(Imagem: Jakub Zerdzicki/Pexels)
Os mercados globais operam com viés positivo nesta quarta-feira, apoiados pela surpresa favorável do CPI dos Estados Unidos, que reduziu as apostas em novas altas de juros pelo Federal Reserve e devolveu parte do apetite por risco. Ainda assim, dirigentes do banco central vêm tentando moderar o entusiasmo dos investidores, reforçando que um único indicador não é suficiente para confirmar uma trajetória sustentável de convergência da inflação. A agenda permanece relevante, com a divulgação do PPI, do Livro Bege e novo depoimento de Kevin Warsh.
Ao mesmo tempo, a guerra continua no centro das atenções. Os Estados Unidos realizaram uma nova rodada de ataques contra alvos militares iranianos e retomaram o bloqueio naval aos portos do país no Estreito de Ormuz, enquanto Donald Trump ameaçou ampliar as ofensivas caso Teerã não retome as negociações. Embora o presidente americano tenha abandonado a proposta de cobrar uma taxa de 20% sobre as cargas transportadas pela região, a circulação marítima permanece limitada e cercada de riscos, mantendo elevadas as incertezas sobre a oferta global de energia.
Na China, os dados de atividade trouxeram sinais mistos. O PIB avançou 4,3% no segundo trimestre, abaixo das expectativas e em desaceleração em relação aos 5,0% registrados nos três primeiros meses do ano, refletindo a fraqueza dos gastos domésticos e dos governos locais. Por outro lado, as vendas no varejo surpreenderam positivamente e indicaram alguma melhora no consumo, ainda que insuficiente para eliminar as dúvidas sobre a força da demanda interna.
· 00:53 — Juros aliviam, Brasília pesa e Washington ameaça
No Brasil, o Ibovespa avançou 0,51% na terça-feira, aos 176.641 pontos, enquanto o dólar recuou 1,05%, para R$ 5,0777, acompanhando a melhora do apetite por risco no exterior após a inflação americana vir abaixo das expectativas (só não foi melhor por conta da fala do Kevin Warsh, que segurou o apetite ao risco em nível global). O ambiente doméstico, porém, permaneceu dividido.
De um lado, a pesquisa Quaest trouxe uma leitura favorável à situação e menos confortável para a oposição, reforçando a percepção de maior competitividade do governo no cenário eleitoral. De outro, o Senado aprovou a PEC que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, ampliando despesas obrigatórias sem indicar uma fonte clara de financiamento.
Com impacto estimado em quase R$ 28 bilhões nos próximos dez anos, a medida voltou a evidenciar a dificuldade de contenção dos gastos públicos e adicionou pressão às perspectivas fiscais, levando o governo a considerar uma eventual contestação no Supremo Tribunal Federal. De qualquer forma, a conta para o inevitável ajuste fiscal de 2027 só aumenta.
Na agenda econômica, a Pesquisa Mensal de Serviços veio abaixo das expectativas e reforçou os sinais de desaceleração da atividade. A leitura aumenta, na margem, a probabilidade de um novo corte da Selic na próxima reunião do Copom, especialmente após a surpresa positiva do IPCA de junho. Ainda assim, o dado representa apenas a primeira parte de uma sequência importante de indicadores ao longo da semana.
As vendas no varejo serão divulgadas amanhã, enquanto o IBC-Br, considerado uma das principais aproximações mensais para o desempenho do PIB, será conhecido na sexta-feira. Em conjunto, esses números ajudarão a avaliar se a perda de fôlego da economia está se tornando mais ampla e consistente, condição importante para que o Banco Central tenha maior segurança para avançar no processo de flexibilização monetária.
Por fim, o mercado acompanha a conclusão da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos sob a Seção 301, que pode resultar na imposição de uma tarifa adicional de até 25% sobre produtos brasileiros, com possibilidade de alíquotas menores em alguns setores. Embora o governo ainda busque uma última rodada de negociações, a reversão completa da medida é considerada pouco provável, e os esforços passaram a se concentrar na ampliação da lista de exceções, especialmente para produtos estratégicos aos próprios Estados Unidos, como itens agropecuários, aeronaves e determinados insumos industriais. A decisão final deverá ter forte componente político e pode representar uma nova fonte de incerteza para as exportações, a atividade econômica e os ativos brasileiros.
