Diversificar é palavra de ordem nos investimentos e na Parada da Mamãe

Você há de concordar que 213 anos é muita coisa. Tempo suficiente para mudar o destino da humanidade. É a Guerra dos Cem Anos (entre […]

Você há de concordar que 213 anos é muita coisa. Tempo suficiente para mudar o destino da humanidade. É a Guerra dos Cem Anos (entre França e Inglaterra) em dose dupla. Eu fazia esse cálculo quando nos ajeitamos naquele degrau, um camarote de luxo ao lado do cemitério da Consolação, em São Paulo — última morada de dezenas de intelectuais, artistas e políticos brasileiros. Ali, Tarsila do Amaral é vizinha do maestro Marcelo Tupinambá; Mario de Andrade divide a quadra com Monteiro Lobato. Apesar da minha divagação, chegamos no horário planejado. Mas não sem esforço. Claro que você entende que levar mais de “dois séculos” ladeira acima pesa. Dá trabalho. Éramos três, carregando nossos inventários. Eu com os meus 63 anos, minha mãe, Maria José, com seus 80, e sua vizinha, também Angela, com 70.

Posando de anfitriã, Maria José cuidava da minha xará, uma senhorinha sorridente e de pesado sotaque português que faz a minha mãe sentir-se em casa. Cada uma em seu lugar, conseguimos acompanhar o Canibal, o Turbulence, o Tremendão, o Sol Nascente e o Amstel Lager — cerveja patrocinadora do carro de som tão cintilante quanto o sol no domingo passado. A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo — em sua 23ª edição neste ano — é um evento que move a minha família. Quem não comparece participa indiretamente da estratégica jornada. Ladeira acima.

“Neste ano, a Parada começou mais cedo. Perdemos a maioria dos trios elétricos”, reclamou a minha mãe, interrompida aos solavancos pela vizinha: “Neste ano são 19… Será que o Bruno veio?”. Estranhei a intimidade e, reconheço, levei longos minutos para entender que “Bruno” era Bruno Covas, o prefeito da cidade de São Paulo. “Acho que o Doria não veio. Mas ele foi à Parada para Jesus, na quinta. Foi bonito!” Novamente, a Angela vizinha dava seu testemunho sem sequer perceber que desviara Jesus de sua Marcha para a Parada da mamãe. Naquele momento (juro) pensei que até o fim da tarde algo daria (muito) errado. Mas errada estava eu! Único “incidente” registrado: a resistência da dupla veterana em voltar para casa.

A Parada LGBT, que traz quase 300 milhões de reais de receita à cidade de São Paulo, encantou novamente a minha mãe e um sem-número de crianças que zanzavam com seus pais entre a Paulista e a Consolação, defendendo em elevados decibéis o princípio da diversidade. Com essa lembrança assisti na segunda-feira cedinho a um vídeo da Carteira Empiricus em que os meus colegas João Piccioni e Fernando Ferrer — dois engenheiros e especialistas em Finanças — esclareciam dúvidas de assinantes e citavam possíveis razões interna e externa que inibem a expectativa de aumento das taxas de juros. Ou, melhor, concorrem para sua queda. A razão interna é a agenda positiva, iniciando com a aprovação da reforma da Previdência; a razão externa é o fato de estarmos convivendo em um mundo sem inflação e sem juros, efeito provocado por maior concentração de capital, além de questões demográficas e tecnológicas.

Portfólio balanceado

No balanço preliminar do desempenho da Carteira no primeiro semestre do ano, o João e o Fernando lembraram que os títulos do Tesouro com vencimento em 2035 garantiram um retorno de 26 por cento, perdendo apenas para o book de Ações, que rendeu 29 por cento no período. Eu me surpreendi com esses ganhos ao mesmo tempo em que a Carteira Empiricus me pareceu bem democrática. Afinal, as maiores taxas foram asseguradas por ativos classificados em campos opostos no mercado financeiro: renda fixa e renda variável.

Entendi, depois, que esses ativos não estão em campos tão opostos assim… e que compõem um portfólio balanceado, regido por uma diversificação bem estruturada e que pode trazer excelentes resultados.

João Piccioni, Fernando Ferrer e Felipe Miranda, CEO da Empiricus, são os editores da carteira teórica. O resultado até aqui (154% do DI desde a sua criação em 2014) é formidável, melhor até do que muitos multimercados top da indústria de fundos brasileira. A minha colega Luciana Seabra deve saber melhor do que eu, mas estamos brigando com os melhores e isso está ao alcance de qualquer um.

A Carteira Empiricus tem quase 50 por cento em Renda Fixa, mais de um quarto em Ações e o restante em Fundos Imobiliários, Dólar, Ouro e Opções.

Essa composição diversificada em sete books — cada um com uma finalidade e orquestrados para compensar turbulências ou volatilidade — mostra-se eficiente em cenários de crise ou não.

Tal qual Ray Dalio, o gestor do maior hedge fund global e sua estratégia de All Weather Portfolio, a Carteira Empiricus se propõe a navegar por todos os tipos de mares. Essa característica lhe conferiu resultados surpreendentes ao longo do tempo, sem deixar o investidor de cabelo em pé em situações extraordinárias, como o Joesley Day ou a greve dos caminhoneiros.

