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Investimentos

Ibovespa hoje: novo corte da Selic ainda em pauta e alívio nos preços do petróleo; veja o que impacta o mercado esta semana

Investidores já parecem incorporar a instabilidade nos preços do petróleo

Por Matheus Spiess

29 jun 2026, 10:02

Atualizado em 29 jun 2026, 10:02

trade ações bolsa mercado (1)

Imagem: iStock/ @asbe

Os preços do petróleo reagiram de forma limitada aos novos episódios de tensão no Golfo e na Rússia, sugerindo que os investidores já incorporam algum grau de instabilidade na implementação do memorando entre Estados Unidos e Irã. Apesar da troca de ataques no fim de semana, com drones iranianos atingindo embarcações em Ormuz, resposta americana contra instalações militares iranianas e retaliações contra bases dos EUA no Kuwait e no Bahrein, os dois países concordaram em suspender temporariamente as hostilidades e retomar conversas técnicas, possivelmente em Doha.

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Ainda assim, o cessar-fogo permanece frágil. Omã teria informado autoridades europeias de que não há retorno ao status quo anterior no Estreito de Ormuz e que embarcações poderão ter de pagar taxas para transitar pela rota, reforçando a percepção de que o equilíbrio energético global mudou de forma estrutural.

· 00:52 — Dia de Copa

No Brasil, o alívio recente no petróleo, o IPCA-15 abaixo do esperado e a comunicação mais detalhada do Banco Central mantêm vivo o debate sobre a possibilidade de novo corte da Selic. Como comentei na semana passada, o Relatório de Política Monetária e as falas de Gabriel Galípolo e Paulo Picchetti ajudaram a reduzir os ruídos deixados pelo comunicado e pela ata do Copom, reforçando que tanto uma nova redução dos juros quanto uma pausa seguem sobre a mesa.

A queda de 10,6% do petróleo na semana passada passou a ser vista como um possível vetor desinflacionário relevante, ainda que persistam riscos no Oriente Médio. Nesse ambiente de maior apetite a risco, os juros futuros de curto e médio prazo recuaram para os menores níveis em cerca de um mês. Começamos a semana com menor liquidez por conta do jogo da seleção, que costuma reduzir em cerca de 20% o volume em relação a dias normais, mas a agenda doméstica da semana será relevante para testar se a economia caminha para uma desaceleração compatível com a continuidade do afrouxamento monetário.

O mercado acompanha o IGP-M de junho, os dados de crédito, o resultado primário do Governo Central, com projeção de déficit entre R$ 52,7 bilhões e R$ 53,2 bilhões, além do Caged de maio, que deve mostrar abertura líquida de cerca de 120 mil vagas formais, e da produção industrial. O emprego ainda deve confirmar resiliência, mas com expectativa de desaceleração gradual das contratações nos próximos meses.

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No pano de fundo, o lançamento do Desenrola Adimplentes (sim, mais um programa dessa natureza, agora voltado a quem está em dia) busca ampliar o acesso ao crédito para consumidores com bom histórico de pagamento, em mais um esforço eleitoral.

· 01:41 — Semana mais curta, mas ainda muito importante

Nos Estados Unidos, mesmo com a maioria das ações do S&P 500 em alta, o índice fechou em leve queda na última sexta-feira de 0,05%, pressionado pelo desempenho negativo das gigantes de tecnologia. Enquanto setores como saúde e consumo discricionário avançaram, o índice de tecnologia do S&P 500 recuou 1,1%, o Nasdaq caiu pelo quinto pregão consecutivo e o índice de semicondutores SOX tombou 5,3%.

A principal preocupação está nos gastos crescentes com inteligência artificial, que começam a elevar os custos de componentes e já levam empresas como Apple e Microsoft a repassar parte dessa pressão para notebooks, smartphones e outros dispositivos. Caso os preços mais altos prejudiquem a demanda, o impacto pode se espalhar por toda a cadeia de tecnologia, justamente em um momento em que as “Magnificent Seven” começam a mostrar perda de fôlego, com desaceleração dos fluxos de caixa e desempenho inferior ao restante do mercado.

