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Os mercados globais operam em direções distintas nesta quinta-feira, ainda assimilando a decisão do Federal Reserve e a forte volatilidade registrada na sessão anterior. O Fed manteve os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% pela quinta reunião consecutiva, mas Kevin Warsh evitou oferecer sinais claros sobre os próximos passos da política monetária. A comunicação ambígua aprofundou a divisão entre os investidores e provocou uma acentuada inclinação da curva dos Treasuries. Ainda assim, os futuros de Nova York avançam moderadamente, enquanto as bolsas asiáticas e europeias apresentam desempenho misto.
A nova escalada do conflito no Oriente Médio permanece como uma importante fonte de incerteza. Os Estados Unidos realizaram uma operação de duas horas contra dezenas de instalações ligadas à Guarda Revolucionária do Irã, em resposta a ataques iranianos contra posições americanas no Golfo e na Jordânia. O conflito também começa a se espalhar para outras regiões, com ataques a navios próximos ao Egito e preocupações crescentes em torno das rotas do Mar Vermelho, do Mar Negro, do Mar de Azov e até do Canal do Panamá. Na agenda econômica, as atenções se concentram no PCE de junho e na primeira estimativa do PIB americano do segundo trimestre. Os dois indicadores poderão redefinir as expectativas para a trajetória dos juros nos Estados Unidos após a reunião do Fed.
· 00:54 — Sob pressão
No Brasil, o Ibovespa encerrou a quarta-feira em queda de 1,52%, retornando aos 173 mil pontos. O movimento refletiu a combinação entre o aumento da aversão ao risco no exterior, a decisão do Federal Reserve de manter os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano e a renovação das tensões no Oriente Médio. A alta superior a 7% do petróleo reforçou as preocupações com a inflação e com a trajetória das taxas de juros. No mercado doméstico, o desempenho negativo foi intensificado pela queda generalizada das ações dos bancos após a divulgação do resultado do Santander.
Na agenda desta quinta-feira, o principal destaque foi a Pnad de junho, que mostrou uma taxa de desemprego de 5,4%, em linha com as expectativas e abaixo da leitura anterior. Apesar da melhora, os dados recentes do Caged já indicam uma desaceleração gradual do ritmo de contratações e do crescimento dos salários. Também foi divulgado o IGP-M de julho, que registrou deflação de 1,16%, enquanto o mercado ainda aguarda os dados de crédito do Banco Central, a arrecadação federal e o resultado primário do governo central.
Embora as receitas continuem apresentando expansão robusta, apoiadas pelos tributos sobre consumo, lucros corporativos e importações, o crescimento das despesas discricionárias, incluindo a antecipação de gastos em razão do calendário eleitoral, segue pressionando as contas públicas. Na temporada de resultados, acompanhamos os números de Ambev e Usiminas antes da abertura, além dos balanços de Vale, Multiplan e EcoRodovias após o fechamento.
· 01:43 — Fed cada vez mais dividido, mercado sem bússola
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa básica de juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano, como esperado pelo mercado, mas em uma decisão marcada pela divisão dos votos por nove a três. Neel Kashkari, Lorie Logan e Beth Hammack defenderam uma elevação imediata de 25 pontos-base, reforçando o viés mais restritivo do Comitê e a percepção de que parte de seus integrantes permanece preocupada com a persistência da inflação.
O comunicado sofreu poucas alterações em relação à reunião anterior e voltou a destacar a resiliência da atividade econômica, a inflação ainda acima da meta de 2% e as incertezas associadas à guerra com o Irã. A principal divergência dentro do Fed parece estar na avaliação sobre a duração e a intensidade dos efeitos inflacionários provocados pelas tarifas, pela alta dos preços de energia e pelos investimentos em inteligência artificial.
A entrevista coletiva de Kevin Warsh, no entanto, transmitiu uma mensagem mais ambígua. Embora tenha reafirmado o compromisso do Fed com a estabilidade de preços, o presidente da instituição evitou antecipar qualquer decisão para setembro e ressaltou que a condução da política monetária continuará baseada na análise de um amplo conjunto de indicadores. Warsh também reconheceu que a elevação dos juros nominais e reais de longo prazo já representa um aperto relevante das condições financeiras, sugerindo que o próprio mercado pode realizar parte do trabalho da política monetária.
A ausência de uma orientação mais clara, porém, elevou a volatilidade: os rendimentos dos Treasuries de 30 anos chegaram a 5,14%, enquanto os títulos de dois anos recuaram para 4,23%, acentuando a inclinação da curva de juros. As bolsas, que inicialmente reagiram de forma positiva à manutenção das taxas, inverteram o movimento durante a coletiva, com quedas de 1,5% no S&P 500, 2,2% no Dow Jones e 1,7% no Nasdaq.
