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Ibovespa está barato a níveis históricos, mas governo eleito parece desperdiçar oportunidade; veja no que investir em meio ao conturbado ambiente macroeconômico

Em poucas oportunidades o Ibovespa esteve tão barato, e fatores externos contribuem para um 2023 positivo

Por Juan Rey

23 de dezembro de 2022, 11:57

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Imagem: Adobe Stock

Raras vezes nos últimos 20 anos foi possível observar valuations tão atrativos no Ibovespa

Por outro lado, o governo eleito parece, até o momento, estar deixando passar uma oportunidade de ouro que se apresenta ao Brasil e aos ativos negociados na B3.

Somente na crise do subprime, em 2008, na grande recessão da era Dilma, em 2015, na greve dos caminhoneiros, em 2018, e no ápice da crise de Covid foi possível identificar ações tão baratas, segundo o sócio-fundador e estrategista chefe da Empiricus, Felipe Miranda.

Além de uma B3 excessivamente descontada, vários fatores referentes ao cenário macroeconômico global contribuem – e muito – para uma possível virada da B3 em 2023. Vamos a eles:

1 – Onda de autocracias locais

Um dos fatores diz respeito à onda de autocracias locais, como Xi Jinping, na China, Putin, na Rússia e Erdogan, na Turquia, que faz com que o mundo dê mais crédito aos países democráticos. 

“Ninguém quer mais confiar no Xi Jinping. Então você precisa reorganizar a cadeia de suprimentos global, impondo uma necessidade de reindustrialização do ocidente. É melhor confiar no Brasil e no México, por exemplo, do que na China. E isso é uma oportunidade gigante que se apresenta para o Brasil”, analisa Felipe.

2- Reabertura da China

A China tem dado, nas últimas semanas, sinais de que Xi Jinping finalmente cedeu aos apelos populares contra a política de ‘Covid 0’ no país. Com a menor projeção de crescimento do PIB desde 1976 (sem contar 2020, auge da pandemia), o presidente afrouxou algumas medidas impostas pelo estado no combate ao vírus. 

“Já se trabalha com uma meta de crescimento de 5% na China em 2023. Se confirmado, isso pode voltar a alimentar o preço das commodities, sobretudo minério de ferro e petróleo (por conta da maior circulação), e devolver fluxo de recursos para mercados emergentes, enquanto os desenvolvidos sofrem com a recessão iminente”, explica Felipe Miranda.

A China é a principal parceira econômica do Brasil. Portanto, não é segredo que a reabertura do país asiático resulta em um fluxo de recursos significativo entrando no país. Na B3, as empresas – principalmente as de commodities – devem sentir o impacto positivo do “retorno” da China às atividades.

3- 2023: o ano dos países emergentes?

Por falar em mercados emergentes, muitos estrategistas colocam 2023 como ‘o ano dos países emergentes’. Por quê? 

Os países desenvolvidos lutam para combater a inflação. Nos Estados Unidos, o índice atingiu o maior nível dos últimos 40 anos. Na Europa, desde que o euro foi criado, a inflação nunca esteve tão alta. A recessão – contração da economia – é iminente, tanto nos EUA quanto na UE. 

Para Felipe Miranda, o mundo “gostaria de abraçar o Brasil”, que, até o momento, não tem agarrado a oportunidade.

“Lula foi celebrado no COP-27 e poderia receber investimentos interessados na mudança climática e na transição energética Além disso, o planeta precisa de energia e comida, que temos em abundância”.

Prova das “boas intenções” dos investidores estrangeiros com relação ao Brasil é que, no dia seguinte da eleição de Lula, quase R$ 2 bilhões de investidores gringos entraram no país.

4- Queda dos juros em 2023

Até pouco tempo atrás, era consenso que a taxa Selic cairia no ano que vem. Caso isso ocorra, a mesma sensibilidade que penalizou os ativos de risco brasileiros – principalmente as small e microcaps, pode atuar a favor em 2023.

