(Imagem: Suphanat Khumsap/iStock)
A retomada dos ataques entre Estados Unidos e Irã recoloca o risco geopolítico no centro dos mercados, ainda que, por enquanto, a reação permaneça relativamente contida. Forças americanas atingiram lançadores iranianos na Ilha de Larak, no Estreito de Ormuz, e Teerã respondeu com mísseis e drones, enquanto Donald Trump ampliou as ameaças contra a Ilha Kharg, principal terminal de exportação de petróleo iraniano.
O Brent voltou a superar US$ 90, refletindo o risco de nova deterioração da oferta, ao mesmo tempo em que sanções e bloqueios seguem pressionando a economia iraniana. A tensão também expõe os limites da Organização para Cooperação de Xangai, já que China e Rússia mantêm apoio majoritariamente retórico ao Irã, apesar do peso econômico e geopolítico crescente do bloco.
No campo macroeconômico, o payroll de agosto ganha importância adicional após o tom mais duro de Kevin Warsh em Jackson Hole, que reforçou as apostas em uma alta de juros pelo Fed já em setembro. Esse cenário contrasta com a expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic no Brasil e aumenta a sensibilidade dos mercados emergentes a uma eventual combinação de petróleo mais caro, dólar forte e juros americanos mais elevados.
Na Europa, a deterioração fiscal da França segue pressionando os rendimentos soberanos, enquanto, na China, o PMI industrial melhorou para 49,8 em agosto, embora ainda permaneça em território de contração. O quadro global, portanto, continua marcado por uma combinação de risco geopolítico, pressão fiscal e incerteza monetária, com potencial para manter elevada a volatilidade entre moedas, juros e bolsas.
· 00:53 — O espaço para cortar juros fica mais estreito
No Brasil, o Ibovespa encerrou a sexta-feira em alta de 0,30%, aos 175.665 pontos, acumulando o oitavo pregão consecutivo de valorização e um ganho de 2,71% na semana, enquanto o dólar avançou 0,66%, para R$ 5,19, por conta da fala de Kevin Warsh em Jackson Hole. Na agenda, as atenções se voltam para o PLOA de 2027, que prevê superávit oficial de 0,5% do PIB, mas resultado efetivo entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões após as exclusões permitidas pela legislação.
Embora o governo afirme que não dependerá da aprovação de novas medidas de arrecadação e estime uma economia de cerca de R$ 100 bilhões com ações já adotadas, o avanço próximo de 20% das despesas discricionárias aumentou a cautela do mercado. Ao mesmo tempo, a inadimplência das pessoas físicas subiu para 7,8% em julho, maior nível desde 2009, reforçando os sinais de pressão sobre as famílias em um ambiente marcado por juros elevados, atividade mais fraca e alto nível de endividamento.
No campo político e monetário, a campanha eleitoral ganha intensidade, com Lula e Flávio Bolsonaro ampliando a interlocução com o setor privado e reforçando seus respectivos discursos econômicos, enquanto Congresso e TSE concentram pautas relevantes ao longo da semana. Para os mercados, porém, a principal tensão está na combinação entre um Federal Reserve mais duro e um Banco Central brasileiro inclinado a dar continuidade ao ciclo de cortes da Selic.
O Caged de julho, com criação de apenas 58,6 mil vagas, fortaleceu a expectativa de uma nova redução de 25 pontos-base em setembro, mas uma eventual alta dos juros americanos, somada às incertezas fiscais e eleitorais, pode limitar a extensão desse movimento no Brasil. Essa divergência já aparece na curva de juros, com alívio nos vencimentos mais curtos e maior pressão na ponta longa, evidenciando que o espaço para a flexibilização monetária dependerá não apenas da desaceleração da atividade, mas também da condução do Fed, da credibilidade da política fiscal e da evolução do cenário eleitoral.
· 01:49 — A fala de Warsh
Kevin Warsh reforçou, em Jackson Hole, uma postura mais firme no combate à inflação, deixando claro que a meta de 2% permanece no centro das prioridades do Federal Reserve. Na avaliação do dirigente, os avanços recentes nos preços ainda não representam uma melhora suficientemente consistente das tendências subjacentes.
