No fim, é tudo sobre política

Enquanto a aprovação, ou não, do pedido da CBOE não chega, o mercado vai digerindo o movimento de alta recente, corrigindo parte dos ganhos.

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No fim, é tudo sobre política

Se você está neste mercado há pelo menos algumas semanas, já percebeu que o fluxo de informações é enorme.

Já parou para pensar que nosso mercado opera por um tempo três vezes maior do que o da Bolsa?

Pois é.

Nesse turbilhão de cada dia, vamos pescando aquilo que mais interessa para nossas decisões de investimento.

Foi em um desses momentos que parei para ler uma notícia que me chamou a atenção. O banco BBVA, ao tentar inovar, se deparou com uma situação, no mínimo, irônica.

O banco buscava realizar o que seria o terceiro empréstimo corporativo em uma série baseada em blockchain.

A ideia é simples: a instituição usaria o blockchain privado da Hyperledger para negociar o empréstimo e o blockchain público do Ethereum para armazenar os termos do acordo, de forma que o contrato fosse auditável.

A proposta em si é muito interessante e mostra como blockchains privados e públicos podem ser usados em conjunto.

Em especial, destaco a usabilidade do Ethereum como plataforma de contratos inteligentes que, por ser público, permite que as informações sejam verificadas. Mas esse é um papo para outro dia…

O ponto que quero trazer é o seguinte: para que o BBVA pudesse registrar os termos do empréstimo no blockchain do Ethereum, precisaria possuir e utilizar seu token nativo — o ether (ETH) — para pagar pelo uso da rede.

E é bem aí que mora o problema.

Sendo um banco, a instituição deve seguir uma série de definições regulatórias do setor. E, então, entra para a história outra personagem, a European Banking Authority (EBA).

A EBA “recomenda” que bancos não possuam ou utilizem criptoativos como o ether.

Ou seja, o banco ficou impossibilitado de utilizar o blockchain do Ethereum e foi forçado a usar sua versão de teste (chamada Testnet), na qual, em português claro, as moedas são de mentirinha.

É como se o BBVA tivesse realizado o empréstimo, mas assinado o contrato a lápis com a mão esquerda — considerando que quem assinaria é destro… Ah, você entendeu, né?

Apesar de não haver uma proibição oficial da EBA para a posse de cripto por parte dos bancos europeus, há claramente um desencorajamento. A potencial inovação fica travada por uma questão pseudorregulatória.

No fim, boa parte dos avanços na implementação da tecnologia dos criptoativos hoje depende do avanço regulatório.

Se, no caso de Brasil, estamos diariamente falando de política, buscando entender o que vai acontecer nas próximas eleições, no mercado cripto, estamos em uma situação parecida.

Nos últimos meses, boa parte dos nossos dias aqui na Empiricus tem se resumido em investigar e entender como a questão regulatória e, portanto, política, avançará e como isso afetará o mercado.

E aí chegamos ao tema desta semana, da semana passada e da semana anterior: a possível aprovação de um ETF de bitcoin pela SEC (a CVM americana).

Mais uma vez, caímos na esfera política, de como os membros da comissão americana tomarão suas decisões em relação aos pedidos de criação de instrumentos de investimento que circulam por lá.

Tenho, pessoalmente, me debruçado no caso do ETF proposto pela CBOE (Chicago Board Options Exchange), que hoje já negocia contratos futuros de bitcoin.

O pedido da instituição chega ao mercado no mesmo momento em que o segundo pedido de criação de ETF, feito pelos gêmeos Winklevoss (aqueles do Facebook, sabe?), foi negado e a votação de uma proposta da NYSE Arca foi adiada.

O mercado tem se concentrado na possibilidade de o ETF da CBOE ser aprovado já neste mês — o primeiro parecer da SEC deve sair no dia 16 de agosto — sob a alegação de que há mais peso nessa solicitação e, possivelmente, maiores chances de sucesso.

Na verdade, desde que o pedido foi feito, notícias otimistas correm soltas, alimentando o otimismo — ou melhor, a esperança — do mercado, ajudando a empurrar os preços para cima.

Mas, nessa expectativa toda, me pergunto se os sites de notícias foram realmente a fundo investigar essa proposta de ETF e por que ela seria diferente das que já foram negadas.

Foi exatamente nisso que me concentrei nos últimos dias. Na verdade, estou  terminando de reunir material para as publicações que traremos sobre o assunto no Empiricus Crypto Alert e Exponential Coins, em que também falaremos aos nossos assinantes como se comportar nos diferentes cenários que podem surgir daí.

O que tenho visto, até o momento, são dois pontos principais:

1) A preocupação da SEC com a manipulação do mercado de bitcoin e como isso pode impactar o investidor que, eventualmente, possuir um ETF;

2) As questões ligadas à custódia do ativo-base e avaliação de valor do fundo.

Há particularidades interessantes na proposta da CBOE que podem fazer com que “dessa vez seja diferente” mas, ao mesmo tempo, há preocupações latentes da SEC com a maturidade, segurança e regulação do mercado que me levam a acreditar que o jogo ainda não está ganho para a aprovação do tão sonhado ETF de bitcoin.

A verdade é: ainda não sabemos — pra variar um pouquinho, ninguém sabe — o que vai, exatamente, acontecer.

Ou seja, é preciso ter cautela e olhar crítico em relação ao otimismo gerado pelas notícias em torno desse assunto (inclusive checar o que é fake news e o que não é) e, paralelamente, ficar atento aos desdobramentos dessa novela para se posicionar adequadamente.

Enquanto a aprovação, ou não, do pedido da CBOE não chega, o mercado vai digerindo o movimento de alta recente, corrigindo parte dos ganhos.

A ver o que os próximos dias reservam.