(Imagem: iStock/Edson Souza)
Os mercados globais iniciaram a semana em tom de alívio, sustentados pela expectativa de retomada das negociações entre Estados Unidos e Irã. Donald Trump afirmou ter suspendido uma nova ofensiva militar após pedidos de aliados do Golfo e indicou que as conversas poderiam avançar em torno da reabertura do Estreito de Ormuz e da limitação do programa nuclear iraniano. Teerã, contudo, negou a existência de negociações diretas e imediatas com Washington, informando que mantém apenas tratativas com Omã para a definição de uma nova rota de navegação.
A possibilidade de uma solução diplomática reduziu, ao menos temporariamente, o risco de uma nova escalada e pressionou os preços do petróleo, embora os incidentes marítimos registrados na região mantenham o cenário cercado de incertezas. A Opep+ também contribuiu para a queda das cotações ao confirmar um aumento de aproximadamente 188 mil barris por dia na produção a partir de setembro, concluindo a reversão dos cortes voluntários iniciados em 2023.
Outro destaque foi a confirmação de uma intervenção cambial coordenada entre Estados Unidos e Japão para sustentar o iene, a primeira operação conjunta desse tipo em 15 anos. A participação americana ampliou a credibilidade da medida e provocou uma valorização relevante da moeda japonesa, embora parte desse movimento tenha sido devolvida ao longo do pregão.
· 00:53 — Questões internas
No Brasil, com o alívio momentâneo das tensões geopolíticas, as atenções se voltam para uma agenda doméstica intensa, liderada pela decisão do Copom na quarta-feira. O mercado atribui probabilidade integral a um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14% ao ano, mas permanece dividido quanto aos passos seguintes: parte dos investidores espera uma pausa, enquanto outra parcela ainda considera possível uma nova redução em setembro, que levaria a taxa básica para 13,75%.
A desaceleração da inflação, o IPCA-15 próximo de zero e os sinais de arrefecimento da atividade econômica reforçam a perspectiva de flexibilização monetária. Ainda assim, o quadro fiscal, o ambiente eleitoral e os riscos externos continuam limitando o espaço para um ciclo de cortes mais acelerado. Na última semana, o Ibovespa avançou 2,27% e encerrou a sexta-feira aos 177.999 pontos, enquanto o dólar fechou cotado a R$ 5,06 e acumulou queda de 1,81% no mês.
A temporada de balanços também ganha força, com Itaú Unibanco, Bradesco e Petrobras entre os principais destaques e uma ampla concentração de divulgações entre terça e quinta-feira. Paralelamente, a trajetória da dívida pública voltou ao centro das preocupações. A dívida bruta alcançou 81,9% do PIB em junho, o maior nível em mais de cinco anos, enquanto o custo médio da Dívida Pública Federal subiu para 12,68% ao ano.
O setor público também registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões, resultado pior que o esperado e pressionado principalmente pelo desempenho dos governos regionais. A combinação entre juros elevados, incerteza fiscal e aumento do prêmio de risco encarece o financiamento do governo e tende a exigir revisões mais negativas para a trajetória da dívida ao final de 2026.
· 01:49 — Agenda dominada
Nos Estados Unidos, a agenda da semana será dominada pelos dados do mercado de trabalho, que poderão ajudar a calibrar as expectativas para os próximos passos do Federal Reserve. O relatório oficial de empregos de julho, previsto para sexta-feira, deve mostrar a criação de 88 mil vagas, ante 57 mil em junho, com a taxa de desemprego permanecendo estável em 4,2%.
Antes disso, os investidores acompanharão o PMI industrial do ISM, o relatório JOLTS sobre vagas em aberto, a pesquisa ADP, o índice de serviços do ISM, a pesquisa do Fed sobre as condições de crédito e o levantamento de expectativas do consumidor conduzido pelo Fed de Nova York. Esses indicadores serão analisados à luz da reunião de julho do FOMC, interpretada pelo mercado como relativamente favorável a uma política monetária mais flexível, apesar dos votos de Lorie Logan, Beth Hammack e Neel Kashkari por uma elevação de 0,25 ponto percentual nos juros. A inflação vem apresentando sinais mais benignos, com menor pressão decorrente das tarifas e desaceleração dos custos de moradia, enquanto o mercado de trabalho permanece pouco aquecido.
