Imagem: iStock/ @asbe
Os preços do petróleo reagiram de forma limitada aos novos episódios de tensão no Golfo e na Rússia, sugerindo que os investidores já incorporam algum grau de instabilidade na implementação do memorando entre Estados Unidos e Irã. Apesar da troca de ataques no fim de semana, com drones iranianos atingindo embarcações em Ormuz, resposta americana contra instalações militares iranianas e retaliações contra bases dos EUA no Kuwait e no Bahrein, os dois países concordaram em suspender temporariamente as hostilidades e retomar conversas técnicas, possivelmente em Doha.
Ainda assim, o cessar-fogo permanece frágil. Omã teria informado autoridades europeias de que não há retorno ao status quo anterior no Estreito de Ormuz e que embarcações poderão ter de pagar taxas para transitar pela rota, reforçando a percepção de que o equilíbrio energético global mudou de forma estrutural.
· 00:52 — Dia de Copa
No Brasil, o alívio recente no petróleo, o IPCA-15 abaixo do esperado e a comunicação mais detalhada do Banco Central mantêm vivo o debate sobre a possibilidade de novo corte da Selic. Como comentei na semana passada, o Relatório de Política Monetária e as falas de Gabriel Galípolo e Paulo Picchetti ajudaram a reduzir os ruídos deixados pelo comunicado e pela ata do Copom, reforçando que tanto uma nova redução dos juros quanto uma pausa seguem sobre a mesa.
A queda de 10,6% do petróleo na semana passada passou a ser vista como um possível vetor desinflacionário relevante, ainda que persistam riscos no Oriente Médio. Nesse ambiente de maior apetite a risco, os juros futuros de curto e médio prazo recuaram para os menores níveis em cerca de um mês. Começamos a semana com menor liquidez por conta do jogo da seleção, que costuma reduzir em cerca de 20% o volume em relação a dias normais, mas a agenda doméstica da semana será relevante para testar se a economia caminha para uma desaceleração compatível com a continuidade do afrouxamento monetário.
O mercado acompanha o IGP-M de junho, os dados de crédito, o resultado primário do Governo Central, com projeção de déficit entre R$ 52,7 bilhões e R$ 53,2 bilhões, além do Caged de maio, que deve mostrar abertura líquida de cerca de 120 mil vagas formais, e da produção industrial. O emprego ainda deve confirmar resiliência, mas com expectativa de desaceleração gradual das contratações nos próximos meses.
No pano de fundo, o lançamento do Desenrola Adimplentes (sim, mais um programa dessa natureza, agora voltado a quem está em dia) busca ampliar o acesso ao crédito para consumidores com bom histórico de pagamento, em mais um esforço eleitoral.
· 01:41 — Semana mais curta, mas ainda muito importante
Nos Estados Unidos, mesmo com a maioria das ações do S&P 500 em alta, o índice fechou em leve queda na última sexta-feira de 0,05%, pressionado pelo desempenho negativo das gigantes de tecnologia. Enquanto setores como saúde e consumo discricionário avançaram, o índice de tecnologia do S&P 500 recuou 1,1%, o Nasdaq caiu pelo quinto pregão consecutivo e o índice de semicondutores SOX tombou 5,3%.
A principal preocupação está nos gastos crescentes com inteligência artificial, que começam a elevar os custos de componentes e já levam empresas como Apple e Microsoft a repassar parte dessa pressão para notebooks, smartphones e outros dispositivos. Caso os preços mais altos prejudiquem a demanda, o impacto pode se espalhar por toda a cadeia de tecnologia, justamente em um momento em que as “Magnificent Seven” começam a mostrar perda de fôlego, com desaceleração dos fluxos de caixa e desempenho inferior ao restante do mercado.
Com o alívio mais imediato no petróleo após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, o foco dos investidores volta para a economia americana e para a trajetória dos juros. A semana será encurtada pelo feriado da Independência, mas terá uma agenda relevante, com destaque para o payroll de junho, antecipado para quinta-feira, no qual economistas esperam a criação de cerca de 110 mil a 113 mil vagas e a manutenção da taxa de desemprego em 4,3%.
O mercado também acompanhará Jolts, ADP, PMIs, ISM industrial e pedidos semanais de auxílio-desemprego para avaliar se a atividade segue forte o suficiente para justificar a postura mais cautelosa do Fed. No pano de fundo, Thomas Barkin, do Fed de Richmond, reforçou que ainda é difícil ter confiança em uma volta sustentável da inflação à meta de 2%, especialmente diante das pressões associadas aos investimentos em infraestrutura de IA. Em paralelo, a agenda corporativa inclui resultados de Nike, Constellation Brands e General Mills.
· 02:36 — Ponto de não retorno
O possível avanço de uma cobrança de taxas sobre embarcações que transitam pelo Estreito de Ormuz reforça a percepção de que o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã pode ter alterado de forma duradoura o equilíbrio energético global. Segundo relatos, Omã teria informado autoridades europeias de que não há como retornar ao status quo anterior na região, o que poderia impor custos de dezenas de bilhões de dólares por ano a operadores de commodities e empresas de transporte marítimo. Governos como os dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos alertam que uma medida desse tipo violaria normas do direito marítimo internacional. Ainda assim, a situação permanece instável.
Como já argumentei neste espaço, mesmo que o fluxo pelo Estreito de Ormuz seja retomado, dificilmente voltará ao padrão anterior. A dinâmica se assemelha ao que ocorreu no Estreito de Bab Al Mandeb desde o fim de 2023, quando ataques de grupos aliados ao Irã levaram parte dos navios a contornar a África em vez de navegar pela rota tradicional. No caso de Ormuz, a retomada tende a ser mais relevante, dada sua importância estratégica e a ausência de alternativas equivalentes.
