2024, o ano da geopolítica. Imagem: Freepik
Após semanas marcadas por elevada tensão, o cenário geopolítico começa a apresentar sinais iniciais de alívio. O cessar-fogo entre Israel e Líbano, aliado à expectativa de retomada das negociações entre Estados Unidos e Irã, contribui para uma redução do prêmio de risco e para a construção de um ambiente mais favorável aos mercados.
Ainda assim, é importante reconhecer que essa melhora ocorre sobre bases ainda frágeis. A trégua segue sendo interpretada com cautela, diante do histórico recente de instabilidade e da ausência de avanços concretos em direção a um acordo mais abrangente.
Nesse contexto, os bancos centrais mantêm uma postura prudente, como várias vezes comentado nas reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial desta semana, sinalizando que ainda é prematuro incorporar eventuais efeitos de segunda e terceira ordem da guerra sobre inflação e atividade no longo prazo.
Com uma agenda macroeconômica relativamente esvaziada, o foco dos investidores se desloca para o noticiário corporativo, com destaque para o setor de tecnologia, que tem liderado o movimento recente de valorização. Ainda assim, esse otimismo convive com sinais pontuais de excesso, como episódios de valorização mais especulativa, o que reforça a importância de uma abordagem mais seletiva.
Em síntese, embora o mercado encontre suporte no curto prazo a partir do alívio geopolítico e de uma temporada de resultados consistente (apesar do desempenho ruim das ações de Netflix nesta manhã), o pano de fundo ainda exige cautela, uma vez que o equilíbrio atual pode se mostrar mais sensível a novos choques do que aparenta à primeira vista.
· 00:53 — As próximas etapas
No Brasil, a agenda do dia é relativamente esvaziada, com destaque para a repercussão do relatório operacional da Vale e para a divulgação do IGP-M do segundo decênio de abril, que surpreendeu de forma significativa, ao registrar alta de 2,64%, bem acima dos 0,95% da primeira leitura do mês e dos 0,52% observados em março.
Esse avanço reforça a percepção de pressões inflacionárias ainda presentes e ajuda a contextualizar o tom mais duro (hawkish) recente de Paulo Picchetti, do Banco Central. Nesse sentido, ganha importância a fala do presidente do BC, Gabriel Galípolo, que participa hoje das reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, em Washington. Seguimos avaliando que o ciclo de cortes de juros deve ser mantido, mas em um ritmo mais moderado, com reduções de 25 pontos-base ao longo dos próximos meses.
Paralelamente, o quadro fiscal volta a ganhar protagonismo. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também em agenda em Washington, pode trazer novas sinalizações sobre a resposta do governo aos impactos da guerra sobre o comércio global, especialmente após a regulamentação, pelo Conselho Monetário Nacional, de linhas de crédito de R$ 15 bilhões dentro do Plano Brasil Soberano, operadas pelo BNDES e direcionadas a exportadores, setores estratégicos e empresas mais expostas ao cenário externo.
Essas medidas se somam a outras iniciativas com evidente componente político, em um contexto de queda de popularidade captado por pesquisas recentes. Entre elas, destacam-se a discussão sobre a redução da taxação de importações de até US$ 50, ainda cercada de divergências internas, o endurecimento do discurso contra apostas esportivas e a tentativa de avançar com o fim da escala 6×1. Ao mesmo tempo, o PLDO de 2027 foi recebido com ceticismo pelo mercado, sobretudo pela meta de superávit primário de 0,5% do PIB (R$ 73,2 bilhões), cuja viabilidade depende, em grande medida, de exclusões permitidas pelo arcabouço fiscal, como precatórios e determinados gastos sociais, o que reduz a percepção de esforço fiscal efetivo. Sabemos que é nosso calcanhar de Aquiles para 2027.
Ainda assim, gradualmente, o mercado começa a incorporar um novo vetor: a possibilidade de uma inflexão no pêndulo político nas eleições deste ano. Esse fator já começa a entrar no radar do investidor estrangeiro, que, além de ter participado do rali recente dos ativos locais, mesmo após a leve correção dos últimos pregões, natural e até saudável, passa a olhar para o Brasil sob uma ótica mais estrutural.
Não por acaso, começam a surgir relatórios internacionais destacando o país como uma espécie de “novo ouro”, em alusão tanto ao movimento recente da commodity quanto à combinação de ciclo de queda de juros, potencial rali eleitoral e valuations ainda atrativos. Esse interesse externo, até aqui concentrado sobretudo via ETFs, o que ajuda a explicar a maior concentração do movimento em empresas de grande capitalização e alta liquidez, pode entrar em uma nova fase. À medida que o cenário evolua, a próxima etapa do ciclo tende a abrir espaço para uma rotação em direção a ativos de menor capitalização, ampliando o espectro de oportunidades dentro do mercado brasileiro.
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· 01:49 — Plano de emergência
A Netflix divulgou um resultado forte no primeiro trimestre, superando as expectativas de lucro e receita. Ainda assim, a reação do mercado foi negativa diante de um guidance mais fraco para o segundo trimestre, pressionado por fatores não recorrentes e por uma dinâmica de amortização mais intensa. A mensagem que fica é conhecida, mas sempre importante de reforçar: no mercado acionário, mais do que o resultado recém-entregue, é a perspectiva futura que determina o comportamento dos preços. Quando a trajetória à frente perde força, mesmo números robustos no presente podem não ser suficientes para sustentar a valorização do ativo. É o que estamos vendo hoje.