· 01:49 — A sua primeira participação
A inflação americana de junho surpreendeu positivamente, com queda de 0,4% no índice cheio e estabilidade do núcleo, levando a taxa anual para 3,5% e reduzindo de forma relevante as apostas em uma elevação dos juros pelo Federal Reserve já em julho. A melhora refletiu principalmente a forte queda dos preços de energia, enquanto a desaceleração da inflação de habitação e a ausência de pressões mais disseminadas em bens e serviços também trouxeram algum alívio.
Ainda assim, a retomada das tensões no Oriente Médio e a nova alta do petróleo levantam dúvidas sobre a continuidade do movimento, reforçando a percepção de que um único dado favorável não é suficiente para confirmar uma trajetória sustentada de desinflação.
Em seu primeiro depoimento ao Congresso, Kevin Warsh adotou um tom cauteloso e reforçou que a estabilidade de preços permanece como a principal prioridade do Fed. Segundo ele, a surpresa positiva do CPI não representa “missão cumprida”, e o banco central continuará avaliando a evolução dos dados antes de alterar sua postura. Warsh também reafirmou a independência da instituição e defendeu mudanças na comunicação e no regime de política monetária, enquanto outros dirigentes, como Austan Goolsbee, pediram uma sequência mais longa de indicadores favoráveis. A atenção agora se volta para o PPI e o Livro Bege, que ajudarão a avaliar a persistência das pressões inflacionárias e o ritmo da atividade econômica.
· 02:37 — Bom começo de temporada
As bolsas americanas encerraram a terça-feira com desempenho positivo, sustentadas pelos resultados acima das expectativas dos principais bancos, apesar da forte queda da IBM. O Dow Jones avançou 0,02%, o S&P 500 subiu 0,4% e o Nasdaq ganhou 0,9%. JPMorgan, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo e Goldman Sachs registraram, juntos, US$ 49 bilhões em lucros no trimestre, impulsionados por receitas recordes em negociação de ações, maior atividade de banco de investimento e negócios ligados à expansão da infraestrutura de inteligência artificial.
O JPMorgan obteve US$ 6 bilhões com operações em ações, enquanto o Goldman Sachs alcançou US$ 7,42 bilhões, novo recorde do setor. Apesar do desempenho robusto, Jamie Dimon alertou para riscos relacionados às tensões geopolíticas, à inflação persistente, aos déficits fiscais e aos preços elevados dos ativos.
Em sentido oposto, as ações da IBM despencaram mais de 25%, na maior queda da companhia desde pelo menos 1968, após a receita de US$ 17,2 bilhões ficar abaixo dos US$ 17,86 bilhões esperados. A empresa atribuiu parte da frustração à mudança nas prioridades de investimento dos clientes, que vêm direcionando mais recursos para servidores, chips de memória e infraestrutura de IA, reduzindo o espaço para mainframes e softwares tradicionais. O episódio reforçou a crescente diferenciação entre vencedores e perdedores da transformação tecnológica.
Ao mesmo tempo, a ASML trouxe perspectivas positivas para a demanda por equipamentos de semicondutores, enquanto a SK Hynix avançou quase 10% em Seul, embora aumentem os alertas sobre valuations elevados e possível descolamento dos fundamentos em algumas ações ligadas à IA. A temporada de balanços prossegue com BlackRock, Morgan Stanley e outras grandes companhias, que deverão oferecer novos sinais sobre a força da economia, do crédito e do ciclo global de investimentos em inteligência artificial.
· 03:26 — A volta do TACO?
Donald Trump abandonou, apenas um dia depois, a proposta de cobrar uma taxa de 20% sobre as cargas transportadas pelo Estreito de Ormuz, após pressão de aliados do Golfo e forte ceticismo de especialistas, representantes do setor e organismos internacionais quanto à viabilidade econômica e jurídica da medida.
O plano foi substituído pela promessa de novos acordos comerciais e investimentos nos Estados Unidos, reduzindo um risco adicional ao comércio marítimo e levando o petróleo a devolver parte dos ganhos. O recuo, porém, não representou uma melhora nas relações com o Irã. Washington retomou o bloqueio naval a portos iranianos, ampliou as sanções e manteve os ataques militares, enquanto Teerã respondeu contra bases americanas e aliados na região. Nesta manhã, há relatos de novos ataques na região.
