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A semana começa com os mercados globais pressionados por três vetores principais: a nova alta do petróleo, a expectativa de aperto monetário e a correção das ações ligadas à inteligência artificial.
O Brent voltou a superar US$ 108 por barril após o adiamento das negociações sobre o Estreito de Ormuz, a intensificação dos ataques no Oriente Médio e o fechamento preventivo de um importante oleoduto saudita. Ao mesmo tempo, o debate sobre uma possível desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA pesou sobre o setor de tecnologia, provocando quedas relevantes nos futuros do Nasdaq e nas ações de empresas mais expostas ao tema.
O principal foco da semana será a sequência de decisões de política monetária. Na quarta-feira, o Federal Reserve deve elevar os juros após a surpresa no núcleo da inflação e a renovada pressão dos preços de energia, enquanto o Copom decide a trajetória da Selic no Brasil. Na quinta-feira, será a vez do Banco da Inglaterra, e o Banco do Japão encerra a semana com a possibilidade de uma nova alta, em uma decisão particularmente relevante para o iene e para o carry trade global, estratégia baseada na captação de recursos em moedas de juros baixos para aplicação em mercados com taxas mais elevadas.
· 00:53 — Uma semana com corte
O mercado brasileiro encerrou a semana passada em tom mais cauteloso. O Ibovespa recuou 0,56% na sexta-feira, aos 187.207 pontos, após a forte valorização dos pregões anteriores, embora ainda tenha acumulado alta de 1,11% na semana. O dólar avançou 0,44% no dia, para R$ 5,1250, mas permaneceu em queda no acumulado de setembro.
A atenção agora se volta para a reunião do Copom, que deve reduzir a Selic em 25 pontos-base, para 13,75%, em um ambiente de inflação mais favorável, mas ainda cercado por riscos relevantes. O IPCA de agosto recuou 0,32%, levando a inflação acumulada em 12 meses de 4,44% para 4,22%, com contribuição importante da queda temporária da energia elétrica e dos alimentos.
Ainda assim, os serviços subjacentes seguem pressionados, enquanto fatores como o petróleo acima de US$ 108, o possível impacto do El Niño sobre os preços dos alimentos e a manutenção de juros globais elevados reforçam a necessidade de cautela. Por isso, mais do que o corte em si, já amplamente esperado, o mercado deve concentrar atenção na comunicação do Banco Central e nos sinais sobre a possibilidade de novos ajustes até o fim do ano.
Ao mesmo tempo, a política voltou a ganhar espaço relevante na formação dos preços dos ativos. O chamado rali eleitoral vinha sendo sustentado pela percepção de maior competitividade de uma candidatura reformista, mas a crise institucional em Brasília aumentou o ruído político e interromperam parte desse movimento na sexta-feira. Para a eleição em si, a disputa segue bastante aberta e sujeita a episódios de maior volatilidade, especialmente porque as incertezas em torno da política econômica do próximo governo tendem a ganhar peso crescente nas decisões de investimento e, indiretamente, também na condução da política monetária.
· 01:41 — Na espera de uma alta…
Nos Estados Unidos, a inflação americana voltou a pressionar o Federal Reserve às vésperas da reunião desta semana. O CPI de agosto avançou 0,40% no mês e 3,40% em doze meses, em linha com o consenso no índice cheio, enquanto o núcleo subiu 0,29%, acima dos 0,20% esperados. A principal surpresa veio dos serviços, com aceleração do chamado supercore para 0,51%, maior variação desde janeiro, reforçando a percepção de que o processo de desinflação perdeu força.
Ao mesmo tempo, o choque de energia continua dificultando o quadro: o petróleo voltou a negociar acima de US$ 100 por barril, enquanto a gasolina subiu 3,9% no mês e 27,4% em um ano. Mesmo com um nowcast mais benigno para o PCE, o mercado passou a atribuir probabilidade próxima de 90% a uma alta de 25 pontos-base, que levaria a taxa para o intervalo entre 3,75% e 4,00%.
Com a alta de setembro praticamente precificada, o ponto central deixou de ser a decisão em si e passou a ser a sinalização de Kevin Warsh para os próximos meses. Essa incerteza aparece com clareza na curva de juros. Uma alta agora poderia, paradoxalmente, ajudar a estabilizar os Treasuries de prazo mais longo ao reforçar a credibilidade do Fed no combate à inflação. Já uma manutenção inesperada poderia ser interpretada como complacência e manter os juros longos sob pressão, sobretudo com a T-note de dez anos novamente próxima de 5%.
O Fed também atua sob forte pressão política, com Trump defendendo que os Estados Unidos tenham os menores juros do mundo, enquanto a Casa Branca afirma respeitar a independência de Warsh. Para o mercado, o foco agora estará menos na alta de 25 pontos-base e mais na capacidade do Fed de conter a inflação sem impor um aperto excessivo sobre a atividade, preservando a estabilidade necessária para que os investidores voltem a concentrar atenção nos lucros corporativos e nos vetores estruturais de crescimento, como a expansão da inteligência artificial.
