Retrospectiva 2016, sem Roberto Carlos

Em um país em que poupar não é um comportamento disseminado, quem pagaria por análise independente de ações?

Retrospectiva 2016, sem Roberto Carlos

De uma casa abandonada com direito à água até a canela em dias de chuva a uma laje no endereço mais nobre de São Paulo. Levada por jovens tão ousados quanto polêmicos, a Empiricus acaba de festejar sete anos da criação, no Brasil, de um segmento de mercado totalmente inexplorado. Em um país em que poupar não é um comportamento disseminado, quem pagaria por análise independente de ações?

Não foi fácil. Em uma fase que ficou conhecida na empresa como Mercado Livre, os sócios chegaram a vender os próprios computadores para pagar os funcionários, conta Caio Mesquita, hoje presidente da Empiricus.

Parte do sucesso veio com uma garota-propaganda às avessas: a presidente Dilma Rousseff. A recomendação de construir um portfólio à prova do fim do Brasil, embalada em um marketing focado no investidor de varejo, nunca visto no mercado financeiro, foi interpretada como propaganda política do oponente.

O processo da presidente foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas deu visibilidade aos acertos da equipe de análise. O documento cravava o dólar a 4 reais quando o mercado ainda o marcava a 2 reais.

“Um dia eles ainda vão errar”, disse um gestor de ações que preferiu não ser identificado. O estrategista-chefe, Felipe Miranda, não discorda. Ele insiste no Daily Pro, uma newsletter enviada aos 180.000 assinantes da casa religiosamente todas as manhãs, que nada sabe sobre o futuro. E costuma atribuir seus resultados à sorte.

A Carteira Empiricus, portfólio construído por Miranda, rende 61,97 por cento desde que foi criada, em março de 2014, até novembro deste ano, contra 39,15 por cento do CDI e 33,35 por cento do Ibovespa.

Na formação da equipe, hoje com 140 profissionais, difícil negar uma boa dose de sorte. Crescendo enquanto a maior parte do mercado encolhia, a Empiricus conseguiu atrair profissionais das mais conceituadas casas de análise do mercado, como Credit Suisse e Votorantim. E deu a eles liberdade. Neste ano, um deles intitulou sua coluna de “Fotos do peru do Obama”.

Toda a receita, que, segundo fontes, ultrapassa 200 milhões de reais ao ano, vem das assinaturas. A empresa não ganha com a compra e venda de ações, como as corretoras; não ganha com rebate, como os distribuidores de fundos.

O difícil foi encontrar um modelo de negócio que sustentasse e viabilizasse a análise independente para o varejo – não é à toa que o restante do mercado se concentra em consultoria para clientes de alto patrimônio.

Daí veio o “marketing agressivo”, nas palavras dos críticos do modelo. A fim de alertar para a queda de retorno dos fundos DI como consequência do novo ciclo de juros, a casa disparou um e-mail em novembro com o título Nota de falecimento. A brincadeira de mau gosto gerou dez e-mails com críticas ferrenhas. Uma desejava a morte do analista. Na mesma semana, 1.400 investidores compraram o relatório que ensinava a diversificar os investimentos para além do CDI.

Enquanto no private banking, as críticas a produtos ruins são sussurradas, os analistas da Empiricus precisam gritá-las para serem ouvidos por pessoas físicas de diferentes níveis de patrimônio. E, isso, claro, expõe a equipe.

Para cada mil e-mails diários de investidores apaixonados, chega uma jura de morte de um gerente de banco, um corretor de imóveis ou um agente autônomo. “É preciso ter costas largas”, diz Miranda, que tem no currículo a mesa de derivativos do Deutsche Bank e uma cadeira de professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Enquanto as críticas concentram-se no marketing, os relatórios robustos e as carteiras recomendadas rentáveis são respeitados no mercado e têm legiões de fiéis seguidores. A tal ponto que hoje a Empiricus discute internamente como lidar com as altas das ações ocasionadas pelo movimento de seus assinantes. No dia em que o analista Max Bohm recomendou Unicasa, a ação subiu 25 por cento. Os fluxos são externalidades positivas, que abrem as portas das empresas aos analistas de ações.

Como um adolescente, em que crescem primeiro os braços e depois o corpo, recentemente a empresa tomou como meta ter o melhor atendimento do mercado financeiro, sob as mãos fortes das sócias Beatriz Nantes e Olivia Alonso. Está aprimorando o treinamento dos atendentes. Outro dia almocei com um deles. Descobri que cresce na empresa o único telemarketing que sabe como montar estruturas em opções. Ops, escorreguei para a primeira pessoa…

Ufa, cansei de escrever este texto seguindo os moldes abandonados há seis meses. “Você tem certeza de que vai ser feliz aqui?”, me perguntou o Felipe em junho deste ano, dividido entre insistir para eu vir lançar o relatório de fundos e interromper uma carreira no que, sabia, era meu sonho. “Querido diário, resolvi ser jornalista”, escrevi em 30 de julho de 1996. Meu plano era escrever em um jornal de grande circulação. E assim se fez.

Felipe, o futuro é incognoscível – deveria ter respondido. Passei seis meses dizendo a ele que somente um desejo me faria querer voltar a ser repórter: escrever uma matéria sobre esse bicho tão diferente que é a Empiricus. Ele se cansou. Disse contrariado: “Faz, ué!”.

Escrevi um texto imparcial sobre a Empiricus? Claro que não. Olha que eu me esforcei, mas hoje eu faço parte. E, diga-se de passagem, estou muito feliz com isso. Não há fim de ano sem retrospectiva e amigo-oculto.

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