Ainda assim, o mercado já começa a precificar uma nova realidade: rotas alternativas por oleodutos, gasodutos e ferrovias passam a ser exploradas, novas estruturas logísticas começam a ser desenvolvidas e um prêmio geopolítico mais persistente tende a dar sustentação aos preços do petróleo. No longo prazo, empresas e governos devem buscar maior diversificação geográfica e energética, consolidando a ideia de que o antigo status quo não será restabelecido e de que uma nova ordem energética está em formação.
· 03:24 — Competição estrangeira
A aproximação entre os modelos de IA chineses e americanos reacendeu o debate sobre os efeitos de uma regulação fragmentada da tecnologia. Pesquisadores indicaram que a Zhipu AI, da China, já consegue igualar o modelo Mythos, da Anthropic, em algumas tarefas, mesmo depois de o governo dos Estados Unidos ter forçado a retirada do modelo americano do ar.
Embora a China ainda não tenha alcançado plenamente o nível de Anthropic e OpenAI, seu avanço expõe uma contradição relevante: ao restringir modelos domésticos, mas manter o fluxo de semicondutores para rivais estratégicos, os EUA podem estar criando espaço para que empresas estrangeiras, especialmente as chinesas, ganhem competitividade global.
Ao mesmo tempo, companhias americanas já recorrem a modelos chineses, como Zhipu e DeepSeek, em busca de ferramentas poderosas a custos mais baixos, enquanto até a Microsoft avalia formas de oferecê-los em suas plataformas. Diante desse cenário, Washington começou a flexibilizar parte das restrições, permitindo que a Anthropic restaure o acesso ao Mythos para parceiros selecionados e preparando a volta do Fable 5.
A OpenAI, por sua vez, criticou o modelo de acesso restrito, argumentando que ele limita usuários, desenvolvedores, empresas, especialistas em defesa cibernética e aliados globais que precisam dessas ferramentas. No pano de fundo, cresce a disputa regulatória internacional, com a Áustria sugerindo que a Anthropic se mude para a União Europeia em busca de maior segurança jurídica, acesso ao mercado, capital e um ambiente de valores mais alinhado à companhia.
· 04:19 — Nova rodada
A Coreia do Sul anunciou uma nova rodada de investimentos de pelo menos 1.350 trilhões de wons, cerca de US$ 880 bilhões, em chips e centros de dados, com Samsung e SK Hynix no centro da estratégia para preservar a liderança do país na era da inteligência artificial. O presidente Lee Jae-myung afirmou que a Coreia precisa se mover mais rapidamente do que seus concorrentes globais em chips, data centers de IA e IA física, classificando os líderes das duas companhias como “heróis nacionais” e prometendo apoio do governo para acelerar a construção de um ecossistema doméstico de inteligência artificial.
O movimento ocorre em um momento de forte restrição na oferta global de chips de memória, pressão que já aparece nos aumentos de preços anunciados por empresas como a Apple, enquanto a Micron sinaliza que ainda não há previsão clara de quando a oferta conseguirá atender à demanda.
Ao mesmo tempo, o mercado acionário sul-coreano atravessa um momento decisivo. O Kospi acumula alta superior a 90% no ano, impulsionado pela busca por ações ligadas à inteligência artificial, especialmente Samsung Electronics e SK Hynix, que juntas representam mais da metade do índice. A valorização, porém, veio acompanhada de forte volatilidade, suspensões de negociação e saídas recordes de capital estrangeiro, acima de US$ 78 bilhões, em parte porque fundos globais foram obrigados a reduzir posições ao atingir limites de concentração.
Nesse contexto, a possível entrada da Coreia do Sul na lista de observação da MSCI para uma futura reclassificação de mercado emergente para mercado desenvolvido poderia atrair cerca de US$ 30 bilhões em fluxos, reduzir o chamado “Korea Discount”, o desconto de valuation historicamente aplicado às ações sul-coreanas, e consolidar o país como uma exposição estratégica a semicondutores, baterias e manufatura avançada.
· 05:03 — Petróleo mais baixo, impacto limitado e dividendos ainda no radar
A Petrobras recebeu a segunda parcela do programa de subvenção econômica à comercialização de óleo diesel, no valor de R$ 170 milhões, após já ter recebido uma parcela anterior de R$ 752 milhões. O tema aparece em um momento em que a possível resolução da guerra e a volta do petróleo para níveis abaixo de US$ 80 por barril levantam dúvidas sobre os impactos para a companhia.
Embora exista correlação entre o preço do petróleo e os resultados da estatal, esse vínculo tende a ser menor do que o mercado costuma supor. Isso ocorre porque cerca de 80% do petróleo produzido pela Petrobras é vendido para o segmento de refino, no qual os preços são ajustados com baixa frequência para evitar ruídos volatilidade excessiva.
Na prática, assim como a Petrobras capturou apenas parcialmente a forte alta dos derivados após o início da guerra, tendo elevado a gasolina apenas uma vez e o diesel duas vezes, os efeitos da queda dos combustíveis no mercado internacional também devem ser amortecidos pela mesma política de preços.
A parcela mais sensível é o petróleo produzido que não é destinado às refinarias e acaba sendo exportado aos preços correntes do Brent, mas essa fatia representa uma parte menor dos resultados de exploração e produção. Mesmo em um cenário de petróleo ao redor de US$ 70 por barril, que parece razoável diante dos riscos e disrupções ainda presentes, a Petrobras tende a seguir entregando forte geração de caixa e dividendos relevantes, mantendo um pano de fundo construtivo para as ações PETR4 como complemento às carteiras.