· 02:37 — Nova onda de tensão
A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a colocar o petróleo no centro das atenções dos mercados. A reunião entre Irã e países do Golfo, que discutiria a criação de uma rota temporária de navegação pelo Estreito de Ormuz, foi adiada sem nova data, frustrando uma das principais iniciativas diplomáticas para aliviar as restrições ao tráfego de energia.
Ao mesmo tempo, os combates no Iêmen se intensificaram, com os houthis ampliando seu controle sobre áreas estratégicas do Mar Vermelho, incluindo a ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb, por onde passa cerca de 12% do comércio mundial. A pressão também alcançou rotas alternativas: a Arábia Saudita fechou preventivamente o oleoduto Leste-Oeste após ataques com drones, enquanto suas exportações de petróleo já haviam recuado cerca de um terço em agosto.
O impacto sobre os mercados foi imediato. O Brent voltou a negociar acima de US$ 108 por barril, enquanto o WTI avançou para perto de US$ 103, refletindo o aumento do risco sobre duas das principais rotas globais de escoamento de petróleo. A alta da energia começou a se transmitir para outros ativos, pressionando os futuros das bolsas americanas às vésperas de uma semana decisiva para a política monetária global, com a reunião do Federal Reserve no centro das atenções.
Além do efeito inflacionário, as interrupções no fornecimento também ampliam o poder de barganha do Irã nas negociações com os Estados Unidos, reforçando a dimensão geopolítica do choque e elevando a incerteza em torno da trajetória dos preços do petróleo nos próximos meses.
· 03:24 — Perigo no horizonte
O debate sobre segurança em inteligência artificial ganhou uma nova dimensão porque, desta vez, os alertas partem dos próprios líderes da indústria. Dario Amodei, CEO da Anthropic, defendeu uma desaceleração no desenvolvimento dos modelos mais avançados, argumentando que suas capacidades têm evoluído em ritmo mais rápido do que os mecanismos de controle e segurança. Sam Altman e Elon Musk manifestaram apoio a parte dessas preocupações, enquanto a Anthropic relatou episódios de uso indevido envolvendo propaganda, pesquisas relacionadas a armas biológicas, sistemas militares e até aplicações associadas ao conflito com o Irã.
A preocupação central é que, à medida que os modelos se tornam mais autônomos, sofisticados e acessíveis, os riscos deixam de permanecer apenas no campo teórico e passam a envolver usos concretos, com possíveis consequências para a segurança nacional, a cibersegurança e a estabilidade geopolítica.
Ao mesmo tempo, o avanço dessa agenda regulatória também precisa ser analisado sob uma perspectiva econômica e competitiva. Grandes laboratórios, como OpenAI e Anthropic, têm incentivos para apoiar regras mais rígidas que elevem os custos de conformidade, uma vez que estruturas regulatórias mais exigentes tendem a favorecer empresas com escala, capital e capacidade jurídica suficientes para absorvê-las. Em contrapartida, essas mesmas exigências podem dificultar a atuação de concorrentes menores e de iniciativas baseadas em modelos de código aberto.
O debate, portanto, não se restringe à segurança: envolve também estrutura de mercado, concentração e poder regulatório. A eventual aprovação de mecanismos como o AI Kill Switch Act ampliaria a capacidade de supervisão do governo sobre modelos avançados, mas também poderia reforçar as vantagens competitivas dos maiores participantes do setor.
Há ainda uma dimensão geopolítica que torna qualquer desaceleração particularmente difícil. Estados Unidos e China disputam a liderança tecnológica em inteligência artificial, e os próprios executivos americanos reconhecem que uma redução excessiva do ritmo de desenvolvimento nos Estados Unidos poderia abrir espaço para Pequim assumir a dianteira. As acusações de que laboratórios chineses teriam utilizado técnicas de destilação para reproduzir capacidades de modelos americanos ilustram como a fronteira entre inovação, segurança e competição estratégica está se tornando cada vez mais tênue.
A discussão, portanto, deixa de ser apenas sobre como tornar a IA mais segura e passa a envolver uma tensão estrutural entre prudência tecnológica e liderança estratégica num contexto de fragmentação geopolítica. Às vésperas de novas conversas entre Trump e Xi Jinping, o tema tende a ganhar ainda mais relevância tanto para a política industrial quanto para a segurança nacional dos dois países.
· 04:18 — A cúpula do final de semana
A cúpula do BRICS em Nova Délhi reforçou a ambição do bloco de ampliar sua relevância política, econômica e tecnológica em uma ordem internacional cada vez mais fragmentada. O encontro teve como um de seus principais destaques a reaproximação entre Xi Jinping e Narendra Modi, no primeiro encontro de Xi em solo indiano em sete anos, após um período prolongado de tensões fronteiriças e desconfiança estratégica.
China e Índia sinalizaram disposição para avançar em temas como desequilíbrios comerciais, cadeias de suprimentos e acesso a mercados, enquanto Modi articulou uma posição conjunta em defesa de maior moderação no conflito no Oriente Médio. Xi, por sua vez, procurou ampliar o alcance da cooperação dentro do grupo ao propor a criação de uma “comunidade” do BRICS voltada à inteligência artificial de código aberto, em mais uma iniciativa destinada a aumentar a influência chinesa sobre padrões tecnológicos e fóruns multilaterais.
