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Investimentos

Ibovespa hoje: Prévia do PIB reforça desaceleração no Brasil e o fim do cessar-fogo entre EUA e Irã; veja destaques desta segunda (17)

Dados do IBC-Br de junho recuam 0,6% na comparação mensal e reforça sinais de perda de fôlego da atividade econômica

Por Matheus Spiess

17 ago 2026, 10:36

Atualizado em 17 ago 2026, 10:36

[Imagem: Canva]

[Imagem: Canva]

Os mercados globais iniciam a semana sem uma direção definida, divididos entre o alívio proporcionado pela menor expectativa de aperto monetário nos Estados Unidos e a persistência dos riscos geopolíticos no Oriente Médio. O cessar-fogo de 60 dias entre EUA e Irã chega ao fim sem sinais claros de renovação, enquanto as negociações entre Washington e Teerã permanecem paralisadas e o tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz segue severamente restrito.

A escalada das tensões também alcançou o Líbano, onde ataques israelenses deixaram 11 mortos, entre eles um comandante de alto escalão do Hezbollah, no episódio mais letal desde o cessar-fogo de junho. Nesse contexto, Brent e WTI voltaram a subir, sustentando um prêmio de risco relevante sobre energia e transporte marítimo, embora os mercados acionários permaneçam relativamente resilientes após as máximas recentes do S&P 500 e a redução das apostas em uma nova alta de juros pelo Federal Reserve.

Na Ásia, por outro lado, os dados econômicos reforçaram os sinais de perda de fôlego da atividade. Ainda assim, as bolsas da região avançaram, com Nikkei, Shanghai e Hang Seng em alta, apoiadas pela menor percepção de risco de aperto monetário nos Estados Unidos. A semana traz poucos indicadores de maior relevância, mas a divulgação da ata do Fed, os balanços de grandes varejistas, como o Walmart, e os desdobramentos das negociações com o Irã devem permanecer no centro das atenções.

· 00:57 — IBC-Br recua e reforça sinais de desaceleração da atividade

O mercado brasileiro encerrou a última semana sob pressão crescente, em um ambiente marcado por maior aversão a risco, saída de capital estrangeiro e início da volatilidade pré-eleitoral. O Ibovespa recuou 0,10% na sexta-feira, aos 166.934 pontos, completando nove sessões consecutivas de perdas e acumulando queda de 3,23% na semana, o pior desempenho semanal desde maio. O dólar avançou 2,67% no período, voltando a superar R$ 5,20. A deterioração foi acompanhada por uma saída líquida de R$ 13,6 bilhões de investidores estrangeiros da bolsa em agosto até o dia 12 e por uma elevação dos prêmios na curva de juros.

O movimento também se refletiu na avaliação de instituições internacionais: um banco americano retirou o real de sua cesta de carry trade diante da expectativa de maior volatilidade cambial associada ao processo eleitoral, enquanto outro reduziu sua recomendação para o Brasil de overweight para neutro e revisou para baixo sua projeção para o Ibovespa, citando incerteza eleitoral, juros reais elevados, desaceleração da atividade e preocupações fiscais.

No campo macroeconômico, o IBC-Br de junho recuou 0,6% na comparação mensal, resultado ligeiramente pior do que a expectativa de queda de 0,5% e após avanço de 0,1% no mês anterior. A leitura reforça os sinais de perda de fôlego da atividade econômica ao final do segundo trimestre, em linha com a desaceleração já observada em alguns dos principais indicadores de indústria, comércio e serviços. O dado também sugere uma passagem menos favorável para a segunda metade do ano, aumentando a atenção sobre a intensidade da desaceleração da economia brasileira nos próximos meses.

Ao mesmo tempo, os sinais de fragilidade financeira continuam se acumulando: a inadimplência empresarial atingiu 9,1 milhões de CNPJs em junho, com R$ 232,9 bilhões em dívidas em atraso, ambos em níveis recordes. No setor público, o déficit primário consolidado chegou a R$ 55,3 bilhões em junho e a R$ 157,2 bilhões no acumulado, equivalente a 1,19% do PIB, enquanto a dívida pública permanece acima de 80% do PIB.

Esse conjunto reforça a percepção de que a combinação entre uma política monetária ainda restritiva, expansão dos gastos públicos e deterioração fiscal tende a manter juros, câmbio e demais ativos domésticos mais sensíveis tanto ao noticiário político quanto às discussões sobre o ajuste necessário no próximo ciclo de governo.

