S01E13 – Da Lama ao Caos

nosso analista com cara de mau faz uma declaração de amor aos dinossauros e ao caos.

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S01E13 – Da Lama ao Caos

Em 1993, fui passar as férias na casa de um amigo, em Jundiaí, e me deparei com um livro de capa dura e escura, com uma imagem de um tiranossauro meio avermelhado – O Parque dos Dinossauros.

Eu, que sempre fui fissurado por dinos (meu sonho de pequeno era fazer Biologia e estudar evolução), comecei a ler e só parei alguns dias depois, quando virei a última de suas 473 páginas.

Sem dúvidas, a ideia de um parque repleto de brontossauros, raptores e tricerátopos, soltos por uma ilha, desmembrando pessoas inocentes me atraiu, e foi o que fez o livro virar uma febre nos cinemas mundiais.

Mas um personagem em particular moldou meu caráter muito mais do que qualquer dino sanguinário – um matemático cínico, pessimista e com pinta de rockstar, sempre vestido de preto. No livro, Ian Malcolm descreve com detalhes a teoria do caos e a imprevisibilidade de sistemas complexos.

Basicamente, a ideia proposta pelo rebelde dos números é: “não é possível entender e controlar o mundo”.

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Em sistemas caóticos, é impossível prever o comportamento de todas as variáveis, não dá para saber como as pessoas, animais, clima e tudo mais se comportará. O mundo é imprevisível e, por isso, inexplicável.

O controle é apenas uma ilusão.

Nos enganamos para ter uma falsa sensação de segurança, estabilidade. É mais fácil pensar que nosso destino depende de nós mesmos do que assumir que  somos uma coleção de eventos aleatórios.

Até hoje, os cientistas não conseguem explicar o voo da abelha ou prever o comportamento dos ventos – empiricamente, as pinceladas de Van Gogh em A Noite Estrelada têm muito mais a dizer sobre turbulências do que qualquer super computador da NASA.

O mercado financeiro é um exemplo clássico de sistema complexo/caótico. Até hoje não se desenvolveu nenhum modelo capaz de prever o comportamento dos mercados – ninguém sabe direito como os agentes reagirão às notícias e como cada movimento impactará a próxima rodada.

Quem tentar dizer o que vai acontecer em 2017 fatalmente estará errado.

E é com esse ceticismo que devemos acompanhar as previsões dos “especialistas”.

Anualmente, as principais casas de análise fazem pesquisas com seus clientes para saber quais ações serão destaque no ano seguinte. Em 2015, das cinco ações mais votadas (Itaú, Cielo, Ambev, JBS e BRF) em pesquisa feita pelo JP Morgan, apenas o Itaú superou o índice.

As demais perderam, e feio, para o iBovespa: uma carteira composta por esses cinco nomes teria rendido 6,4 por cento em 2016, contra 39 por cento do principal índice da Bolsa.

Certamente, os ganhos astronômicos de MGLU3 (mais de 500 por cento), ELET3 (296 por cento) e SAPR4 (269 por cento) não eram unanimidade ao fim de 2015, e imagino que os principais ganhos de 2017 não apareceram em muitas listas de previsões recentes.

Justiça seja feita, Max capturou boa parte da alta de mais de 140 por cento de SEER3, mas, com certeza, o call não era consensual.

É natural que tenhamos essa ilusão de que podemos compreender os drivers do mercado – tudo à nossa volta nos incentiva a tentar entender e explicar o mundo.

Até os melhores dos melhores caem na armadilha do controle.

Luis Stuhlberger é o maior gestor brasileiro de todos os tempos. Responsável pela criação e gestão do Verde, tem entregado resultados positivos e consistentes nos últimos 20 anos – no período, o fundo entregou quase 14 mil por cento de rentabilidade!!!

Se são poucos os gestores que acertam por dois anos seguidos, que dirá por duas décadas?

Em uma de suas cartas de 2015, ele comenta como, apesar da disputa acirrada, seu entendimento de que as eleições de 2014 terminariam com a vitória de Dilma estava correto e que, assim, sua posição comprada em dólar foi vencedora (2015 foi um ano espetacular para os cotistas do Verde – quase 30 por cento de valorização nas cotas).

Do alto de minha mediocridade, discordo.

O resultado das eleições de 2014 era absolutamente imprevisível.

Prever esse tipo de resultado, assim como o Brexit, a eleição de Trump, a quebra do Lehman Brothers, e até a magnitude do corte de juros é impossível e, em certo ponto, contraproducente.

A verdade é que não se deve tentar prever o imprevisível (por definição, não dá!), o negócio é se preparar para quaisquer cenários e capturar ganhos extraordinários na materialização de alguns.

A posição comprada em dólar do Verde ao fim de 2014 era correta não porque o resultado das eleições era sabido, mas por questão de assimetria. Havia pouco espaço (quase nenhum, na verdade) para uma apreciação significativa do Real e muito espaço para sua depreciação no longo prazo.

Stulhberger acertou a posição e seus cotistas agradecem, mas, a explicação tem muito mais a ver com a antifragilidade do que com capacidade preditiva.

E como agir em um mundo caótico?

Bem, o primeiro conselho é não construir um parque com animais extintos. Não deu certo pro John Hammond (spoiler, ele morre no livro) e não vai dar certo para você.

Em segundo lugar, aceite sua condição passiva. Já que boa parte de seus sucessos e fracassos se devem ao acaso, é até libertador saber que nem tudo é “culpa” sua. Mais do que isso, ouça aquela dica “certeira” para 2017 com bastante ceticismo.

Em terceiro lugar, monte portfólios versáteis, capazes de capturar ganhos em cenários extremos, mas pouco dependentes de uma (ou mais) variável imprevisível.

Por que apostar tudo em Vale se quem determina o preço do minério é a associação de taxistas chineses?

Se quiser entender mais do assunto e receber recomendações de carteiras “versáteis”, recomendo conversar com o Felipe. Ele entende uma ou duas coisas de estratégias antifrágeis.

Se é loucura tentar prever o mundo, é burrice não se preparar para o imprevisível.

 

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