Ao mesmo tempo, começa a ganhar relevância um tema mais estrutural e potencialmente mais delicado: o aperto nas condições do mercado de crédito privado nos Estados Unidos. Grandes bancos de Wall Street vêm restringindo linhas, elevando o custo de alavancagem e reavaliando garantias, o que tem forçado gestores a ajustar portfólios em um ambiente que já convive com saídas de capital. Trata-se de uma mudança relevante de regime. Um mecanismo que, nos últimos anos, ajudou a impulsionar retornos elevados passa agora a exibir sinais mais claros de desgaste, sugerindo um ambiente menos permissivo e mais seletivo para a tomada de risco.
Esse pano de fundo dialoga com um alerta mais amplo feito por Henry Paulson, ex-secretário do Tesouro americano, que defendeu a necessidade de um plano emergencial para lidar com um eventual estresse no mercado de Treasuries. Caso esse risco venha a se materializar, as implicações podem ser particularmente graves, dada a centralidade da dívida pública americana no funcionamento do sistema financeiro global. Ainda assim, no curto prazo, os mercados seguem demonstrando resiliência. O Nasdaq engatou uma das suas maiores sequências de alta em décadas, enquanto outros índices voltaram a renovar máximas, apoiados por uma temporada de resultados corporativos sólida e por sinais recentes de alívio geopolítico.
O ponto de atenção é que esse rali convive com uma dose relevante de complacência. Parte dos investidores pode estar subestimando tanto os efeitos defasados dos choques mais recentes quanto os riscos associados à recomposição das cadeias globais, ao aperto no crédito e ao próprio funcionamento de engrenagens importantes do sistema financeiro. Em outras palavras, o ambiente atual combina força tática nos preços com fragilidades estruturais que seguem presentes no pano de fundo. É justamente por isso que o momento parece exigir mais disciplina, seletividade e sobriedade do que entusiasmo irrestrito.
· 02:32 — Um novo cessar-fogo
O cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Líbano trouxe algum alívio ao cenário geopolítico, mas ainda é interpretado como uma trégua pontual e de caráter essencialmente tático, inserida em um contexto mais amplo de negociações incertas entre Estados Unidos e Irã e de tensões persistentes envolvendo o Hezbollah e a região estratégica do Estreito de Ormuz.
Embora o discurso mais otimista de Donald Trump e a possibilidade de novas rodadas de diálogo contribuam para sustentar uma leitura um pouco mais construtiva no curto prazo, a falta de avanços concretos mantém o mercado em postura cautelosa, com níveis elevados de incerteza quanto à evolução do conflito e seus potenciais impactos sobre o fornecimento global de energia.
· 03:25 — Um longo caminho até o acordo
Líderes árabes e europeus avaliam que um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã pode levar cerca de seis meses para ser efetivamente construído, o que tem reforçado a defesa pela extensão do atual cessar-fogo ao longo desse período. Em paralelo, iniciativas como a trégua entre Israel e Líbano e as discussões em torno da reabertura do Estreito de Ormuz buscam mitigar riscos mais imediatos, especialmente diante dos impactos sobre o mercado de energia e do risco crescente de desorganização nas cadeias globais, com potenciais reflexos até mesmo sobre a segurança alimentar.
Em essência, o que se desenha é um processo de normalização gradual, mas longe de ser linear. O caminho tende a ser marcado por momentos de tensão, idas e vindas nas negociações, episódios de escalada e uma retórica ainda mais dura. Ainda assim, à medida que os incentivos para a estabilização se consolidam, a tendência ao longo do tempo é de convergência para um ambiente mais previsível e menos conflituoso, ainda que esse percurso exija paciência e leitura cuidadosa dos desdobramentos.
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· 04:11 — O lugar da China
Após o fracasso das negociações entre Estados Unidos e Irã, Xi Jinping passou a ocupar, de forma mais evidente, o centro das articulações diplomáticas globais, recebendo diversas lideranças e reforçando a percepção de que Pequim pode exercer um papel estabilizador em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado.
Ainda que a China sinalize disposição para contribuir com propostas de paz e ampliar sua influência, sua atuação segue marcada por cautela, privilegiando movimentos graduais e, muitas vezes, mais simbólicos do que efetivamente interventivos. Trata-se de um equilíbrio entre projetar liderança global e evitar os riscos de um envolvimento direto em conflitos complexos, o que mantém em aberto não apenas sua capacidade, mas sobretudo sua real disposição de assumir um protagonismo mais decisivo.
Paralelamente, a guerra no Oriente Médio vem sendo absorvida pela China com relativa resiliência, contrariando parte das expectativas iniciais. Esse desempenho reflete tanto avanços estruturais em sua segurança energética, com maior diversificação de fontes, estoques estratégicos e expansão da produção doméstica, quanto a própria estratégia de longo prazo de Xi, que prioriza estabilidade e evita movimentos precipitadamente arriscados. Além disso, o conflito traz efeitos indiretos que, em certa medida, favorecem o país, como o fortalecimento de cadeias produtivas integradas, o impulso à demanda por tecnologias ligadas à transição energética e ganhos geopolíticos decorrentes do desgaste militar e reputacional dos EUA.
Ainda assim, o quadro não é isento de riscos: uma eventual prolongação do conflito pode pressionar o crescimento chinês, sobretudo via energia e comércio global, o que ajuda a explicar a preferência de Pequim por uma solução negociada. Em síntese, a China emerge, até aqui, como uma beneficiária relativa desse contexto, não por confronto direto, mas por uma condução pragmática, que busca preservar estabilidade enquanto amplia sua influência no redesenho da ordem global.
· 05:03 — Conheça a nova carteira Empiricus Alocação Estrutural Global
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