Com o alívio mais imediato no petróleo após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, o foco dos investidores volta para a economia americana e para a trajetória dos juros. A semana será encurtada pelo feriado da Independência, mas terá uma agenda relevante, com destaque para o payroll de junho, antecipado para quinta-feira, no qual economistas esperam a criação de cerca de 110 mil a 113 mil vagas e a manutenção da taxa de desemprego em 4,3%.

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O mercado também acompanhará Jolts, ADP, PMIs, ISM industrial e pedidos semanais de auxílio-desemprego para avaliar se a atividade segue forte o suficiente para justificar a postura mais cautelosa do Fed. No pano de fundo, Thomas Barkin, do Fed de Richmond, reforçou que ainda é difícil ter confiança em uma volta sustentável da inflação à meta de 2%, especialmente diante das pressões associadas aos investimentos em infraestrutura de IA. Em paralelo, a agenda corporativa inclui resultados de Nike, Constellation Brands e General Mills.

· 02:36 — Ponto de não retorno

O possível avanço de uma cobrança de taxas sobre embarcações que transitam pelo Estreito de Ormuz reforça a percepção de que o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã pode ter alterado de forma duradoura o equilíbrio energético global. Segundo relatos, Omã teria informado autoridades europeias de que não há como retornar ao status quo anterior na região, o que poderia impor custos de dezenas de bilhões de dólares por ano a operadores de commodities e empresas de transporte marítimo. Governos como os dos Estados Unidos, Reino Unido, França, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos alertam que uma medida desse tipo violaria normas do direito marítimo internacional. Ainda assim, a situação permanece instável.

Como já argumentei neste espaço, mesmo que o fluxo pelo Estreito de Ormuz seja retomado, dificilmente voltará ao padrão anterior. A dinâmica se assemelha ao que ocorreu no Estreito de Bab Al Mandeb desde o fim de 2023, quando ataques de grupos aliados ao Irã levaram parte dos navios a contornar a África em vez de navegar pela rota tradicional. No caso de Ormuz, a retomada tende a ser mais relevante, dada sua importância estratégica e a ausência de alternativas equivalentes.

Ainda assim, o mercado já começa a precificar uma nova realidade: rotas alternativas por oleodutos, gasodutos e ferrovias passam a ser exploradas, novas estruturas logísticas começam a ser desenvolvidas e um prêmio geopolítico mais persistente tende a dar sustentação aos preços do petróleo. No longo prazo, empresas e governos devem buscar maior diversificação geográfica e energética, consolidando a ideia de que o antigo status quo não será restabelecido e de que uma nova ordem energética está em formação.

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· 03:24 — Competição estrangeira

A aproximação entre os modelos de IA chineses e americanos reacendeu o debate sobre os efeitos de uma regulação fragmentada da tecnologia. Pesquisadores indicaram que a Zhipu AI, da China, já consegue igualar o modelo Mythos, da Anthropic, em algumas tarefas, mesmo depois de o governo dos Estados Unidos ter forçado a retirada do modelo americano do ar.

Embora a China ainda não tenha alcançado plenamente o nível de Anthropic e OpenAI, seu avanço expõe uma contradição relevante: ao restringir modelos domésticos, mas manter o fluxo de semicondutores para rivais estratégicos, os EUA podem estar criando espaço para que empresas estrangeiras, especialmente as chinesas, ganhem competitividade global.

Ao mesmo tempo, companhias americanas já recorrem a modelos chineses, como Zhipu e DeepSeek, em busca de ferramentas poderosas a custos mais baixos, enquanto até a Microsoft avalia formas de oferecê-los em suas plataformas. Diante desse cenário, Washington começou a flexibilizar parte das restrições, permitindo que a Anthropic restaure o acesso ao Mythos para parceiros selecionados e preparando a volta do Fable 5.