Embora tenha evitado sinalizar de forma explícita uma alta de juros já em setembro, Warsh sugeriu que a política monetária atual pode não estar suficientemente restritiva e afirmou que o Fed ainda terá “trabalho a fazer” caso a inflação não continue convergindo em direção à meta. Ao mesmo tempo, defendeu maior discrição na comunicação da autoridade monetária, criticando o excesso de forward guidance e preservando maior flexibilidade para ajustar a política conforme a evolução dos dados.
A reação dos mercados foi imediata. A probabilidade implícita de uma alta de 25 pontos-base na reunião de setembro aumentou, enquanto o rendimento do Treasury de dois anos avançou de 4,24% para até 4,36%. O dólar se fortaleceu e as bolsas recuaram, com impacto mais intenso sobre empresas de tecnologia, tradicionalmente mais sensíveis ao custo de capital.
O Nasdaq caiu 0,5%, o S&P 500 recuou 0,25% e as ações da Nvidia perderam 4,6%, devolvendo boa parte dos ganhos registrados após a divulgação de seus resultados. A leitura predominante foi de que o Fed voltou a colocar de forma mais concreta sobre a mesa a possibilidade de novas altas de juros, ainda que a decisão siga condicionada aos dados de inflação e atividade.
Apesar do tom mais restritivo, Warsh também ressaltou a resiliência da economia americana e avaliou positivamente sua capacidade de absorver choques, sugerindo que o Fed ainda dispõe de espaço para priorizar o combate à inflação sem comprometer imediatamente a atividade. Essa leitura encontra respaldo na temporada de resultados: com 97% das empresas do S&P 500 já tendo divulgado seus números do segundo trimestre, o crescimento dos lucros chegou a 52%, o ritmo mais forte desde a recuperação pós-pandemia de 2021.
Para o mercado acionário, esse ponto é relevante porque resultados corporativos robustos podem amortecer parte do impacto de juros mais altos, embora o ambiente continue mais desafiador para ativos de maior duração e setores mais dependentes de expectativas de crescimento futuro.
· 02:34 — Semana com dados de emprego
Aliás, Wall Street entra em setembro com o relatório de empregos de agosto como principal referência macroeconômica, com expectativa de criação de 58 mil vagas, desemprego estável em 4,1% e alta de 0,3% nos salários, dados que podem influenciar as apostas para a próxima decisão do Federal Reserve.
Ao mesmo tempo, a temporada de resultados mantém a inteligência artificial no centro das atenções, com balanços de Dell Technologies, Broadcom, Snowflake, Hewlett Packard Enterprise, Palo Alto Networks, MongoDB, Zscaler e Ciena, enquanto a Tesla realiza o lançamento do Cybercab em Austin.
A semana também será marcada pela estreia de John Ternus como CEO da Apple e pela divulgação do Livro Bege do Fed, em um ambiente em que emprego, inflação e a força dos investimentos em IA seguem como principais vetores para a precificação dos mercados.
· 03:22 — Interesse americano
Donald Trump anunciou um acordo pelo qual os Estados Unidos passariam a controlar, por meio de uma parceria com o setor privado, mais de 65 bilhões de barris das reservas de petróleo da Venezuela, o equivalente a cerca de um quinto do total do país. Segundo o plano, uma empresa privada liderada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt teria direitos sobre os campos por 100 anos e se tornaria uma das maiores detentoras corporativas de reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Trump argumenta que o arranjo reforçaria a segurança energética dos Estados Unidos e contribuiria para a recomposição da Reserva Estratégica de Petróleo em um momento de maior restrição da oferta global, em meio à guerra com o Irã. Parte da operação, no entanto, ainda depende de autorizações do Congresso e enfrenta questionamentos políticos e jurídicos.
Do lado venezuelano, a presidente interina Delcy Rodríguez afirma que o acordo poderá atrair dezenas de bilhões de dólares em investimentos, gerar empregos, ampliar a arrecadação e contribuir para a modernização de uma infraestrutura petrolífera bastante deteriorada. Ainda assim, o projeto enfrenta resistência de diferentes grupos políticos nos dois países e levanta dúvidas sobre sua sustentabilidade caso haja uma mudança de governo ou uma eventual revisão dos contratos.
