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Os mercados globais operam com viés positivo após a nova trégua entre Estados Unidos e Irã, que prevê a suspensão temporária das hostilidades e a retomada das negociações em Doha, embora o acordo siga frágil e ainda marcado por versões divergentes entre Washington e Teerã.
A reabertura gradual do tráfego pelo Estreito de Ormuz ajudou a estabilizar o petróleo, com o Brent próximo de US$ 74 por barril, reduzindo, ao menos por ora, a influência da geopolítica sobre os ativos. Ainda assim, autoridades iranianas reiteraram a intenção de manter controle sobre a navegação na região, enquanto a Europa segue alertando para riscos inflacionários persistentes.
Em paralelo, o iene voltou ao radar ao cair para o menor nível desde 1986 frente ao dólar, aumentando a expectativa de uma eventual intervenção do governo japonês. Na China, o PMI manufatureiro oficial subiu para 50,3 em junho, sinalizando uma melhora modesta da indústria. Na Europa, os dados mostraram inflação menor na França, desemprego estável na Alemanha e confirmação do crescimento do PIB britânico.
· 00:52 — O dia depois do jogo
No Brasil, o Ibovespa encerrou a segunda-feira praticamente estável, em leve queda de 0,05%, aos 173.205 pontos, destoando da alta observada em Wall Street. O giro financeiro foi de R$ 10,2 bilhões, cerca de 45% abaixo da média diária de junho e dos últimos 12 meses, refletindo a menor liquidez em dia de jogo da seleção brasileira, como comentado ontem.
O dólar, por sua vez, subiu para R$ 5,17, na contramão da queda global da moeda americana. O ambiente externo mais benigno, com o petróleo ainda em níveis mais comportados apesar dos ruídos entre Estados Unidos e Irã, somado ao IPCA-15 abaixo do esperado e à comunicação mais flexível do Banco Central, mantém viva a discussão sobre um possível novo corte da Selic em agosto.
A agenda doméstica volta a colocar o mercado de trabalho no centro das atenções. O Caged de maio deve mostrar criação líquida de cerca de 120 mil vagas formais, após 85.888 em abril, confirmando a resiliência do emprego, embora a expectativa seja de desaceleração gradual. Esse dado é relevante porque um mercado de trabalho ainda aquecido sustenta a demanda doméstica e dificulta uma queda mais consistente da inflação de serviços, ponto de atenção para o Banco Central. Brasília também segue no radar, com pautas de impacto fiscal, como a PEC da aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, além de novas iniciativas de crédito público, como o Desenrola Adimplentes e o Fies Empreendedor.
· 01:47 — Que venham os dados
Nos EUA, Wall Street caminha para encerrar hoje um dos trimestres mais intensos dos últimos anos, marcado por forte valorização das ações, volatilidade expressiva no petróleo em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã, novos recordes no setor de tecnologia e retomada da força do dólar. O Nasdaq caminha para fechar o período com alta próxima de 20%, seu melhor desempenho desde 2021, impulsionado pelo avanço de cerca de 80% no índice de semicondutores. O S&P 500, por sua vez, deve encerrar o trimestre com ganho de 14%, apesar da queda de 1,8% em junho.
O desempenho é ainda mais relevante diante das dúvidas sobre uma possível bolha em inteligência artificial, setor que deve movimentar US$ 7,6 trilhões nos próximos cinco anos, e das incertezas geopolíticas ainda presentes. Ainda assim, há sinais de cautela: todas as “Magnificent Seven” entraram em território de correção (queda de pelo menos 10% das máximas), embora continuem sendo vistas como algumas das principais responsáveis pelo crescimento dos lucros do S&P 500 no segundo trimestre.
Em paralelo, o Dow Jones fechou acima dos 52.000 pontos pela primeira vez, apoiado pela entrada da Alphabet no índice e pela alta generalizada em tecnologia. No campo corporativo, a Comcast anunciou planos para separar NBCUniversal e Sky de seus negócios de telefonia móvel e banda larga, movimento visto como potencialmente positivo para destravar valor e reduzir o desconto de conglomerado. Na agenda, investidores acompanham os resultados de Constellation Brands e Nike, além da confiança do consumidor e do Jolts, que deve mostrar queda nas vagas em aberto de para 7,3 milhões, mantendo a razão entre vagas e desempregados próxima de 1.
· 02:33 — Freios e contrapesos
A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 5 votos a 4, que Donald Trump não pode demitir, ao menos por enquanto, Lisa Cook do cargo de diretora do Federal Reserve sem garantir o devido processo legal em relação às acusações de fraude hipotecária, que ela nega. A decisão mantém Cook temporariamente no cargo e reforça a importância da independência do banco central americano, considerada essencial para a credibilidade da política monetária (tema recorrente no Brasil), a confiança dos investidores no mercado de Treasuries e a força do dólar.
Ainda assim, a Corte deixou aberta a possibilidade de uma eventual destituição caso Trump consiga comprovar “justa causa”, como exige a legislação. O impacto nos mercados foi limitado porque a decisão já era parcialmente esperada, porque o ambiente de política monetária mudou desde a tentativa inicial de demissão e porque a possibilidade de formar uma maioria claramente alinhada a Trump no FOMC perdeu força.
