Em busca do tempo perdido

“Se sonhar um pouco é perigoso,  a solução não é sonhar menos,  é sonhar mais.” Marcel Proust Parabéns, vocês conseguiram! A informação trazida por reportagem […]

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Em busca do tempo perdido

“Se sonhar um pouco é perigoso, 
a solução não é sonhar menos, 
é sonhar mais.”
Marcel Proust

Parabéns, vocês conseguiram!

A informação trazida por reportagem do Valor ao final da semana passada é resultado de pesquisa feita pela Anbima, quantificada pelo Datafolha: o gerente do banco é, disparado, o maior “aconselhador” financeiro do Brasil. Segundo o levantamento, 41 por cento daqueles que aplicam em algum produto financeiro frequentam a agência bancária para buscar informações sobre a sua carteira.

Não quero aqui alçar-me à categoria de um provocador. Pra mim, só há um verdadeiro provocateur brasileiro, que é o Diogo Mainardi. O resto é tentativa, autopromoção barata atrás de polêmica para aparecer. Tática conhecida.

O Diogo é diferente. Há, ali, verdadeira erudição, inteligência, perspicácia e certo desprezo pelo pensamento pasteurizado e ditado pelas instituições estabelecidas, sem preocupação com reputação, que serve apenas aos escravos. Como são preciosas as pessoas que pensam com a própria cabeça. É da minha admiração genuína pelo Diogo que resultou nossa sociedade com O Antagonista e com a Crusoé.

Ressalva feita, peço hoje licença para o real público-alvo desta newsletter, que é o investidor pessoa física brasileiro. Desculpo-me com ele por uma causa nobre.

Se desvio a mira do ouvinte típico e a aponto em outra direção, é simplesmente por acreditar numa espécie de “efeito bumerangue”. Ao jogar luz sobre o problema, talvez possa, mesmo sabendo de minha insignificância, fazer voltar ao investidor comum benefícios de um projétil atirado contra outro alvo.

Nesta segunda-feira, deixo apenas provocações, sem respostas. Destino-as à imprensa, à Apimec, à CVM, aos autoproclamados concorrentes e aos haters do submundo em geral.

O que vocês pensam do fato de o gerente do banco ser o maior guia financeiro do Brasil?

O que vocês já fizeram, na prática, com resultados tangíveis, para mudar essa realidade?

Tudo bem se não realizaram nada até agora. Mas que tal irmos atrás do tempo perdido? O que vocês estão fazendo agora, neste exato momento?

Convido ainda para uma reflexão verdadeira: fora dos bancos, quais empresas no Brasil realmente fizeram algo com escala e relevância, com real mudança de comportamento, para o investidor de varejo? O que essas empresas têm em comum? Seria isso uma coincidência?

Tento deixar clara a razão da minha indignação: o gerente do banco é como a raposa no galinheiro. Ir até ele atrás de informações financeiras é como perguntar ao barbeiro sobre a necessidade de um novo corte de cabelo.

Esclareço: não se trata de um problema das pessoas em si, da índole dos gerentes de banco. Também eles são vítimas do sistema, atrás apenas de um prato de comida. Precisam bater suas metas ou estão no olho da rua. O ponto nevrálgico é a natureza dos incentivos da indústria financeira. É o caso clássico do escorpião e do sapo: ainda que possam morrer os dois, o escorpião, no meio da travessia do rio, vai enfiar o ferrão no sapo, porque é a sua natureza, sabe?

Em todas as vezes em que o vendedor tiver uma remuneração diferente a partir da venda de um ou outro produto, ele precisa, necessariamente, estar alijado da possibilidade de recomendar, indicar, sugerir ou induzir o cliente sobre este ou aquele produto. É o básico do alinhamento de interesse entre as partes. Sem isso, nada feito.

Caso contrário, motivado pelo autointeresse, estará incentivado a sempre indicar aquilo que implicará maior remuneração para si mesmo, ainda que não seja necessariamente o melhor para o cliente.

A posição do gerente do banco obviamente confronta com o preceito acima. E ninguém fala nada. O sujeito é a maior fonte de aconselhamento do Brasil, por larga margem. Recomenda o que quer, ganha remuneração variável a partir dos produtos que empurra ao cliente e está tudo bem. O jogo continua, porque sempre foi assim. Como estamos acostumados, parece que não há problema. Mas há! E é gravíssimo, porque o investidor acaba com produtos ruins, sem nenhuma transparência sobre as taxas, os rebates e as metas apuradas pelo próprio gerente. Ele nunca sabe que, ao aplicar no fundo A, em vez do fundo B, deixa para o banco um rebate maior, por exemplo.

Estendo a preocupação para o caso dos agentes autônomos – de novo, não é um problema das pessoas em si; sejamos francos: é muito provável que todos nós fizéssemos a mesma coisa se nos deparássemos com a mesma estrutura de incentivos. Todos nós temos boletos para pagar e bocas para abastecer; somente aqueles que nunca fizeram nada e jamais se depararam com trade-offs de verdade vivem no platonismo das críticas aos comportamentos pessoais.

O agente autônomo, em termos práticos, é responsável por atrair clientes para a corretora e vender produtos aos investidores. Tentando separar o vendedor do “aconselhador”, a CVM não permite que os AAIs recomendem produtos aos clientes das corretoras. Ok, está certo.