Em paralelo, algumas frentes oferecem contrapontos mais construtivos. A balança comercial deve encerrar 2026 com superávit superior ao observado no ano anterior, sustentada pelo avanço das exportações de soja e petróleo e por um crescimento mais moderado das importações. No setor de energia, a Petrobras identificou a presença de óleo no poço Morpho, na Margem Equatorial, reforçando o potencial estratégico da região, embora ainda não existam informações suficientes para estimar o tamanho da descoberta, o volume recuperável ou sua viabilidade econômica.

Caso futuras perfurações confirmem escala e qualidade, a área poderá se consolidar como uma nova fronteira relevante para a produção brasileira, mas os efeitos sobre a oferta da companhia devem se materializar apenas no longo prazo e dependerão de fatores como licenciamento, investimentos e disciplina na alocação de capital. Dessa forma, o cenário doméstico combina oportunidades com um pano de fundo ainda desafiador, no qual fiscal, eleições, atividade econômica e fluxo estrangeiro permanecem entre os principais determinantes para a precificação dos ativos brasileiros.

· 01:42 — Atenção nas ações americanas

Nos Estados Unidos, os índices encerraram a semana em tom relativamente estável, embora o S&P 500 tenha recuado 0,2% em relação à sua máxima histórica, enquanto o Nasdaq caiu 0,3% e o Dow Jones cedeu 0,2%. Ainda assim, o S&P 500 completou a terceira semana consecutiva de ganhos.

O mercado reagiu de forma limitada tanto à queda inesperada de 0,6% nas vendas no varejo, parcialmente influenciada pela antecipação de promoções, como o Amazon Prime Day, quanto à alta de 1,7% do petróleo Brent, em meio à ausência de avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã.

Essa menor sensibilidade às manchetes tem sido acompanhada por uma queda expressiva da volatilidade: o VIX recuou para 14,25 pontos, menor nível desde dezembro e bem abaixo de sua média histórica de 19,45. Parte dessa tranquilidade pode ser explicada pela força da temporada de resultados, com os lucros das empresas do S&P 500 caminhando para uma expansão superior a 31% no segundo trimestre, além da redução das apostas em uma nova alta de juros pelo Federal Reserve após leituras mais fracas de inflação e emprego.

Apesar desse ambiente favorável, Wall Street mantém uma postura cautelosa em relação ao potencial adicional de valorização do mercado. A projeção média para o S&P 500 ao fim do ano gira em torno de 7.900 pontos, o que sugere uma alta de apenas 1,5% nos próximos meses, mesmo diante da forte expansão dos lucros. Parte dessa cautela está relacionada ao desempenho mais moderado das chamadas “Magnificent Seven”, que acumulam valorização de cerca de 4% no ano, abaixo dos aproximadamente 14% do S&P 500 e dos 16% da versão do índice com pesos iguais, levantando dúvidas sobre quanto do rali tecnológico já foi incorporado aos preços.

Além disso, o crescimento dos lucros pode desacelerar para cerca de 13,6% em 2027, à medida que o mercado se aproxima do quarto ano do ciclo de valorização impulsionado pela inteligência artificial. Eventos como o fim do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, a divulgação da ata do Fed e a possibilidade de novas tarifas comerciais ainda podem provocar episódios de maior volatilidade, mas, por enquanto, o mercado segue sustentado por lucros robustos, menor receio de aperto monetário e uma percepção de risco relativamente contida.

· 02:39 — Consumidor perde fôlego e Fed ganha espaço para esperar

Os dados mais recentes reforçam a percepção de que o consumidor americano começa a perder fôlego, embora parte da fraqueza observada em julho tenha sido influenciada por efeitos de calendário. As vendas no varejo recuaram 0,6% no mês, bem abaixo da expectativa de alta de 0,1%, registrando a primeira queda em nove meses e a maior desde maio de 2025. O grupo de controle, mais diretamente relacionado ao cálculo do consumo no PIB, caiu 0,4%, enquanto segmentos como comércio eletrônico e veículos recuaram 2,2% e 1,8%, respectivamente.

Parte da fraqueza das vendas online pode ser explicada pela antecipação do Amazon Prime Day e de outras promoções para junho, mas os sinais de cautela vão além desse efeito: a confiança do consumidor recuou cerca de 8%, os Estados Unidos perderam 23 mil empregos no último mês e a taxa de participação na força de trabalho permanece bastante deprimida.

