Voltando à essência

Recentemente, tirei da prateleira um livro que havia comprado, mas nunca lido: “De Zero a Um”, escrito por Peter Thiel, cofundador do PayPal. Trata-se de […]

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Voltando à essência

Recentemente, tirei da prateleira um livro que havia comprado, mas nunca lido: “De Zero a Um”, escrito por Peter Thiel, cofundador do PayPal.

Trata-se de uma obra indispensável para quem empreende, deseja empreender ou apenas quer ler mais sobre empreendedorismo.

Enquanto lia o livro, pelo menos uma vez a cada capítulo, eu parava e pensava: “Caramba, isso aqui se aplica às criptos”. De fato, há muita ligação entre as ideias de Thiel e o ecossistema dos criptoativos, uma vez que, em ambos os casos, estamos falando de tecnologia.

Um trecho, em especial, me fez fechar o livro e vir para o computador escrever esta newsletter. Thiel inicia o texto da página 51 com uma comparação entre o “The New York Times” e o Twitter.

Em 2013, quando o Twitter realizou seu IPO, sua avaliação de mercado era de 24 bilhões de dólares, somando mais de 12 vezes (!) o valor de mercado do NYT. Isso parecia contraditório para avaliadores tradicionais, uma vez que o jornal lucrara 133 milhões de dólares, em 2012, ao passo que a rede social reportara prejuízo.

Onde estava o erro?

Bem, para quem estava inserido no mercado de tecnologia, não parecia haver erro algum. A resposta, como Thiel pontua, está no fluxo de caixa.

Veja, o NYT é uma empresa de imprensa tradicional, que vende jornal. Já o Twitter, uma empresa de microblogging que possui fontes de renda alternativas à monetização de seu conteúdo.

Naquele ano do IPO do Twitter, um investidor que estava aportando seu dinheiro na companhia, ao olhar para o futuro, enxergava que o processo natural seria os fluxos de caixa do NYT diminuírem, fruto da deterioração de um modelo tradicional ameaçado pela tecnologia, enquanto a receita do Twitter deveria aumentar.

Basicamente, estamos comparando uma empresa de baixo crescimento futuro (“The New York Times”) com uma de alto (Twitter). Seus fluxos de caixa, naturalmente, tendem a seguir direções opostas: diminuição no primeiro caso e aumento, no segundo.

O Twitter mostra a essência de empresas de tecnologia: elas começam perdendo dinheiro, para, então, se seu modelo vingar, apresentarem resultados positivos.

Não só isso, quando sua receita começa a aumentar, ela não o faz a passos incrementais. São normalmente saltos de 100% (ou mais) a cada ano.

Isso tudo porque desenvolver tecnologias novas leva tempo, mas, quando acontece, o efeito positivo vem a galope.

Se o Bitcoin fosse uma empresa, é dessa forma que eu o avaliaria. Esperaria, no início, fluxos de caixa negativos, enquanto a tecnologia é desenvolvida e conquista sua rede. Então, alguns anos depois – a maioria das empresas de tecnologia leva cerca de dez anos para, de fato, entregar resultados positivos – boom!

Na verdade, já o olho dessa forma. Não só o Bitcoin como outros protocolos importantes e sólidos do mercado. A única diferença é que a avaliação de fluxo de caixa dá espaço à pesquisa de dados da rede.

O Bitcoin não tem CNPJ nem sócio-fundador, mas pode ser entendido como uma startup de tecnologia que vem desenvolvendo seu “negócio” ano após ano e, apesar de não ter atingido ainda a adoção em massa que se espera, vem apresentando crescimento exponencial – de usuários e de valor transacionado.

Chamo atenção para o fato de que o protocolo tem quase dez anos e, se tem um grande mérito, é o de ter rodado, ininterruptamente, até hoje. Não sei para você, mas, para mim, parece que o ciclo inicial de maturação foi bem aproveitado e poderemos ver o Bitcoin entregar “fluxos de caixa positivos” cada vez maiores nos próximos anos.

Enquanto isso, os megaconservadores do mercado vão desacreditar e se agarrar ao status quo. Mas as coisas mudam. Elas sempre mudam.

Em 1999, Bruce Smith, então analista da Jefferies & Co., foi entrevistado pelo programa “60 Minutes” e perguntado sobre o que achava do fato de a Amazon ter valor de mercado 20% maior do que da Sears, líder de varejo na época.

Smith disse que entendia que a Amazon poderia tomar a posição da Sears, pois estava “preparada para o futuro”.

O apresentador, em tom de deboche, perguntou algo como: “Você acha que alguns nerds, que desenharam um software, podem derrubar a Sears?”.

“Essa é a beleza da tecnologia”, foi a resposta de Smith.

Não preciso nem dizer o que aconteceu depois, não é mesmo?

Acredito que o ecossistema cripto guarda inúmeras relações com o mercado de tecnologia à época do boom das pontocom. Muita coisa surgiu, poucas realmente valiosas. No entanto, as que tinham algo para entregar voaram nos anos seguintes.

Bitcoin, Ethereum e mais alguns protocolos “gordos” – que são capazes de fornecer a base tecnológica para novas aplicações – são os paralelos de Amazon, Google, Microsoft, entre outras.

Este ano tem sido desafiador para os ativos, com a maioria pelo menos 70% abaixo da máxima registrada entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018. Lembre-se, porém, que mesmo a Amazon chegou a derreter 95% após seu IPO.

Enfim, em momentos como este que estamos passando agora, de vermelho na tela do computador, eu volto aos fundamentos desse mercado, à essência dos principais protocolos cripto e ao que os trouxe até aqui.

O mercado cripto acorda com humor um pouco melhor, após queda livre nos últimos dois dias. Em especial, o bitcoin tem se mostrado resiliente em relação às demais altcoins, brigando para se manter acima dos 6 mil dólares.

Como consequência, o market cap agregado volta a ficar acima de 200 bilhões de dólares e dominância do bitcoin já passa dos 53%.