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Bolas de cristal desempoeiradas

No ensino médio, eu tinha um amigo que se parecia bem pouco comigo. Enquanto eu era nerd e minha principal preocupação era estudar, Pedro só […]

Bolas de cristal desempoeiradas

No ensino médio, eu tinha um amigo que se parecia bem pouco comigo. Enquanto eu era nerd e minha principal preocupação era estudar, Pedro só queria saber de jogar basquete, colar nas provas e conseguir fugir dos castigos da mãe.

Mesmo assim, nos dávamos muito bem porque jogávamos juntos no time da escola e… bem, também fazíamos juntos as provas.

Só que, com a proximidade do vestibular, tanto eu como ele sabíamos que André e Pedro nunca ficariam na mesma sala no dia D, por uma questão de ordem alfabética.

Então ele decidiu experimentar sentar a bunda na cadeira e começar a estudar pra valer.

Nessa mesma época de mudança de vida para Pedro, lembro que nosso professor de biologia tinha uma frase bem pensada para incentivar a turma naquele ano decisivo.

“Rapaziada, pra passar esse ano, vocês precisam estudar e ter fé, só isso. Só estudar não basta e só ter fé também não. Vocês precisam dos dois juntos.”

Ele fazia essa declaração com um tom descontraído em quase toda aula e Pedro sempre pensava que estava no caminho certo.

Mas meu amigo passou a abandonar uma parte da premissa do nosso professor. Do meio para o final do ano de 2008, Pedro começou a ter só fé.

A fase de aluno aplicado durou pouco mais de quatro meses. Nos demais meses do ano, ele voltou a ser o mesmo Pedro de sempre.

 

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Assim como meu amigo abandonou a parte racional da premissa para se apegar apenas ao esotérico, alguns gurus do mercado mundial de cripto também o fazem.

Apenas com uma pequena alta de 17 por cento desde o último fundo do bitcoin, o mercado já começa a tirar a poeira das suas bolas de cristal para castigar a mídia especializada.

Aqueles com mais certeza e com as previsões mais absurdas ganham sempre as manchetes mais relevantes.

Afinal, ninguém quer dar voz a quem está meio certo, cheio de dúvidas ou com mais perguntas do que respostas.

“Eu acho que…” vale muito menos que “eu estou convencido e convicto de que…”.

E nesse mar de certezas de figuras duvidosas, quem compra esse tipo de ideia são os que mais sofrem.

Porque, mesmo transparecendo teses certas, eles têm suas dúvidas e é por elas que vão mudando o seu direcionamento ao longo do caminho.

Já quem os ouviu não consegue captar nada sobre suas incertezas e segue confiante na tese de olhos fechados.

Dessa forma, a sua melhor defesa é duvidar de tudo, mas principalmente daqueles que vivem de certezas.

Aquele abraço,