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A onda global de vendas em ações de tecnologia ganhou força na terça-feira (25), reacendendo dúvidas sobre a sustentabilidade da euforia em torno da inteligência artificial e das fabricantes de chips. O movimento começou nos Estados Unidos, espalhou-se pela Ásia e colocou em evidência outro ponto de atenção: o crescimento dos ETFs alavancados ligados ao setor, um mercado de aproximadamente US$ 290 bilhões que pode ampliar movimentos de venda em momentos de maior estresse.
A perda de confiança não tem uma explicação única, mas parece refletir a combinação de alguns fatores relevantes: quedas recentes em nomes como Google e SpaceX, preocupação com juros mais altos nos Estados Unidos, dúvidas sobre o retorno dos investimentos bilionários em IA e receio de que o setor tenha avançado rápido demais, tanto em preço quanto em expectativas. A atenção agora se volta para os resultados da Micron, que podem oferecer sinais importantes sobre a demanda por infraestrutura de IA. Nesta manhã, até vemos uma tentativa de recuperação, mas ainda tímida.
· 00:52 — Problema de confiança
No Brasil, o Ibovespa mostrou resiliência ontem, chegou a cair 1% após a divulgação da ata do Copom, mas virou ao longo do dia e encerrou em alta, aos 171.259 pontos, enquanto o dólar avançou 0,88%, a R$ 5,19. A ata não conseguiu dissipar as dúvidas sobre os próximos passos da política monetária e acabou dividindo o mercado entre pausa e novo corte da Selic em agosto.
A leitura mais favorável aos cortes ganhou força com a normalização parcial do fluxo de petróleo em Ormuz e a queda do Brent, que reduzem uma importante fonte de pressão inflacionária, mas o conflito no Oriente Médio era apenas uma das preocupações para o Banco Central. Com isso, a atenção agora se volta para o Relatório de Política Monetária e para a entrevista de Gabriel Galípolo, que devem ajudar a esclarecer a função de reação da autoridade monetária.
· 01:49 — Depois da correção
A forte queda das ações sul-coreanas, acompanhada pela realização nas ações de tecnologia nos Estados Unidos, reforça que o risco de curto prazo na tese de inteligência artificial pode estar menos no endividamento usado para construir a infraestrutura do setor e mais na alavancagem das operações especulativas ligadas ao tema. O Kospi, índice dominado por SK Hynix e Samsung, duas líderes em memórias de alta largura de banda, caiu quase 10%, em sua maior queda diária desde março, com interrupções nas negociações. Parte desse movimento parece refletir o uso crescente de margem — isto é, dinheiro emprestado para comprar ações — e de ETFs alavancados ligados a papéis individuais, especialmente Samsung e SK Hynix, cujo patrimônio saltou de menos de US$ 3 bilhões para mais de US$ 10 bilhões em menos de um mês. Em outras palavras, a alta recente do mercado coreano foi impulsionada não apenas por fundamentos ligados à IA, mas também por apostas alavancadas, o que torna qualquer reversão mais intensa quando o sentimento muda.
Nos Estados Unidos, o movimento também atingiu fabricantes de chips e empresas ligadas à infraestrutura de IA, como Micron, Sandisk, Corning, Applied Optoelectronics, Western Digital, Marvell, ASML, Arista e Seagate. O Nasdaq caiu 2,2%, em sua sexta sessão consecutiva com variação diária superior a 1%, enquanto o S&P 500 recuou 1,4%. A realização não parece ter sido provocada por um choque geopolítico, já que o petróleo e o Oriente Médio deram sinais de alívio, nem por uma mudança clara nos fundamentos, embora cresçam as preocupações com o custo elevado das tecnologias de IA e com a possibilidade de empresas reduzirem ou postergarem investimentos em capex.
A leitura mais equilibrada é que o mercado pode estar passando por uma correção técnica depois de um período de euforia, concentração e alavancagem excessiva, sem que isso represente necessariamente o estouro definitivo de uma bolha. A atenção agora se volta para os resultados da Micron, que podem ajudar a calibrar se a pressão recente é apenas uma pausa em um setor muito aquecido ou o início de uma reprecificação mais ampla.
· 02:36 — O alívio continua, aos trancos e barrancos
Estados Unidos e Irã vêm anunciando avanços desde o acordo de paz provisório firmado na semana passada, e os primeiros sinais foram melhores do que o esperado. Navios voltaram a circular pelo Estreito de Ormuz, um número maior de petroleiros passou a manter os sinais de satélite ligados, o Brent recuou de cerca de US$ 125 para aproximadamente US$ 76 por barril, e Washington suspendeu o bloqueio naval, além de conceder uma licença de 60 dias para que o Irã venda petróleo internacionalmente.
