmente mais pacífica, está envolvida nessas dinâmicas geopolíticas. 2024 poderá ser, de fato, um ano marcado por intensos debates geopolíticos, com a América Latina figurando como um ator central nesse cenário.

· 04:29 — O problema chinês

Há algum tempo, a visão global em relação à China tem se tornado mais pessimista. Essa tendência começou com a Guerra Comercial iniciada durante a administração Trump e se estendeu aos ataques contínuos da administração Biden. Adicionando complexidade à situação estão as questões envolvendo Taiwan, os bancos regionais, o setor imobiliário e a desaceleração do crescimento econômico que afetam a nação asiática. Contudo, parece improvável que a China enfrente uma crise do calibre daquela provocada pelo colapso do Lehman Brothers em 2008. Embora seja esperada uma desaceleração no crescimento, que deverá se tornar mais evidente nos próximos anos, a China continuará a ser um ator global crucial, independentemente dos esforços para posicionar a Índia como um concorrente de destaque.

A balança comercial chinesa, por exemplo, permanece robusta, evidenciada pela exportação de bens de alto valor agregado não apenas para os EUA, mas também para mercados emergentes e a Rússia. Portanto, as preocupações sobre um declínio estrutural no crescimento da China, que se intensificaram ontem com a liquidação da Evergrande, uma gigante do setor imobiliário, parecem ser exageradas. Sim, existem desafios estruturais, especialmente demográficos, mas isso não invalida o fato de que há uma narrativa predominantemente anti-China nos mercados financeiros, tendendo a conferir um tom mais negativo às notícias. Ainda assim, um país que mantém uma taxa de crescimento entre 4% e 5% nos próximos 10 a 15 anos permanece sendo de grande relevância para a economia mundial.

· 05:16 — Explorando o resultado de uma Big Tech

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Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.