Mas o que acontece na prática?

Muitos agentes autônomos (não são todos, claro) continuam recomendando naquele papo do cafezinho, nas conversas de WhatsApp, no happy hour da sexta-feira. E não sejamos tolos. O sujeito não precisa sugerir propriamente. Onde começa a recomendação? Bastam duas ou três palavras para empurrar o cliente ao investimento. “Caro Fulano, como você sabe, eu não posso lhe recomendar nada, mas gosto muito do Fundo A, minha esposa mesmo está investindo nele. Excelente equipe, excelente histórico.”

E daí as coisas vão se sofisticando. Para que todos se enquadrem no rigor regulatório, fazemos vistas grossas à hermenêutica e nos concentramos no literalismo da instrução. Como não pode indicar investimentos, o agente autônomo abre uma consultoria. Pronto! Agora está, com o devido chinese wall, claro, pronto para mandar soltar e prender, recomendar e vender! No fundo, é o mesmo grupo econômico, sabe? Apenas houve um drible na regulação.

O pior de tudo, para mim, é a tal da “assessoria de graça”. Isso é subestimar a inteligência do investidor. Não há almoço grátis, não há serviço grátis e, claro, não há assessoria grátis. Em qualquer lugar do planeta Terra, se você usa um serviço, assumindo não se tratar de um bem público, vai ter que pagar por ele, certo? Não há mágica. Se você não está pagando diretamente pela assessoria, ela vai ser embutida em outro lugar, oculta, implícita em taxas e rebates não comunicados para você.

Nesse momento, a relação piorou muito. Quando falta transparência, é porque há algo estranho. Se precisou esconder, é porque não é legal.

Não quero aqui defender a Empiricus, sinceramente. Não estou aqui para dizer que somos bons ou ruins. Seria ridículo fazê-lo. E por mais ridículo que eu seja – e eu sou mesmo (uma das melhores frases que ouvi na vida foi do Augusto Nunes, depois de um painel que fiz em Campo Grande junto com o Marcos Troyjo: “Felipe, gostei muito de você, porque você é como eu: você sabe que é ridículo”.) – tenho limites.

Meu ponto é da honestidade na relação. Quando criamos a Companhia há nove anos, era porque acreditávamos na transparência com o assinante. Assessoria paga diretamente, sem tergiversar. Você me entrega X reais, eu devolvo uma boa ideia para investir seu dinheiro. Não tenho taxa escondida, rebate, conflito de interesse, lobby com empresas, informação sonegada do investidor. Nada, zero. É tão simples e honesto quanto isso.

Há um único incentivo: prover ao investidor as melhores ideias possíveis para seu dinheiro. Não se trata da superioridade das pessoas ou da Empresa, mas, sim, do modelo e da estrutura de alinhamento de interesses.

Uma conexão direta, reta e transparente entre o provedor de ideias e o receptor, sem nada no meio para atrapalhar.

Esse deveria ser o objetivo de todos os envolvidos nessa brincadeira. Só com essa transparência o investidor poderá ter a certeza de que cometerá, sim, erros no meio do caminho, mas todos eles foram cometidos de boa-fé, sem agenda oculta, taxas ou rebates por trás.

Esse é o caminho para a evolução do investidor pessoa física no Brasil.

Encerro conectando Nassim Taleb a Ray Dalio, com uma citação de cada, nessa ordem. As aplicações podem se dar nos mais variados espectros, se é que você me entende:

“Está aí o porquê de eu ser contra o Estado nos ditando o que nós deveríamos fazer. Apenas a evolução, sem interferência, sabe se o considerado errado é realmente errado, com o benefício de termos nossa pele em jogo para garantir a boa seleção natural.”

“Compreenda as lições práticas da natureza. Descobri que compreender o funcionamento e a evolução da natureza é útil por vários motivos.(…) Quando comecei a tentar entender como a realidade funciona de fato em vez de pensar que as coisas deveriam ser diferentes, percebi que a maioria das coisas que de início pareciam ruins eram encaradas dessa forma porque eu tinha noções preconcebidas do que queria como indivíduo. Com o tempo, aprendi que, para mudar isso, era preciso enxergar que a realidade é construída para otimizar em benefício do todo, não apenas para mim. Maximize sua evolução.”

Mercados iniciam a segunda-feira em clima mais positivo, animados com exterior, onde aproximação entre EUA e China desperta aversão a risco. Arrefece a preocupação com guerra comercial. Medidas estimulativas na China, com liberação de crédito para infraestrutura também são recebidas com otimismo.

Por aqui, expectativa com a divulgação de pesquisas eleitorais inibe maior euforia. Na sexta, pesquisa XP/Ipespe preocupou ao apontar Haddad colhendo boa transferência de votos. Faltou bastante rigor científico na pergunta (ou vai estar na urna: “Haddad, apoiado por Lula”), mas ninguém quis saber. Venda primeiro, pondere depois. Hoje temos CNT/MDA pela manhã e Ibope à noite.

Vencimento de opções sobre ações pode adicionar volatilidade aos negócios — se quiser se aproveitar disso, aqui há um espaço reservado pra você.Relatório Focus completa agenda local.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3 por cento, dólar e juros futuros estão perto da estabilidade.