Vendedores iranianos já negociam com refinarias na Índia, no Japão e na Coreia do Sul, enquanto Teerã afirma que US$ 12 bilhões em ativos congelados estão sendo liberados em duas parcelas. Esse conjunto de sinais reduziu o prêmio de risco no petróleo e melhorou a percepção sobre a navegação no Golfo, mas o otimismo ainda parece frágil, porque as principais divergências seguem em aberto.
Os pontos mais sensíveis envolvem inspeções nucleares, limites ao enriquecimento de urânio, o programa de mísseis balísticos, o uso dos ativos descongelados e a gestão do Estreito de Ormuz. Washington afirma que o Irã aceitou inspeções abrangentes, enquanto Teerã nega. Os Estados Unidos defendem que os recursos liberados sejam usados para importações de alimentos e medicamentos, ao passo que o Irã reivindica autonomia sobre o dinheiro. Também não há consenso sobre a administração de Ormuz.
Além disso, o Líbano segue como o principal risco de reescalada, com o Irã acusando Israel de violar o acordo e Israel condicionando sua retirada à capacidade do exército libanês de conter o Hezbollah. No plano doméstico americano, o Senado aprovou uma resolução, já aprovada anteriormente na Câmara, para limitar a participação militar dos Estados Unidos contra o Irã, refletindo forte oposição popular à guerra e desconforto crescente inclusive entre republicanos, enquanto o Pentágono estima que o conflito pode exigir cerca de US$ 80 bilhões.
Em síntese, o acordo trouxe alívio imediato para petróleo, navegação e mercados, mas sua implementação continua vulnerável a divergências nucleares, financeiras, regionais e políticas.
· 03:27 — O próximo líder do partido trabalhista
Dez anos após o referendo do Brexit, o Reino Unido segue marcado por forte instabilidade política e econômica. A renúncia anunciada de Keir Starmer, que comentei no começo da semana, abriria caminho para o sétimo primeiro-ministro britânico em uma década, provavelmente Andy Burnham, em forte contraste com os apenas cinco líderes que comandaram o país nos 37 anos anteriores ao plebiscito.
O Brexit contribuiu diretamente para esse quadro ao fragilizar governos, dificultar a relação com a União Europeia e frustrar parte das expectativas de seus defensores, já que a economia permanece estagnada desde a saída formal do bloco, em 2020, enquanto a migração líquida aumentou nos últimos anos. Ainda assim, o Brexit não explica tudo: a pandemia, o choque energético provocado pela invasão da Ucrânia pela Rússia e as novas incertezas globais associadas ao retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos também agravaram os desafios britânicos.
Caso assuma, Burnham deve tentar imprimir uma agenda mais clara do que a de Starmer, com maior ênfase na devolução de poder aos governos locais, na reforma eleitoral, na assistência social, na habitação popular e, possivelmente, em mais investimentos em infraestrutura. O principal obstáculo, porém, será fiscal. Com serviços públicos pressionados, pouca margem orçamentária e regras fiscais restritivas, sua capacidade de avançar dependerá de convencer investidores de que uma agenda de reformas pode melhorar o crescimento potencial do Reino Unido e, com isso, abrir espaço para financiar prioridades domésticas.
Para sobreviver politicamente, Burnham precisará construir uma narrativa de governo mais reconhecível, comunicar melhor sua missão ao partido, aos eleitores e aos mercados, e transformar sua habilidade de conexão direta com o eleitorado em uma base de sustentação política mais duradoura do que a observada nos últimos governos.
· 04:11 — Uma próxima fase
A próxima fase da inteligência artificial começa a se parecer menos com uma tese puramente de software e mais com uma corrida por infraestrutura crítica. A forte valorização das ações da chinesa Zhipu, que avalia uma venda multibilionária de ações após alta de 2.000% e valor de mercado superior a US$ 128 bilhões, mostra que investidores continuam dispostos a financiar histórias de crescimento ligadas à IA, mesmo diante de dúvidas sobre lucratividade e competição.