A OpenAI, por sua vez, criticou o modelo de acesso restrito, argumentando que ele limita usuários, desenvolvedores, empresas, especialistas em defesa cibernética e aliados globais que precisam dessas ferramentas. No pano de fundo, cresce a disputa regulatória internacional, com a Áustria sugerindo que a Anthropic se mude para a União Europeia em busca de maior segurança jurídica, acesso ao mercado, capital e um ambiente de valores mais alinhado à companhia.

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· 04:19 — Nova rodada

A Coreia do Sul anunciou uma nova rodada de investimentos de pelo menos 1.350 trilhões de wons, cerca de US$ 880 bilhões, em chips e centros de dados, com Samsung e SK Hynix no centro da estratégia para preservar a liderança do país na era da inteligência artificial. O presidente Lee Jae-myung afirmou que a Coreia precisa se mover mais rapidamente do que seus concorrentes globais em chips, data centers de IA e IA física, classificando os líderes das duas companhias como “heróis nacionais” e prometendo apoio do governo para acelerar a construção de um ecossistema doméstico de inteligência artificial.

O movimento ocorre em um momento de forte restrição na oferta global de chips de memória, pressão que já aparece nos aumentos de preços anunciados por empresas como a Apple, enquanto a Micron sinaliza que ainda não há previsão clara de quando a oferta conseguirá atender à demanda.

Ao mesmo tempo, o mercado acionário sul-coreano atravessa um momento decisivo. O Kospi acumula alta superior a 90% no ano, impulsionado pela busca por ações ligadas à inteligência artificial, especialmente Samsung Electronics e SK Hynix, que juntas representam mais da metade do índice. A valorização, porém, veio acompanhada de forte volatilidade, suspensões de negociação e saídas recordes de capital estrangeiro, acima de US$ 78 bilhões, em parte porque fundos globais foram obrigados a reduzir posições ao atingir limites de concentração.

Nesse contexto, a possível entrada da Coreia do Sul na lista de observação da MSCI para uma futura reclassificação de mercado emergente para mercado desenvolvido poderia atrair cerca de US$ 30 bilhões em fluxos, reduzir o chamado “Korea Discount”, o desconto de valuation historicamente aplicado às ações sul-coreanas, e consolidar o país como uma exposição estratégica a semicondutores, baterias e manufatura avançada.

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· 05:03 — Petróleo mais baixo, impacto limitado e dividendos ainda no radar

A Petrobras recebeu a segunda parcela do programa de subvenção econômica à comercialização de óleo diesel, no valor de R$ 170 milhões, após já ter recebido uma parcela anterior de R$ 752 milhões. O tema aparece em um momento em que a possível resolução da guerra e a volta do petróleo para níveis abaixo de US$ 80 por barril levantam dúvidas sobre os impactos para a companhia.

Embora exista correlação entre o preço do petróleo e os resultados da estatal, esse vínculo tende a ser menor do que o mercado costuma supor. Isso ocorre porque cerca de 80% do petróleo produzido pela Petrobras é vendido para o segmento de refino, no qual os preços são ajustados com baixa frequência para evitar ruídos volatilidade excessiva.

Na prática, assim como a Petrobras capturou apenas parcialmente a forte alta dos derivados após o início da guerra, tendo elevado a gasolina apenas uma vez e o diesel duas vezes, os efeitos da queda dos combustíveis no mercado internacional também devem ser amortecidos pela mesma política de preços.

A parcela mais sensível é o petróleo produzido que não é destinado às refinarias e acaba sendo exportado aos preços correntes do Brent, mas essa fatia representa uma parte menor dos resultados de exploração e produção. Mesmo em um cenário de petróleo ao redor de US$ 70 por barril, que parece razoável diante dos riscos e disrupções ainda presentes, a Petrobras tende a seguir entregando forte geração de caixa e dividendos relevantes, mantendo um pano de fundo construtivo para as ações PETR4 como complemento às carteiras.

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.