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Crypto Pulse

O maior comprador de Bitcoin (BTC) está vendendo, e o mercado agradece: não, você não leu errado

A venda de mais de 3.500 bitcoins (BTC) pela Strategy, ideia aparentemente alarmante a princípio, acabou reduzindo um dos riscos que mais preocupavam o mercado cripto; entenda o porquê

Por Luis Kuniyoshi

12 jul 2026, 15:00

Bitcoin, BTC, criptomoedas, cripto

(Imagem: TheDigitalArtist/Pixabay)

O ambiente para o Bitcoin (BTC) apresentou sinais de melhora nesta semana, embora ainda seja cedo para falar em uma mudança de tendência. O mercado de trabalho americano perdeu força, o petróleo devolveu parte da alta provocada pelo conflito no Oriente Médio e a menor pressão sobre as expectativas de juros permitiu que o BTC voltasse a se estabelecer acima dos US$ 60 mil, região que vínhamos destacando como a principal referência técnica do momento.

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Os fatores que justificam uma postura cautelosa, contudo, continuam presentes. A inflação americana permanece distante da meta, Donald Trump voltou a colocar em dúvida a continuidade do cessar-fogo com o Irã e os ETFs de Bitcoin, após ensaiarem uma recuperação no início do mês, registraram novas saídas líquidas nos últimos dois pregões.

Foi nesse ambiente que a Strategy, maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo, realizou uma operação que, até pouco tempo atrás, representava um dos principais temores do mercado: a venda de 3.588 BTC. O resultado, porém, foi diferente do que muitos poderiam imaginar. A negociação foi absorvida sem provocar estresse nos preços, e o Bitcoin encerrou o dia em alta.

Nesta edição, explicamos por que uma venda aparentemente alarmante acabou reduzindo um dos riscos que mais preocupavam.

Um passo para trás para, depois, dar dois adiante

Na edição anterior, mostramos que a Strategy havia anunciado uma nova política de gestão de capital, baseada na formação de reservas em dólar, na recompra de ações e, no ponto mais sensível, na autorização formal para vender parte de seus bitcoins.

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Nesta semana, o plano foi colocado em prática. A reação dos preços ao primeiro teste oferece informações importantes sobre as condições atuais do mercado. Antes de analisar a operação, no entanto, é preciso entender por que a situação havia se tornado delicada e como a companhia passou a ocupar uma posição tão relevante dentro do ecossistema do Bitcoin.

O que é a Strategy, e por que ela importa tanto

A Strategy, antiga MicroStrategy, é uma empresa listada na Nasdaq que transformou seu balanço em uma grande reserva de Bitcoin. A companhia foi pioneira no modelo atualmente conhecido como tesouraria de ativos digitais: utilizar a estrutura de uma empresa de capital aberto para captar recursos por meio da emissão de ações, dívidas e outros instrumentos financeiros, direcionando posteriormente esse capital para a compra de BTC.

Atualmente, a companhia possui mais de 840 mil bitcoins, a maior reserva corporativa do mundo, e durante meses atuou como uma das principais fontes de demanda pelo ativo.

A lógica que sustenta esse modelo é relativamente simples. Durante os ciclos de valorização do Bitcoin, os investidores costumam aceitar pagar pelas ações da empresa um valor superior ao de suas reservas. Esse prêmio reflete a expectativa de que a Strategy continuará captando recursos e ampliando sua posição.

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Com as ações valorizadas, a companhia consegue emitir novos papéis em condições favoráveis, utilizar os recursos para adquirir mais BTC e, assim, reforçar a dinâmica de valorização. Trata-se de uma estrutura particularmente eficiente em períodos de alta.

As fragilidades aparecem quando o ativo que sustenta a operação entra em queda, como vem ocorrendo desde o pico registrado em outubro, após uma correção de aproximadamente 50% no preço do Bitcoin.

Embora o valor das reservas diminua, as obrigações da empresa permanecem. Dividendos, juros e demais compromissos financeiros continuam vencendo independentemente da cotação do BTC. Nesse momento, a principal questão deixa de ser apenas quanto as ações podem valer e passa a ser se a companhia possui recursos suficientes para honrar seus pagamentos sem precisar liquidar uma parcela relevante de suas reservas.

A discussão, portanto, deixa o campo tradicional da avaliação de ações e se aproxima de uma análise de crédito.

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Uma métrica ajuda a resumir essa mudança. O mercado acompanha a relação entre o valor da Strategy em bolsa e o valor líquido dos bitcoins mantidos em seu balanço, após o desconto de suas obrigações. Essa métrica é conhecida como mNAV.

Quando o mNAV permanece acima de 1, os investidores atribuem um prêmio à estrutura da companhia, facilitando novas captações. Abaixo desse patamar, a sinalização se inverte: a empresa passa a valer menos do que o valor líquido de suas reservas, tornando a emissão de novas ações menos atrativa para os acionistas justamente em um momento de maior necessidade de caixa.

Nas últimas semanas, o indicador caiu abaixo de 1 pela primeira vez, limitando uma das principais fontes de financiamento utilizadas pela Strategy.

O papel que virou termômetro

Para reduzir a dependência da ação ordinária, Michael Saylor, fundador da companhia, desenvolveu outras formas de captação. Entre elas estão as ações preferenciais, instrumentos que oferecem aos investidores maior proteção dentro da estrutura de capital e pagamentos periódicos em dinheiro.

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Para a Strategy, esses papéis representam uma alternativa para levantar recursos sem ampliar imediatamente a diluição dos acionistas ordinários em condições desfavoráveis.