Ao mesmo tempo, empresas e investidores passam a direcionar sua atenção para os gargalos físicos que sustentam essa expansão, especialmente energia e data centers. A tentativa do SoftBank de adquirir participação na Tokyo Electric Power, o interesse de potenciais compradores no portfólio asiático da Stack Infrastructure, em uma transação que pode superar US$ 30 bilhões, e os projetos de data centers em larga escala reforçam uma mensagem clara: garantir energia, capacidade computacional e infraestrutura tornou-se tão estratégico quanto desenvolver modelos ou acessar chips.
Esse movimento também aparece na mobilização de capital por grandes empresas de tecnologia e semicondutores. A SK Hynix, líder em chips de memória de alta largura de banda (HBM), planeja captar US$ 29,4 bilhões na Nasdaq, em uma operação que pode figurar entre as maiores vendas de ações da história. Suas ações listadas em Seul já acumulam alta superior a 300% no ano, enquanto o lucro operacional do 1T atingiu o recorde de US$ 24 bilhões.
Separadamente, a ByteDance avalia captar cerca de US$ 20 bilhões em seu maior empréstimo internacional, ao mesmo tempo em que considera gastos de até US$ 70 bilhões em IA neste ano, com foco em data centers e infraestrutura. Em conjunto, esses movimentos sugerem que a “corrida do ouro” da IA está descendo a cadeia de valor: depois dos modelos e das aplicações, o capital passa a se concentrar nos ativos físicos que tornam a tecnologia possível, como energia, memória, data centers, logística e capacidade produtiva.
· 05:07 — A nova fronteira da saúde metabólica e da indústria farmacêutica
A popularização dos medicamentos análogos ao GLP-1, como Mounjaro e Ozempic, começa a transformar os padrões de consumo também no Brasil. Segundo a Euromonitor, quase metade da população brasileira afirma estar tentando emagrecer em 2026, enquanto 5,5% já utiliza esse tipo de medicamento, percentual superior à média global de 3,7%.
Com a redução do apetite e mudanças de comportamento associadas ao tratamento, os usuários relatam menor consumo de bebidas açucaradas, álcool, nicotina e outras substâncias, ao mesmo tempo em que passam a direcionar uma parcela maior dos gastos para alimentos frescos, suplementos proteicos, produtos capilares e roupas esportivas. O fenômeno sugere uma redefinição mais ampla do conceito de bem-estar no varejo, com impactos que vão do foodservice aos segmentos de vestuário, beleza e cuidados pessoais.
Para o setor farmacêutico, a expansão dos medicamentos GLP-1 representa uma das teses estruturais mais relevantes dos próximos anos. O mercado deixou de ser apenas uma história ligada a diabetes e emagrecimento para se tornar uma plataforma mais ampla de saúde metabólica, com potenciais desdobramentos em obesidade, risco cardiovascular, doença renal, apneia do sono e, possivelmente, outras condições associadas ao excesso de peso e à inflamação crônica.
Esse avanço amplia o mercado endereçável das grandes farmacêuticas, favorece empresas com liderança em inovação, escala produtiva e capacidade de distribuição global, e também estimula investimentos relevantes em novas fábricas, formulações orais, combinações terapêuticas e medicamentos de próxima geração. Ainda há riscos, como pressão sobre preços, disputas regulatórias, necessidade de expansão da oferta e competição crescente, mas a direção estrutural permanece positiva: os GLP-1 consolidam uma nova fronteira de crescimento para a indústria farmacêutica, com impacto potencial sobre receitas, margens, pesquisa clínica e alocação de capital ao longo da década.
Nesse contexto, seguimos construtivos com Eli Lilly and Company (NYSE: LLY) como uma das formas mais diretas de exposição ao ciclo estrutural dos GLP-1. A companhia combina liderança científica, escala global, forte capacidade comercial e um portfólio cada vez mais relevante em diabetes, obesidade e saúde metabólica, com Mounjaro e Zepbound já se consolidando como importantes vetores de crescimento. Além disso, a evolução de novas formulações, incluindo alternativas orais, pode ampliar o mercado endereçável e reduzir barreiras de adoção ao longo do tempo.
Para o investidor brasileiro, o BDR LILY34 permite acessar essa tese pela B3, em reais, mantendo exposição a uma empresa global de alta qualidade, com receitas dolarizadas e presença em uma das frentes mais promissoras da indústria farmacêutica. Naturalmente, o papel já negocia com expectativas elevadas e exige disciplina de preço, mas, em uma leitura de longo prazo, a Eli Lilly segue bem posicionada para capturar a expansão dos GLP-1 e transformar inovação médica em crescimento recorrente de receita, margem e geração de valor para o acionista.