Além disso, o impacto sobre a oferta global de petróleo e sobre os preços da gasolina tende a ser limitado no curto prazo, uma vez que a recuperação da capacidade produtiva venezuelana exigirá investimentos expressivos e provavelmente levará anos para se materializar.
· 04:15 — Novas hostilidades
A retomada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã recoloca o petróleo no centro da precificação dos mercados globais. Após uma semana de forte queda, favorecida pela melhora parcial do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz, o Brent voltou a superar os US$ 90 diante de novos ataques americanos, da retaliação iraniana e de incidentes envolvendo embarcações na região.
Para os mercados, o principal risco está em uma escalada mais prolongada, capaz de voltar a restringir a oferta de energia e reacender pressões inflacionárias justamente em um momento em que os bancos centrais buscam calibrar com cautela os próximos passos. Nesse ambiente, um petróleo mais caro tende a elevar as expectativas de inflação, pressionar os juros de longo prazo e pesar sobre ativos mais sensíveis ao custo de capital, além de ampliar a volatilidade em moedas e bolsas de países mais dependentes da importação de energia.
A tensão também amplia a dimensão geopolítica do choque. A Índia, que aumentou significativamente as compras de petróleo russo para compensar a menor disponibilidade de oferta no Oriente Médio, passa agora a enfrentar pressão crescente de Washington, incluindo a ameaça de novas sanções e tarifas contra países que continuem sustentando a demanda por petróleo de Moscou. Esse movimento coloca à prova a tradicional estratégia indiana de preservar sua autonomia entre Rússia e EUA e adiciona uma nova camada de incerteza às cadeias globais de energia e comércio.
Para os mercados, a consequência é um ambiente em que o risco deixa de estar concentrado apenas no preço do barril e passa a envolver também fluxos comerciais, sanções, moedas e movimentos de realocação de capital entre diferentes regiões.
· 05:07 — Nvidia: o banco central da inteligência artificial
A Nvidia (B3: NVDC34 | Nasdaq: NVDA) vem consolidando uma posição que vai muito além da fabricação de chips, atuando cada vez mais como uma espécie de “banco central da IA”. Além de fornecer a infraestrutura computacional que sustenta boa parte do avanço da inteligência artificial, a companhia passou a utilizar seu próprio balanço para acelerar a expansão do ecossistema, com US$ 95,6 bilhões em participações acionárias e cerca de US$ 108,5 bilhões em garantias ligadas principalmente à construção de data centers.
Investimentos em empresas como Intel, CoreWeave e Nebius, além de iniciativas para financiar clientes e ampliar a capacidade computacional disponível, ajudam a proteger a demanda futura por seus produtos e fortalecem sua posição estratégica justamente quando grandes clientes, como a OpenAI, buscam desenvolver alternativas próprias. O principal elemento construtivo permanece sendo o crescimento: a Nvidia projeta avanço de aproximadamente 70% da receita no próximo ano, muito acima dos 45% anteriormente esperados pelo mercado.
Para os BDRs NVDC34, essa transformação reforça uma tese que já não depende apenas do ciclo tradicional de semicondutores. A Nvidia tornou-se uma exposição mais ampla ao crescimento da própria infraestrutura de IA, combinando liderança tecnológica, um ecossistema de software difícil de replicar e capacidade financeira para estimular clientes, fornecedores e novas plataformas. A estratégia não é isenta de riscos, especialmente pelo tamanho crescente dos investimentos, garantias e potenciais conflitos decorrentes do financiamento do próprio ecossistema, mas a geração de caixa e o ritmo de expansão permitem que a companhia faça essas apostas sem deixar de remunerar seus acionistas. Para o investidor brasileiro, os BDRs seguem oferecendo uma forma direta de participar dessa expansão estrutural da IA, com a vantagem adicional da exposição ao dólar, embora o elevado nível de expectativas continue exigindo disciplina de preço e horizonte de longo prazo.