O principal instrumento dessa categoria é a STRC. O papel foi estruturado para negociar próximo a um valor de referência de US$ 100 e pagar dividendos mensais com taxa ajustável — em junho, equivalente a aproximadamente 12% ao ano.

O mecanismo busca produzir um efeito de estabilização. Caso a STRC caia para US$ 90, por exemplo, o mesmo pagamento passa a representar um rendimento proporcionalmente maior para quem adquire o papel no mercado. Em condições normais, esse retorno adicional tende a atrair compradores e aproximar novamente a cotação do valor de referência.

Essa dinâmica, no entanto, depende diretamente da confiança dos investidores na capacidade de pagamento da empresa.

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Quando o preço cai por uma distorção pontual, o rendimento mais elevado pode representar uma oportunidade. Quando a desvalorização decorre de dúvidas sobre a sustentabilidade da estrutura, o aumento do retorno exigido passa a sinalizar maior percepção de risco.

Foi o que começou a aparecer nas últimas semanas. A STRC, criada para funcionar como uma das camadas mais estáveis do balanço, aproximou-se de suas mínimas históricas e passou a acompanhar a deterioração observada nas ações ordinárias.

A combinação desses movimentos alterou a avaliação do mercado.

A queda isolada das ações ordinárias poderia ser interpretada como uma consequência natural da elevada sensibilidade da Strategy ao preço do Bitcoin. A deterioração simultânea das preferenciais, porém, sugeria que os investidores não estavam apenas revendo as perspectivas de valorização da companhia, mas também questionando sua capacidade de honrar compromissos financeiros sem recorrer à venda de BTC.

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Esse era o principal risco. Não necessariamente pela dimensão de uma operação isolada, mas pela possibilidade de a maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo ser obrigada a liquidar reservas de maneira desordenada justamente quando o ativo tentava defender a região dos US$ 60 mil.

Caso essa percepção se consolidasse, a expectativa de novas vendas poderia, por si só, ampliar a pressão sobre as cotações.

O teste de 6 de julho

Foi esse risco que a empresa procurou enfrentar.

Em 6 de julho, a Strategy vendeu 3.588 BTC para financiar o pagamento de dividendos associados às suas estruturas de capital. Após a operação, a companhia permaneceu com 843.775 bitcoins e US$ 2,55 bilhões em reservas denominadas em dólar.

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A venda ocorreu dentro da política anunciada duas semanas antes, com finalidade definida e parâmetros previamente comunicados. O impacto sobre o mercado foi limitado: o Bitcoin absorveu a oferta e encerrou o dia em alta.

A diferença entre esse resultado e o cenário de estresse está na previsibilidade.

Uma operação inesperada, sem explicações ou critérios conhecidos, poderia ser interpretada como sinal de dificuldade financeira. Uma transação realizada dentro de uma política formal foi compreendida como uma medida de administração de liquidez.

A Strategy deixou de representar uma fonte permanente e incondicional de compras, mas substituiu uma incerteza ampla por um processo mais organizado. A companhia passou a contar com recursos segregados para suas obrigações, regras para eventuais recompras e critérios estabelecidos para novas vendas de BTC.

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A STRC deve continuar funcionando como um dos principais indicadores da percepção de risco em torno da empresa. Se o Bitcoin recuar e a preferencial permanecer estável, o movimento tende a ser interpretado como uma oscilação própria do ativo. Caso ambos voltem a se deteriorar simultaneamente, será um sinal de que o risco de crédito da Strategy voltou a ganhar relevância.

Por ora, contudo, o primeiro teste foi positivo, mesmo em meio a isso, as ações preferenciais voltaram a subir. Ao demonstrar que consegue vender uma parcela de suas reservas de maneira planejada, financiar suas obrigações e preservar a estabilidade do mercado, a Strategy reduziu um importante risco de cauda: o de ser forçada a liquidar bitcoins de forma desordenada.

STRC/USD

Fonte: Tradingvew

Esse risco não desapareceu definitivamente, mas deixou de ser uma ameaça difusa e sem parâmetros conhecidos. A maior previsibilidade sobre a gestão de caixa da companhia reduz uma fonte relevante de incerteza que vinha pesando sobre o próprio Bitcoin.

Entre o preço atrativo e o momento adequado

Se houve melhora, mas ainda não uma reversão de tendência, qual deve ser a postura do investidor? Em nossa visão, a resposta varia de acordo com o horizonte considerado.

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Para quem avalia o Bitcoin em uma perspectiva de vários anos, a correção de aproximadamente 50% desde o topo levou o ativo a uma região que consideramos atrativa para aportes fracionados.

A estratégia consiste em construir posição gradualmente, por meio de compras distribuídas ao longo do tempo, sem depender da identificação precisa do fundo do mercado. Não existe garantia de que os US$ 60 mil permanecerão como suporte, mas uma alocação progressiva reduz a dependência de acertar o momento exato da entrada e transfere maior peso para o prazo e a disciplina.

Para o restante do mercado, especialmente as altcoins, que normalmente amplificam os movimentos do Bitcoin, o ambiente ainda recomenda gestão de risco em vez de aumento agressivo da exposição.

É essa abordagem que a carteira Crypto Momentum, disponível na plataforma do BTG Pactual, busca executar de maneira automatizada: ampliar a alocação quando os modelos identificam uma tendência favorável e elevar a parcela em caixa quando as condições se deterioram, como ocorre atualmente.

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Quando os indicadores apontarem uma recuperação mais consistente do apetite por risco, a própria estratégia voltará a aumentar sua exposição, buscando aproveitar ativos negociados a preços mais descontados.

Conheça a carteira Crypto Momentum aqui

Analista de criptomoedas na Empiricus Research.