Os próximos indicadores serão decisivos para determinar se o Fed manterá os juros estáveis ou retomará o ciclo de aperto monetário nos próximos meses. O mercado acompanha hoje a divulgação do PCE de junho, principal referência de inflação utilizada pela autoridade monetária, com expectativa de desaceleração tanto do índice cheio quanto de seu núcleo, especialmente nos componentes de serviços. Também será apresentada a primeira estimativa do PIB americano do segundo trimestre, para a qual as projeções citadas variam entre um crescimento anualizado de aproximadamente 1,5% e 2,3%, com atenção especial ao desempenho do consumo das famílias e da demanda doméstica privada.
Após o fechamento dos mercados, Apple e Amazon divulgam seus balanços, que serão avaliados sobretudo pelo desempenho da computação em nuvem, pelas projeções de investimento e pela capacidade de converter os elevados gastos com inteligência artificial em crescimento de receita e geração de caixa.
· 02:34 — Prestação de Contas
A temporada de resultados das grandes empresas de tecnologia continua marcada por forte volatilidade e por uma cobrança crescente em relação ao retorno dos investimentos em inteligência artificial. A Meta decepcionou ao divulgar lucro abaixo das expectativas e elevar sua projeção de capex, o que levou suas ações a recuarem quase 10% nas negociações após o fechamento do mercado.
A Microsoft, por outro lado, superou as estimativas, reforçou a solidez de seus negócios de software e computação em nuvem e manteve inalterados seus planos de investimento. Ainda assim, o desempenho positivo da companhia não foi suficiente para aliviar a pressão sobre o setor de semicondutores, que permaneceu sob o impacto da revisão das elevadas expectativas associadas à IA.
Aprofundando a análise dos números divulgados ontem, a Meta registrou receita recorde de US$ 60,8 bilhões no segundo trimestre, alta de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada pelo crescimento de 27% de seu negócio de publicidade, beneficiado pelo uso de ferramentas de inteligência artificial. Apesar do avanço da receita, o lucro de US$ 6,18 por ação ficou abaixo das projeções, pressionado por uma despesa jurídica de US$ 2,4 bilhões, custos de rescisão de US$ 1,2 bilhão e um aumento de 67% nas despesas de pesquisa e desenvolvimento.
Os investimentos de capital cresceram 83%, alcançando US$ 31,08 bilhões, enquanto o fluxo de caixa livre recuou 91% na comparação anual. A companhia também elevou sua projeção de capex para 2026, agora estimada entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões, mas não apresentou detalhes suficientes sobre a futura monetização de sua capacidade computacional, ampliando as dúvidas dos investidores.
A Microsoft, por sua vez, apresentou um quadro mais favorável. O Azure superou, pela primeira vez, a marca de US$ 100 bilhões em receita anual, após crescer 41% no ano fiscal de 2026, enquanto a manutenção dos planos de investimento foi bem recebida pelo mercado. As atenções agora se voltam para Apple e Amazon, que representam estratégias bastante distintas diante da expansão da inteligência artificial.
Enquanto a Amazon prevê cerca de US$ 200 bilhões em despesas de capital em 2026 para ampliar a AWS e sua infraestrutura de IA, a Apple estima investimentos entre US$ 13 bilhões e US$ 14 bilhões, concentrando sua exposição em produtos de consumo e chips próprios. Esse contraste deverá ajudar o mercado a avaliar se a liderança na próxima fase da inteligência artificial dependerá principalmente da escala dos investimentos ou da capacidade de transformá-los em receitas, margens e geração de caixa.
· 03:21 — Peru à Direita e o Espelho Eleitoral da América do Sul
Nesta semana, Keiko Fujimori assumiu a Presidência do Peru após vencer uma eleição extremamente apertada, com a promessa de restaurar a ordem, conter o avanço do crime organizado e estimular o investimento privado em um país marcado por profunda instabilidade institucional (ela é a nona presidente peruana em apenas dez anos). Embora seu partido detenha a maior bancada no Congresso, não possui, isoladamente, o controle de nenhuma das Casas, o que preserva os riscos de fragmentação política e de dificuldades de governabilidade.
Sua vitória se insere em um movimento, ainda desigual, de fortalecimento das candidaturas conservadoras na América do Sul, impulsionado pela insatisfação dos eleitores com a insegurança, o baixo crescimento econômico e o desgaste das administrações tradicionais. Como Peru, Colômbia e Brasil atravessam processos eleitorais em 2026, o caso peruano ganha especial relevância para o investidor brasileiro: ele mostra que a demanda por ordem, a rejeição aos governos incumbentes e a capacidade de construir maiorias legislativas podem pesar tanto quanto os próprios programas econômicos, influenciando as expectativas em torno de reformas, da política fiscal e do comportamento dos ativos ao longo da campanha brasileira.