Agora, a realidade é outra. Desconfiados com as primeiras sinalizações de desrespeito à política fiscal do governo eleito, os investidores estrangeiros e locais estão com o “pé atrás”.

Com a PEC da Transição aprovada, o mercado deve continuar precificando a volta do ciclo de alta da Selic no início do ano que vem.

O trecho abaixo do Day One, escrito por Felipe Miranda, ajuda a entender quais as consequências do ‘furo’ no teto fiscal:

“Por mais bem intencionadas que possam ser as palavras de Lula, ”cuidar do pobre” sem espaço no orçamento aumenta o risco fiscal, o que se traduz em mais taxas de juro, e eleva as expectativas de inflação, porque o governo sempre poderá, num ato inflacionário, emitir mais moeda para cumprir seus compromissos financeiros. Mais juros implicam menos investimentos, menos crescimento e mais desemprego. Mais inflação aleija justamente as classes mais pobres, desprovidas de alternativas para blindar seu patrimônio. Os rentistas estão lá protegidos no paraíso dos juros altos e nos altos juros reais da NTN-B. Uma opção pela maior concentração de renda, em tese o oposto do desejo original da esquerda. Lei das consequências indesejadas”.

Brasil e Ibovespa se encontram em cenário ambivalente

Não há nada que impeça, caso haja uma mudança de postura, que a animação dos investidores estrangeiros e locais volte. Há muito de um “desespero exagerado” do mercado com o ambiente macro.

Mas para que o ânimo volte, explica Felipe, “é necessário seguir pelo caminho da ortodoxia, sem invenções ou aventuras no meio do caminho”.

O estrategista-chefe da Empiricus define o cenário brasileiro como ambivalente: de um lado, preços atraentes em um cenário global, que pelos fatores apresentados, se mostra favorável. 

Do outro lado, um risco não desprezível de caminhada muito populista na economia, num equilíbrio nefasto de mais juros, mais inflação, mais impostos e menos produtividade.

Pular fora do Ibovespa? Saiba o que fazer neste cenário

Claro, com a Selic no patamar atual, de 13,75% ao ano, não é uma má ideia investir em títulos de renda fixa. 

Mas com o Ibovespa nos níveis atuais, a grande chance de ganhos ‘gordos’ está na B3.

Para isso, diante do atual cenário, Felipe Miranda defende a alocação em nomes de alta qualidade do Ibovespa, cujos valuations estão muito baratos.

“Aos níveis atuais, temos o privilégio de comprar empresas líderes, sólidas, pouco alavancadas, com histórico sólido de crescimento dos lucros por ação e muita expertise para atravessar crises a preço de barganha. É comprar coisas muito boas a preço de Xepa”, recomenda. 

Assim, ele recomenda o investimento no que chamou de “generais” da Bolsa:

“Faz sentido ter Vale (VALE3), Gerdau (GOAU4), que estão baratas, com um carrego bom, pagam dividendos, e têm uma proxy dolarizada e que vão te ajudar a enfrentar o momento”.

Além dos “pesos pesados”, Felipe também recomenda o investimento em empresas clássicas e “ultra quality” do Ibovespa, que, segundo ele, podem ser Lojas Renner (LREN3), Arezzo (ARZZ3), BTG (BPAC11), Weg (WEGE3), Raia Drogasil (RADL3), Localiza (RENT3), dentre outras. 

Na visão do analista, todos estes nomes se encontram em patamares muito atrativos. Mas, para Felipe, o grande “pulo do gato” está nas chamadas small e microcaps, empresas de menor valor da Bolsa.

Como dito anteriormente, essas companhias sentiram muito o peso da taxa de juros exorbitante, e podem dar a volta por cima em 2023.

“Acho que uma pontinha da sua carteira, entre 15 e 30% em small caps, sabendo do risco, é onde está a grande oportunidade de valorização”, defendeu o analista na live do podcast Market Makers. 

Sobre o autor

Juan Rey

Jornalista pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Contato: juan.rey@empiricus.com.br