Ao mesmo tempo, a inflação anual ainda gira em torno de 3,4%, acima da meta de 2% do Federal Reserve, configurando um ambiente no qual a atividade perde dinamismo sem que as pressões inflacionárias tenham sido plenamente dissipadas. Em conjunto, esses dados reduzem a urgência por novas altas de juros e aumentam a probabilidade de manutenção das taxas em setembro.

Agora, a semana oferece novas pistas sobre esse equilíbrio entre consumo, inflação e política monetária. Em uma agenda relativamente esvaziada de indicadores, o principal destaque será a divulgação da ata da reunião de julho do Fed, além dos PMIs de manufatura e serviços. Ao mesmo tempo, a temporada de resultados se concentrará nas grandes varejistas, com Home Depot, Target, Lowe’s e Walmart oferecendo uma leitura importante sobre a saúde financeira das famílias americanas.

Os lucros do segundo trimestre permanecem fortes no agregado, mas esse desempenho tem sido liderado pelas grandes empresas de tecnologia, enquanto os setores mais expostos ao consumo apresentam resultados relativamente mais modestos. Nos mercados, a correção recente das ações ligadas à inteligência artificial e aos semicondutores já deu lugar a uma recuperação de posições mais especulativas, acompanhada pelo retorno dos fluxos para ETFs alavancados e opções de compra.

Nesse contexto, a postura ainda restritiva do Fed continua representando um obstáculo para os ativos de risco, mas uma desaceleração adicional da inflação e do crescimento poderia abrir espaço para uma política monetária menos dura.

· 03:25 — Mudança do ensino

A ascensão da inteligência artificial já começa a influenciar de maneira concreta as escolhas acadêmicas de estudantes universitários nos Estados Unidos. Pesquisas recentes mostram que 69% dos alunos temem que a IA dificulte sua entrada no mercado de trabalho, enquanto 22% afirmam já ter mudado de curso ou de especialização em razão dessa preocupação.

Outro levantamento, realizado pela Lumina Foundation em parceria com a Gallup, indica que 13% dos estudantes de bacharelado e 19% daqueles matriculados em cursos de curta duração alteraram sua área de estudo em resposta ao avanço da tecnologia, enquanto quase metade dos entrevistados já considerou seriamente essa possibilidade. Esse receio encontra algum respaldo na dinâmica recente do mercado de trabalho, uma vez que estudos do Federal Reserve de St. Louis apontam que a disseminação da IA vem criando dificuldades para profissionais recém-formados em busca do primeiro emprego.

Ao mesmo tempo, ainda não há consenso sobre quais áreas estarão mais protegidas ou serão mais valorizadas nesse novo ambiente. Ciência da Computação, por exemplo, deixou de ser percebida como uma garantia de empregabilidade e registrou queda de 8,1% nas matrículas no último ano, depois de liderar o crescimento entre os cursos por cerca de 15 anos. Em paralelo, formações específicas em inteligência artificial vêm se multiplicando rapidamente nas universidades, enquanto especialistas argumentam que competências mais amplas e transferíveis — como pensamento crítico, liderança, colaboração e capacidade de trabalhar de forma produtiva com ferramentas de IA — tendem a ganhar importância crescente.

Algumas instituições também começam a experimentar alternativas menos tradicionais, com cursos voltados à economia de criadores e à produção de conteúdo, refletindo uma tentativa mais ampla de adaptar o ensino superior às transformações aceleradas que a tecnologia vem promovendo no mercado de trabalho.

· 04:13 — Desaceleração asiática

O Japão encerrou o segundo trimestre com crescimento mais fraco do que o esperado, reforçando o dilema entre sustentar a atividade econômica e conter a desvalorização do iene. O PIB real avançou 0,3% na comparação trimestral e 1,1% em taxa anualizada, abaixo das projeções de 0,5% e 2,0%, respectivamente, embora o resultado tenha marcado o terceiro trimestre consecutivo de expansão. A composição, no entanto, foi pouco favorável: o consumo das famílias permaneceu praticamente estagnado, com queda de 0,02%, enquanto o investimento empresarial recuou 1,2%.

O setor externo, por sua vez, contribuiu positivamente, favorecido pela redução das importações de energia e pela demanda americana por veículos híbridos, além dos investimentos globais em semicondutores e inteligência artificial. Apesar da desaceleração, o Banco do Japão continua pressionado a avançar no processo de normalização monetária para conter a fraqueza do iene, que permanece próximo das mínimas de quatro décadas.