· 04:17 — Financiamento Circular da Infraestrutura de IA
A Nvidia vem ampliando seu papel no financiamento da infraestrutura de inteligência artificial ao assumir compromissos diretos com alguns de seus principais clientes e parceiros. A companhia assinou um contrato de locação com prazo de 15 anos para ocupar integralmente um data center de 1 gigawatt que a Hut 8 está construindo no Texas, onde deverão ser instaladas centenas de milhares de GPUs da própria Nvidia.
O compromisso inicial é estimado em US$ 19,6 bilhões e pode alcançar US$ 50 bilhões caso sejam exercidas as opções de renovação previstas ao longo de 30 anos. Além de assegurar o acesso à energia, um recurso cada vez mais escasso e disputado, a operação permite que a empresa garanta a implementação de seus chips e, posteriormente, subloque parte da capacidade a companhias de infraestrutura em nuvem especializadas em IA.
O acordo também reforça as preocupações em torno do chamado financiamento circular, dinâmica na qual a Nvidia contribui para financiar a própria infraestrutura necessária para sustentar a demanda por seus produtos. A companhia já investiu bilhões de dólares em provedores como a CoreWeave e negocia a concessão de uma garantia financeira de até US$ 250 bilhões para apoiar a OpenAI na locação de um data center de 10 gigawatts em Ohio.
No projeto do Texas, o contrato firmado com a Nvidia foi determinante para que a Hut 8 emitisse cerca de US$ 4,3 bilhões em títulos, com taxa de 6,129% e classificação de grau de investimento atribuída pela Moody’s. Embora essa estratégia acelere a expansão da capacidade de infraestrutura para IA e reduza o custo de financiamento dos projetos, também aumenta a exposição da fabricante de chips ao desempenho financeiro de seus próprios clientes e parceiros.
· 05:06 — A Nova Corrida dos Mísseis e a Reprecificação da Defesa Global
Os mísseis balísticos estão entrando em uma nova fase de proliferação global, impulsionada pelas lições extraídas das guerras na Ucrânia e no Irã, além do fim do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário. Em vigor entre 1988 e 2019, o acordo proibia Estados Unidos e Rússia de desenvolver armas com alcance entre 500 e 5.500 quilômetros e, de forma indireta, também desestimulava os aliados americanos a buscar sistemas semelhantes.
Com a retirada dos Estados Unidos durante o primeiro governo Trump, abriu-se espaço para uma nova corrida tecnológica. Desde 2022, a Rússia tem utilizado esses mísseis para pressionar e esgotar as defesas aéreas ucranianas, enquanto o Irã já teria lançado cerca de 2 mil projéteis desde fevereiro, provocando danos relevantes e reduzindo os estoques de interceptadores, que são caros e difíceis de repor.
Esse movimento já se traduz na expansão de programas militares ao redor do mundo. A Coreia do Sul apresentou o Hyunmoo-5, enquanto o Japão desenvolve mísseis capazes de transportar veículos hipersônicos. Seis países europeus, por sua vez, lançaram um programa conjunto de ataque de longo alcance, e a OTAN pretende destinar US$ 50 bilhões a esse tipo de armamento. Os Estados Unidos também se aproximam da entrada em operação do Dark Eagle, um sistema hipersônico com alcance de milhares de quilômetros.
Enquanto as defesas contra drones tendem a se tornar mais acessíveis e abundantes, a proteção contra mísseis permanece complexa, dispendiosa e tecnicamente desafiadora, ampliando a vantagem ofensiva e tornando o equilíbrio militar global mais instável.
Para o investidor, essa tendência continua criando oportunidades em empresas ligadas aos segmentos de defesa, aeroespacial e segurança nacional. ETFs temáticos, como o Select STOXX Europe Aerospace & Defense (EUAD), o Global X Defense Tech (SHLD) e o First Trust Indxx Aerospace & Defense (MISL), oferecem formas eficientes de capturar esse movimento por meio de uma exposição diversificada a companhias que tendem a se beneficiar do aumento estrutural dos gastos militares.
No mercado brasileiro, alternativas como o BDR do iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BAER39) e o SHLD39 cumprem função semelhante, permitindo acesso simplificado a essa temática. Ainda assim, como em qualquer tese setorial, a disciplina de alocação permanece essencial. Exposições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com limite agregado próximo de 5% para o tema, tendem a oferecer um equilíbrio adequado entre potencial de retorno, diversificação e controle de risco, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente ao setor.