A temporada de balanços seguirá como outro importante vetor para os mercados, sobretudo pela busca de evidências de que os elevados investimentos em inteligência artificial estão, de fato, se convertendo em crescimento de receitas, preservação de margens e geração de caixa. Entre os principais destaques da semana estão o primeiro balanço da SpaceX após sua abertura de capital, além dos resultados de Palantir, AMD, Disney, Uber, Eli Lilly, Airbnb e ConocoPhillips.
Após as entregas positivas de Microsoft e Amazon, que reforçaram a percepção de que a demanda por serviços de nuvem e inteligência artificial ainda supera a capacidade disponível, os investidores acompanharão com atenção os planos de investimento das empresas de semicondutores e tecnologia, o desempenho do consumo e a evolução dos gastos empresariais fora do universo de IA, que voltaram a ganhar força no segundo trimestre.
· 02:32 — Lucros fortes, mas mercado mais seletivo
A temporada de resultados do segundo trimestre nos Estados Unidos vem apresentando um desempenho amplamente positivo. Até 31 de julho, 61% das empresas do S&P 500 já haviam divulgado seus números, com 86% superando as estimativas de lucro por ação e 77% registrando receitas acima do consenso. O crescimento combinado dos lucros alcançou 47,4% na comparação anual, enquanto as receitas avançaram 14,1%.
Ainda assim, os dados agregados foram influenciados por ganhos extraordinários registrados por Alphabet e Amazon, relacionados a participações em empresas de inteligência artificial. Excluindo essas duas companhias, o crescimento dos lucros recuaria para 28,8%, permanecendo, contudo, em patamar robusto. A força da temporada também se mostra disseminada, já que dez dos onze setores apresentam expansão dos resultados, com destaque para energia, serviços de comunicação, consumo discricionário, tecnologia e materiais.
Entre as grandes companhias de tecnologia, o mercado passou a avaliar com maior rigor a capacidade de converter os elevados investimentos em inteligência artificial em crescimento de receita, preservação de margens e geração de caixa. Microsoft e Amazon apresentaram as entregas mais convincentes até aqui, sustentadas pela forte expansão de Azure e AWS, por uma demanda ainda superior à capacidade disponível e por boa visibilidade contratual.
A Meta manteve um crescimento robusto em publicidade, mas a forte elevação dos investimentos pressionou o fluxo de caixa livre. A Apple, por sua vez, demonstrou resiliência no consumo de tecnologia, com avanços expressivos nas receitas de iPhone, Mac e serviços. O setor financeiro também apresentou resultados favoráveis, com os grandes bancos superando as projeções, recuperação das receitas de negociação de ativos e de banco de investimento, melhora sequencial da margem financeira e qualidade de crédito ainda saudável.
A mensagem geral permanece construtiva, embora a temporada também reforce o aumento da seletividade do mercado. O consenso projeta crescimento dos lucros de 27,4% no terceiro trimestre, de 25,2% no quarto e de 29,1% no conjunto de 2026, enquanto o S&P 500 negocia a aproximadamente 19,6 vezes os lucros esperados para os próximos 12 meses. O índice não parece excessivamente caro diante da expansão projetada, mas oferece pouca margem para frustrações, revisões negativas de projeções ou investimentos que não apresentem retorno claro. Para o investidor, o ponto central deixa de ser apenas a exposição à inteligência artificial e passa a ser a capacidade de cada companhia de transformar essa tecnologia em crescimento recorrente, margens sustentáveis e geração consistente de caixa.
· 03:25 — Primeiro balanço
A SpaceX divulga nesta terça-feira seu primeiro balanço desde a abertura de capital, em um momento marcado por elevada incerteza em torno das projeções e por um potencial significativo de volatilidade para as ações. Avaliada em aproximadamente US$ 1,4 trilhão, a companhia atua em três grandes frentes de negócios: lançamentos espaciais, conectividade por meio da Starlink e inteligência artificial. Estima-se receita trimestral de US$ 6,9 bilhões e EBITDA, medida de geração operacional de resultados antes de juros, impostos, depreciação e amortização, de US$ 2,1 bilhões.
Ainda assim, as atenções deverão se concentrar especialmente na divisão de IA, que registrou receita de US$ 818 milhões, prejuízo operacional de US$ 2,5 bilhões e investimentos de US$ 7,7 bilhões no primeiro trimestre. Além do desempenho da Starlink e dos avanços no desenvolvimento do Starship, os investidores buscarão informações sobre os contratos de data centers com Anthropic e Google, as perspectivas da área de inteligência artificial para 2026 e 2027 e os planos de testar satélites em órbita.