A escalada também expôs divergências sobre o memorando de entendimento firmado no mês anterior. Enquanto os Estados Unidos interpretam o compromisso iraniano de garantir passagem segura como uma defesa da liberdade plena de navegação, Teerã parece considerar o texto uma confirmação de sua influência sobre o estreito e sobre quais embarcações podem transitar.
Além disso, ameaças iranianas de atingir outros corredores estratégicos elevaram o risco de abertura de um segundo front logístico, possivelmente envolvendo o Bab el-Mandeb. Um bloqueio simultâneo dessas duas rotas colocaria sob pressão o comércio global de petróleo, gás natural liquefeito, fretes e seguros, mantendo elevado o risco geopolítico e a volatilidade dos mercados.
· 04:14 — Uma abaixo do esperado
A economia chinesa cresceu 4,3% no segundo trimestre de 2026, desacelerando em relação aos 5,0% dos três primeiros meses e ficando levemente abaixo das expectativas. Ainda assim, o avanço de 4,7% no primeiro semestre permanece dentro da meta oficial de crescimento entre 4,5% e 5,0%.
Os dados de junho trouxeram sinais mais favoráveis, com vendas no varejo e produção industrial acima do esperado, mas o investimento continua sendo o principal ponto fraco: o investimento em ativos fixos recuou 5,7% no acumulado do ano, enquanto o setor imobiliário registrou queda de 18%. O quadro reforça a leitura de uma economia em duas velocidades, sustentada por exportações, indústria e tecnologia, mas ainda limitada pela fraqueza do consumo, do investimento privado e do mercado imobiliário.
Para os mercados, os números reduzem a urgência por um amplo pacote de estímulos, permitindo que Pequim mantenha uma abordagem gradual e direcionada. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de rotação nos mercados asiáticos, com investidores reduzindo a exposição a ações de inteligência artificial mais valorizadas e buscando setores defensivos e ativos mais baratos.
A forte volatilidade nas empresas de tecnologia, as saídas de recursos de fundos do setor e o aumento da oferta de ações reforçam os riscos de excesso de posicionamento. Embora dados mais benignos de inflação nos Estados Unidos tenham aliviado temporariamente as preocupações com juros, a continuidade das tensões no Oriente Médio e a dependência asiática de energia importada mantêm elevado o risco de novas oscilações.
· 05:02 — Meta acelera na IA e transforma escala em vantagem competitiva
A Meta avançou em sua estratégia para reduzir a distância em relação à OpenAI e à Anthropic com o lançamento do Muse Spark 1.1, nova versão de seu modelo de inteligência artificial voltada a tarefas agênticas e multimodais. Segundo a companhia, a atualização apresentou ganhos relevantes em programação, uso de ferramentas, interação com computadores e compreensão de diferentes formatos de informação, além de ter sido disponibilizada por meio de uma API para desenvolvedores.
A estratégia de preços mais agressiva defendida por Mark Zuckerberg pode ampliar a adoção da solução e aumentar a pressão competitiva sobre os modelos rivais. Ao mesmo tempo, a ampla base de usuários de Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Meta AI oferece à empresa uma vantagem relevante de distribuição, escala e integração de novas funcionalidades.
O movimento reforça a percepção de que a Meta busca transformar seus elevados investimentos em infraestrutura e inteligência artificial em produtos mais competitivos, maior engajamento e novas fontes potenciais de receita. A companhia parte de uma posição financeira robusta: no primeiro trimestre de 2026, a receita avançou 33% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando US$ 56,3 bilhões, enquanto sua família de aplicativos atingiu 3,56 bilhões de usuários ativos diários e manteve forte expansão da atividade publicitária.
Embora a concorrência permaneça intensa e o elevado nível de investimentos exija disciplina na execução, os avanços do Muse Spark 1.1 sugerem que a Meta começa a converter sua capacidade financeira e tecnológica em soluções mais competitivas. Nesse contexto, mantemos uma visão construtiva para as ações da companhia, negociadas na Nasdaq sob o ticker META e acessíveis no Brasil por meio dos BDRs M1TA34.