As consequências desse movimento são relevantes, sobretudo porque o BRICS vem deixando gradualmente de atuar apenas como um fórum de coordenação política para desenvolver instrumentos mais concretos de redução da dependência em relação aos Estados Unidos e ao dólar. O uso crescente de moedas nacionais nas transações comerciais, a expansão de sistemas alternativos de pagamentos e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento apontam para uma estratégia gradual de “desdolarização”.
Esse processo ainda está distante de ameaçar a posição central da moeda americana no sistema financeiro global, mas já contribui para reduzir a exposição dos países-membros a sanções e à volatilidade associada ao sistema financeiro dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o bloco busca ocupar espaços deixados por Washington em regiões como o Oriente Médio, ainda que a China não disponha, ao menos por enquanto, de uma presença militar comparável à americana.
O resultado é a consolidação de um sistema internacional mais multipolar, no qual o BRICS ganha relevância como plataforma de coordenação entre potências médias e emergentes. Ainda assim, esse avanço não elimina as limitações internas do grupo. Divergências estratégicas entre seus membros, rivalidades históricas e interesses econômicos nem sempre convergentes continuam restringindo sua capacidade de atuação coordenada.
Mesmo assim, a evolução recente do bloco mostra que sua importância tende a crescer não apenas como contraponto político ao Ocidente, mas também como espaço de construção de mecanismos financeiros, tecnológicos e diplomáticos paralelos à ordem internacional liderada pelos Estados Unidos.
· 05:04 — O mundo se rearma sem Washington
O rearmamento global avança justamente entre países que, durante décadas, confiaram na proteção estratégica dos Estados Unidos. O recente acordo entre Índia e França para a compra de 114 caças Rafale e para o desenvolvimento conjunto de uma nova geração de aeronaves ilustra bem esse movimento.
Nova Délhi reforça sua força aérea e, ao mesmo tempo, impulsiona sua indústria de defesa, enquanto Paris encontra um parceiro disposto a financiar seu projeto após o enfraquecimento da cooperação com Alemanha e Espanha no programa FCAS (Sistema Aéreo de Combate Futuro). As divergências entre franceses e alemães, tanto em relação aos requisitos militares quanto à divisão industrial do projeto, evidenciam como, mesmo diante de ameaças comuns, a Europa ainda encontra dificuldades para transformar o aumento dos gastos com defesa em verdadeira autonomia estratégica.
Esse movimento, porém, está longe de se limitar à Europa. Japão, Polônia, Coreia do Sul, Arábia Saudita e outras potências médias vêm ampliando seus orçamentos militares, desenvolvendo novas capacidades e buscando alianças alternativas diante da percepção de que a proteção americana já não pode ser tratada como algo garantido. Trump acelerou esse processo ao colocar em dúvida compromissos históricos dos Estados Unidos com seus aliados, mas a erosão dessa confiança antecede seu governo e também passa por episódios como a retirada do Afeganistão e a guerra do Iraque.
O resultado é uma ordem internacional na qual antigos aliados de Washington passam a investir mais em capacidade militar própria e a construir novos arranjos regionais, como o acordo de defesa entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia, ao mesmo tempo em que procuram reconstruir bases industriais capazes de sustentar esse esforço de maneira mais independente.
A consequência é uma ordem internacional mais fragmentada e, potencialmente, mais instável. O enfraquecimento da hegemonia americana reduz a dependência em relação a Washington e obriga outros países a assumir maior responsabilidade por sua própria segurança. Ao mesmo tempo, porém, multiplica centros de poder, alianças paralelas e capacidades militares em um ambiente marcado por maior nacionalismo e menor coordenação internacional.
Isso não significa que uma guerra mundial seja iminente. As instituições multilaterais continuam relevantes, e Estados Unidos e China ainda demonstram algum interesse em evitar um confronto direto. Ainda assim, o cenário aponta para uma era em que conflitos regionais podem ganhar escala com maior facilidade, justamente porque há menos capacidade de coordenação global e nenhuma potência isolada com autonomia suficiente para impor ordem de forma incontestável.
Essa tendência continua abrindo oportunidades em companhias ligadas aos segmentos de defesa, aeroespacial e segurança nacional. ETFs temáticos, como o Select STOXX Europe Aerospace & Defense (EUAD), o Global X Defense Tech (SHLD) e o First Trust Indxx Aerospace & Defense (MISL), oferecem formas eficientes de capturar esse movimento por meio de uma exposição diversificada a empresas potencialmente beneficiadas pelo aumento estrutural dos gastos militares.
No mercado brasileiro, alternativas como o BDR do iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BAER39) e o SHLD39 cumprem função semelhante, permitindo acesso mais simples à temática. Ainda assim, como em qualquer tese temática, a disciplina de alocação permanece essencial. Exposições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com limite agregado próximo de 5% para os temas mais disruptivos e sujeitos a maior estresse, tendem a oferecer um equilíbrio adequado entre potencial de retorno, diversificação e controle de risco, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente ao setor.