O mercado ainda atribui elevada probabilidade a uma nova alta de juros em setembro, mas os dados mais fracos reforçam a necessidade de cautela: um aperto monetário mais acelerado pode contribuir para sustentar a moeda, porém também aumenta o risco de comprometer uma economia em que consumo e investimento já demonstram sinais de fragilidade.

Já na China, o início do terceiro trimestre também foi marcado por perda de fôlego, com produção, consumo e investimentos abaixo das expectativas. A produção industrial cresceu 4,5% em julho na comparação anual, desacelerando em relação aos 5,3% registrados em junho, enquanto as vendas no varejo avançaram apenas 0,6%, sinalizando a persistente fraqueza da demanda doméstica e a perda de impulso dos programas de subsídios ao consumo. O investimento em ativos fixos recuou 6,7% nos primeiros sete meses do ano, resultado pior do que o esperado e que se soma à fragilidade do setor imobiliário e à deterioração dos indicadores industriais.

A demanda externa e o ciclo global de investimentos ligados à inteligência artificial continuam sustentando uma parcela relevante da atividade manufatureira chinesa, mas ainda não são suficientes para compensar a fraqueza do mercado interno. As autoridades prometeram acelerar a execução orçamentária e adotar medidas adicionais de apoio, se necessário, mas, até o momento, não sinalizaram a implementação de um pacote amplo de estímulos.

Em conjunto, os dados de Japão e China reforçam uma mensagem semelhante para a Ásia: o crescimento permanece positivo em algumas frentes, mas está cada vez mais dependente das exportações, do investimento em tecnologia e do suporte das políticas públicas, enquanto a demanda doméstica continua vulnerável.

· 05:01 — Energia nuclear de volta ao centro da transição energética

O cenário energético global passa por uma transformação estrutural que vem recolocando a energia nuclear no centro das discussões sobre segurança energética e expansão da oferta de eletricidade. O crescimento acelerado da demanda de data centers e das aplicações de inteligência artificial exige fontes capazes de fornecer energia de maneira contínua, previsível e em grande escala, característica que favorece a geração nuclear em um sistema cada vez mais intensivo em eletricidade.

Ao mesmo tempo, anos de subinvestimento na mineração de urânio limitaram a expansão da oferta justamente em um momento em que diversos países retomam projetos nucleares, prolongam a vida útil de usinas existentes e anunciam a construção de novos reatores. Essa combinação tende a tornar o mercado de urânio mais apertado, na medida em que o crescimento da demanda pode superar a capacidade de resposta da produção no curto e médio prazo.

A tese também ganha força no contexto da agenda global de descarbonização. Por oferecer geração de baixa emissão de carbono e elevada disponibilidade, a energia nuclear vem sendo incorporada aos planos de transição energética de diferentes governos, inclusive por meio do desenvolvimento dos pequenos reatores modulares, os chamados SMRs, concebidos para reduzir custos e prazos de construção, além de ampliar a flexibilidade de implantação.

Com projeções indicando que a demanda por urânio pode dobrar até 2040, o setor tende a ocupar uma posição cada vez mais relevante na matriz energética global. Para o investidor, trata-se de uma tese de longo prazo sustentada não apenas pela transição climática, mas também pela necessidade crescente de garantir uma oferta firme e confiável de energia para uma economia cada vez mais eletrificada, digital e dependente de infraestrutura computacional.

Nesse contexto, instrumentos como os ETFs Sprott Uranium Miners ETF (URNM) e Global X Uranium ETF (URA), já recomendados neste espaço, continuam sendo alternativas relevantes para investidores que desejam se expor a essa tendência estrutural. No mercado brasileiro, o BDR BURA39 desempenha função semelhante ao oferecer acesso ao tema por meio da B3. Ainda assim, por se tratar de uma tese com elevada volatilidade e forte componente temático, entendemos que exposições mais moderadas, tipicamente de até 1% do portfólio, tendem a ser suficientes para capturar seu potencial sem comprometer o equilíbrio geral da carteira. Como sempre, permanecem válidos os princípios fundamentais de uma boa alocação: respeitar o perfil de risco, manter uma diversificação adequada e construir um portfólio capaz de atravessar diferentes ciclos de mercado com consistência e disciplina.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.