Em outra decisão relevante, por 6 votos a 3, a Suprema Corte ampliou o poder presidencial ao validar a demissão de Rebecca Slaughter, integrante democrata da Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), revertendo um precedente de 1935 que restringia esse tipo de interferência em agências reguladoras independentes. A Corte, porém, fez questão de diferenciar o Federal Reserve dessas demais instituições, ressaltando sua tradição institucional própria e seu maior grau de independência.
Na prática, Trump ganhou mais margem para substituir dirigentes de órgãos como FTC, SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) e CFTC (Comissão de Negociação de Contratos Futuros de Commodities), o que pode ter efeitos regulatórios relevantes no curto prazo, mas não recebeu carta branca para controlar diretamente o banco central. A semana ainda reserva decisões sobre temas como cidadania por nascimento, participação de atletas transgênero em esportes femininos e limites de gastos eleitorais coordenados entre partidos e candidatos.
· 03:29 — A corrida acelera na Ásia
A corrida da inteligência artificial na Ásia está entrando em uma nova fase, marcada por investimentos de grande escala não apenas em software, mas também na infraestrutura física necessária para sustentar essa tecnologia. A Coreia do Sul anunciou planos de cerca de US$ 880 bilhões em chips e infraestrutura de IA, liderados por empresas como Samsung e SK Hynix, enquanto o Japão prepara um programa ainda maior, de US$ 2,3 trilhões ao longo de 14 anos, voltado a inteligência artificial, semicondutores, defesa e outros setores estratégicos.
Por trás desses movimentos está a tentativa de preservar relevância tecnológica e reduzir a dependência das duas grandes potências da IA, Estados Unidos e China, em um ambiente de competição geopolítica crescente. A ideia de “IA soberana” ganha força na Ásia, assim como na Europa e no Canadá, com países buscando garantir capacidade computacional própria, produção de chips e infraestrutura de nuvem.
O desafio será sustentar esses investimentos ao longo de muitos anos, já que fábricas, data centers e redes elétricas exigem planejamento de longo prazo e continuarão existindo muito depois dos ciclos eleitorais e da atual euforia do mercado.
· 04:18 — Fique esperto com o iene
O iene voltou ao centro das atenções após cair para o menor nível em quase quatro décadas frente ao dólar, levando a ministra das Finanças, Satsuki Katayama, a reforçar que o governo japonês está pronto para intervir “a qualquer momento” diante de movimentos excessivos no câmbio. A fraqueza da moeda chama atenção porque ocorre mesmo com a alta relativa dos juros japoneses em comparação aos Treasuries americanos, algo que, em tese, deveria favorecer o iene.
A desvalorização é ainda mais expressiva quando analisada em termos reais, já que o Japão conviveu com uma inflação muito inferior à de outros países ao longo das últimas décadas, o que deveria ter preservado parte do poder de compra da moeda. O resultado é um Japão muito barato para estrangeiros, mas também vulnerável à percepção de perda de confiança.
A grande dúvida agora não parece ser se haverá intervenção, mas em que nível ela ocorreria. Parte do mercado entende que o posicionamento especulativo contra o iene já está excessivo e poderia justificar uma ação do Ministério das Finanças, especialmente se a desvalorização passar a ameaçar a estabilidade financeira ou facilitar demais a compra de ativos japoneses por estrangeiros.
Ainda assim, o governo tem demonstrado mais paciência do que muitos investidores esperavam, como mostrou o Citi ao encerrar com prejuízo uma posição comprada em iene após a ausência de intervenção. A mensagem é que o iene segue estruturalmente pressionado, mas cada nova rodada de queda aumenta o risco de uma resposta oficial, tornando a moeda difícil de operar no curto prazo.
· 05:02 — Energia própria para alimentar a próxima fase da IA
A Microsoft segue avançando para resolver um dos principais gargalos da inteligência artificial: energia. A companhia fechou com a Chevron um contrato de 20 anos para abastecer um data center de IA no Texas, por meio do Project Kilby, uma usina a gás natural de até 2,67 gigawatts que será construída ao lado do campus da empresa.
A escala do projeto é relevante, suficiente para abastecer quase 2 milhões de residências, e mostra que a disputa em IA não será apenas por chips, modelos e talentos, mas também por infraestrutura física, energia confiável e capacidade de atender uma demanda computacional crescente. O ponto de atenção é ambiental, já que o projeto pode elevar significativamente as emissões de CO₂, em contraste com as metas de sustentabilidade da companhia.
Ao mesmo tempo, a Microsoft tem ajustado preços em outras frentes, como nos consoles Xbox, para compensar a alta dos custos de memória e melhorar a rentabilidade de segmentos com retorno abaixo do ideal. Embora esses movimentos reforcem que o ciclo de IA traz pressões de custo no curto prazo, também mostram uma empresa buscando alinhar capex, contratos comerciais e rentabilidade futura.
Para o investidor, a leitura é construtiva: a Microsoft continua sendo uma das plataformas mais bem posicionadas para capturar o crescimento estrutural da inteligência artificial, combinando escala, backlog relevante, capacidade de investimento, poder de preço e presença dominante em nuvem, software e infraestrutura. Por isso, sigo tranquilo com a exposição a Microsoft via BDR MSFT34, entendendo que a volatilidade de curto prazo não altera a qualidade de longo prazo.