Books: funções e orquestração

A seguir, detalho cada book e seu propósito:

O book de Renda Fixa, responsável pela maior parcela de patrimônio da carteira teórica, funciona como uma trava de segurança que controla ou mitiga o risco das outras posições. Aqui, os investimentos contemplam preferencialmente títulos públicos.

O book de Ações é crucial para que se alcance retornos de longo prazo superiores ao CDI. Nesse book estão as grandes oportunidades de multiplicação de capital. E ele comporta ações de empresas de vários tamanhos e diferentes setores de atuação. Uma segmentação do book de Ações foi feita para facilitar sua montagem.

O book Tático, por sua vez, é um braço do book de ações e seu foco é a apropriação de ganhos financeiros gerados por diversos eventos e não necessariamente ligados a uma tese clássica de investimentos. Um bom exemplo de evento fora da curva são as mudanças societárias das empresas que podem alterar (em muito) os preços das ações, a despeito das condições de mercado e/ou condições operacionais da companhia.

Já o book de Fundos Imobiliários tem um duplo papel — proporciona ao investidor exposição ao setor imobiliário, sem necessariamente ter imóveis físicos, e garante um fluxo mensal de entrada de recursos para geração de renda e/ou para o rebalanceamento do portfólio.

Três dos sete books que compõem a Carteira Empiricusfuncionam como proteção: Dólar, Ouro e Opções.

O book de Dólar faz a interconexão de todos os ativos que compõem a carteira teórica. Por ser moeda forte, o dólar será instrumento de proteção em alguns momentos e, em outros, será uma fonte de lucro.

O book de Ouro é um mecanismo de proteção global contra eventos inesperados.

E o book de Opções proporciona ganhos assimétricos com as oscilações de mercado. João, Fernando e Felipe costumam utilizar esse book para dois fins distintos: ganho de capital ou proteção, a depender do instrumento utilizado. Embora sugiram a utilização de um percentual pequeno para esse book, ele é de suma importância para a montagem da estratégia, que foi inspirada no Tail Hedging de Mark Spitznagel, sócio de Nassim Taleb.

Resposta dos ativos

A diversificação característica da Carteira Empiricus considera o fato de que os ativos financeiros respondem de maneira e em velocidades diferentes a eventos que escapam (quase sempre) ao controle dos mercados.

Externos e locais, econômicos, políticos e até sociais são os eventos que provocam oscilações nos preços dos ativos financeiros. Alguns deles — de caráter imperativo neste momento — são excesso de liquidez (global e local), desaceleração da atividade e inflação baixa. A soma desses três eventos prescreve o corte das taxas de juros.

Se, de um lado, essa combinação passa a reger as políticas monetária, cambial e de crédito dos bancos centrais, de outro essa combinação também se aplica à rotina dos investidores que vivem à caça de aplicações com retornos mais atraentes. E, nesse contexto, juro menor é um incentivo à compra de ações em qualquer idioma.

Mas a migração de recursos raramente ocorre sem aumento de volatilidade nos preços dos ativos, sejam eles de renda fixa, sejam de renda variável.

Neste momento, independentemente de sua classificação, os ativos, aqui e lá fora, estão particularmente influenciados por expectativas quanto à votação da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara, que poderá (ou não) incluir governos estaduais porque até esta manhã não há definição; o início do ciclo de corte da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central que poderá somar 150 pontos-base, como antecipa o mercado; a intensidade com que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) cortará sua taxa básica, movimento dado como certo; e a retomada das negociações para um acordo entre EUA e China quanto às relações comerciais, que deverá voltar à discussão a partir desta sexta-feira, na reunião do G20, quando Donald Trump e Xi Jinping deverão se encontrar.

E os efeitos que a busca por retorno maior produz nos preços dos ativos vêm de todos os lados. As Bolsas americanas renovam recordes, a disputa por títulos do Tesouro americano — os de maior liquidez no planeta — valoriza preços e torna-se um poderoso indutor da queda dos juros. Não é à toa que os juros de dez anos, nos EUA, caíram a níveis históricos, abaixo de 2 por cento, nos últimos dias. A Bolsa brasileira, que alcançou inéditos 100 mil pontos em março e deslizou, na semana passada (três meses depois), retomou a pontuação recorde. Ontem, o Ibovespa fechou aos 100.689 pontos.

Obviamente, retorno passado não é garantia de retorno futuro. Mas a estratégia montada e o desempenho reportado até aqui nos dão uma sensação de que os bons ventos continuarão soprando a favor da Carteira Empiricus. Conheça aqui a estratégia da série.

No mercado financeiro, a agenda lotada sugere mais um dia de cautela. A sessão da comissão especial da Câmara, que previa a leitura do relatório final da reforma da Previdência, foi cancelada à espera de um acordo entre os governadores e Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Casa, para inclusão da Previdência de Estados e municípios na reforma federal. O atraso na leitura desagrada, mas não chega a surpreender. No final da manhã, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, comentará o Relatório Trimestral de Inflação do segundo trimestre, já disponível no site da instituição.

No fim da tarde, o Conselho Monetário Nacional (CMN) deve confirmar a meta de inflação de 2021, de 3,75 por cento, e anunciar a de 2022, provavelmente, de 3,5 por cento. Os EUA anunciam o PIB do segundo trimestre. E, no Japão, começa a cúpula do G20 — Donald Trump e Xi Jinping estão no centro das atenções.

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