Paralelamente, voltaram a ganhar força as especulações sobre uma possível aquisição da Tesla pela SpaceX, após o Wall Street Journal informar que executivos da montadora teriam sido orientados a preparar a separação de suas operações na China, embora Elon Musk tenha negado a notícia. Uma eventual combinação poderia reunir os diferentes negócios do empresário em uma única companhia de capital aberto, mas enfrentaria obstáculos relevantes, sobretudo em razão da exposição da SpaceX ao governo americano e da expressiva presença industrial e comercial da Tesla no mercado chinês.
O momento também seria importante do ponto de vista financeiro, uma vez que os primeiros períodos de restrição à venda das ações da SpaceX começam a expirar logo após a divulgação do balanço, ampliando a oferta potencial de papéis no mercado. Caso uma transação por meio de troca de ações esteja efetivamente em análise, realizá-la antes de uma eventual pressão vendedora sobre os papéis poderia ser mais favorável para a companhia.
· 04:11 — Mão amiga
Estados Unidos e Japão realizaram sua primeira ação coordenada em 15 anos para sustentar o iene, que havia recuado ao menor nível em quatro décadas frente ao dólar. A operação envolveu a compra da moeda japonesa pelo Tesouro americano, executada pelo Federal Reserve, e também contou com sinais de coordenação por parte da Coreia do Sul. O movimento contribuiu para a valorização do iene e foi apresentado por Donald Trump como um gesto de amizade.
Ainda assim, Washington também tinha interesses próprios na iniciativa, entre eles reduzir o risco de que o Japão precisasse vender títulos do Tesouro americano para financiar uma intervenção cambial e amenizar as críticas ao ganho de competitividade dos exportadores japoneses proporcionado por uma moeda excessivamente depreciada.
Para o governo de Sanae Takaichi, a intervenção ocorre em um momento político e econômico delicado, já que um iene mais forte pode ajudar a aliviar o custo de vida e reduzir a pressão sobre seus planos fiscais. Em contrapartida, os Estados Unidos podem buscar maior alinhamento do Japão em temas como defesa, investimentos e política externa.
Ainda assim, a ação cambial tende a produzir apenas um alívio temporário caso não seja acompanhada por medidas mais estruturais. Por isso, as atenções agora se voltam para o Banco do Japão e para a possibilidade de uma elevação dos juros em setembro, sobretudo se esse movimento ocorrer de forma coordenada com o Federal Reserve.
· 05:06 — Eli Lilly e a Próxima Fronteira dos GLP-1
A Eli Lilly permanece no centro de uma das teses mais relevantes da indústria farmacêutica: a expansão dos medicamentos da classe GLP-1. Atualmente associados sobretudo ao tratamento de diabetes e obesidade, esses produtos podem ampliar de forma significativa seu mercado potencial à medida que novas indicações terapêuticas sejam incorporadas, incluindo apneia do sono, doenças cardiovasculares, doença hepática gordurosa, dependência de substâncias e até Parkinson.
A combinação entre demanda crescente, capacidade produtiva ainda limitada e elevado poder de precificação cria uma dinâmica semelhante à observada no segmento de inteligência artificial, com potencial para sustentar taxas robustas de crescimento por vários anos.
A companhia já ocupa uma posição dominante, com cerca de 60% do mercado de medicamentos injetáveis, e vem ampliando rapidamente sua capacidade de geração de receitas e lucros. Para este ano, a expectativa é de faturamento próximo de US$ 31 bilhões, o que representaria crescimento de 36%, enquanto as projeções indicam que esse montante poderá dobrar até 2030.
Segundo algumas estimativas o mercado global de GLP-1 para diabetes e obesidade pode alcançar US$ 190 bilhões em 2035, impulsionado pelo aumento da penetração entre pacientes, pela ampliação da cobertura oferecida pelos planos de saúde e pela inclusão gradual desses tratamentos em programas públicos, como o Medicare.
Embora a concorrência deva se intensificar, especialmente com o avanço de medicamentos em comprimidos desenvolvidos por rivais como a Novo Nordisk, esse novo formato tende a contribuir para a expansão do mercado, e não necessariamente para a substituição dos tratamentos injetáveis. Para a Eli Lilly, o cenário combina liderança comercial, crescimento acelerado, ampliação das indicações terapêuticas e exposição a um mercado ainda pouco penetrado. Essa combinação sustenta uma visão construtiva para as ações LLY e, em especial, para o BDR LILY34, que oferece ao investidor brasileiro acesso a uma companhia bem posicionada para participar de uma das transformações estruturais mais importantes da indústria farmacêutica global.