Prisão de Esteves levanta questão: como fica liquidez do BTG?

Horas após a prisão do presidente do conselho e CEO do BTG Pactual André Esteves, na quarta-feira, as ações do banco caíam 39 por cento e os bonds, 20 por cento.

Por Filipe Pacheco, Cristiane Lucchesi e Paula Sambo.

Horas após a prisão do presidente do conselho e CEO do BTG Pactual André Esteves, na quarta-feira, as ações do banco caíam 39 por cento e os bonds, 20 por cento.

O raciocínio por trás desse pânico inicial foi este: sem Esteves, o bilionário executivo considerado por muitos um dos banqueiros mais talentosos do Brasil, os credores do BTG poderiam tentar escapar . E com apenas 23 por cento de seus financiamentos feitos por meio de ações ou dívidas de longo prazo, alguns investidores temem que uma grande parcela do dinheiro possa desaparecer rapidamente e afundar a empresa em uma crise de liquidez paralisante.

“O que mata os bancos são as corridas e pessoas movimentando seu dinheiro muito rapidamente”, disse Ray Zucaro, CEO da RVX Asset Management. “A liquidez pode secar da noite para o dia, por isso, sim, trata-se de uma preocupação real”.

Ocorrências como essa são extremamente raras entre grandes bancos e as ações do BTG posteriormente recuperaram boa parte da queda. Um executivo do BTG, que pediu anonimato por falar sobre operações internas, disse que apesar de o banco ter tido alguns saques de investidores, eles representaram menos de 1 por cento do total de ativos. O banco também está preservando uma posição de caixa forte para garantir a liquidez, disse a fonte.

Contudo, a situação representa um desafio de tirar o fôlego para uma empresa ambiciosa cujo principal executivo notoriamente brincava que BTG queria dizer “better than Goldman” (“melhor que o Goldman [Sachs]”) e mostra que o escândalo de corrupção que sacudiu a elite política e empresarial do Brasil e paralisou a economia está longe do fim. A empresa de consultoria de risco político Eurasia Group diz que a prisão de Esteves sob a suspeita de ter tentado interferir no depoimento de um ex-executivo preso da gigante Petrobras controlada pelo Estado levanta pela primeira vez a “séria perspectiva de contágio do setor financeiro”.

Nega irregularidades

Esteves, por meio de seu advogado, negou qualquer irregularidade. O BTG Pactual disse, em um comunicado enviado por e-mail, que está cooperando com a investigação e que está disposto a explicar o que for necessário às autoridades.

O BTG depende de empréstimos para financiar quase 93 por cento de seu balanço de R$ 302,8 bilhões (US$ 80,8 bilhões), segundo comunicados financeiros do terceiro trimestre divulgados no site da empresa. O patrimônio total dos acionistas representava apenas R$ 22 bilhões desse total, o que torna o preço dos empréstimos um fator-chave.

Após a queda de quarta-feira, os eurobônus de referência de cinco anos do BTG tinham um rendimento de 12,3 por cento, nível que os coloca em linha com os emissores de grau especulativo. É quase o dobro do rendimento do dia anterior, quando as notas eram negociadas 3 pontos percentuais abaixo da média para as dívidas corporativas brasileiras. No fechamento do mercado, na quarta-feira, a ação havia se recuperado e fechado em baixa de 21 por cento, enquanto o preço do eurobônus de vencimento em 2020 caía 18 por cento.

“A imagem do banco foi ferida”, disse Max Bohm, analista da empresa de consultoria Empiricus Research, com sede em São Paulo. Ele disse temer que os clientes possam estar retirando seu dinheiro do banco.

O BTG está “operando normalmente nos mercados”, disse um interlocutor do Banco Central do Brasil, por e-mail. As autoridades do BC estão monitorando o impacto da prisão sobre o banco e pedindo informações adicionais, o BC disse.

Pelo menos um terço dos passivos do banco são obrigações de curto prazo. Quase R$ 74 bilhões estão na forma de depósitos à vista, que podem ser sacados em 90 dias ou menos. O restante são operações compromissadas, conhecidas em inglês como repos, um tipo de financiamento no mercado interbancário que utiliza títulos do governo como garantia.

A empresa também possuía R$ 40,9 bilhões em caixa e equivalentes de caixa em 30 de setembro, mais que os R$ 10,3 bilhões do trimestre anterior, mostram os comunicados financeiros.

Credibilidade ‘chave’

Apesar de o Ministério Público não ter divulgado os detalhes sobre por que Esteves e um importante político, que também foi preso na quarta-feira, teriam querido pressionar a testemunha, o BTG se envolveu em vários negócios ao longo dos anos com a Petrobras, a produtora de petróleo controlada pelo Estado que está no centro do abrangente esquema de subornos. O investimento mais notável é a Sete Brasil Participações, a atribulada fornecedora de sondas que também está envolvida no escândalo.

Apesar de o BTG quase ter dobrado seu lucro no terceiro trimestre, para R$ 1,51 bilhão, sua área de private equity registrou um prejuízo de R$ 448 milhões devido principalmente a provisões em investimentos feitos no setor de petróleo e gás. O relatório de lucros de 5 de novembro da empresa não dá detalhes sobre esses prejuízos. A empresa tem participações também na Brasil Pharma e no Banco Pan, cujas ações caíram 90 e 36 por cento, respectivamente, nos últimos 12 meses.

“Credibilidade é a palavra-chave para eles”, disse Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora de Câmbio em São Paulo. Embora o banco tenha uma posição de caixa que oferece um colchão, “a pior coisa que poderia acontecer é as pessoas sacarem dinheiro de repente”.

Fonte: Bloomberg

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