(Imagem: Suphanat Khumsap/iStock)
Os mercados globais passaram a refletir uma combinação de alívio geopolítico e estresse no setor de tecnologia. De um lado, as negociações entre Estados Unidos e Irã avançaram na Suíça, com Washington sinalizando progresso, suspendendo por 60 dias as sanções ao petróleo iraniano e permitindo a venda da commodity em dólares, enquanto o fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz começa a se normalizar gradualmente.
Ainda há ruídos relevantes, como a divergência entre americanos e iranianos sobre o retorno de inspetores nucleares e a confusão entre armadores sobre quais instruções seguir no estreito. Ainda assim, a percepção de menor risco de uma interrupção prolongada da oferta global de energia ajudou a derrubar o petróleo. Na Europa, os PMIs preliminares (indicador antecedente) de junho reforçaram um quadro de atividade fraca, enquanto o ouro recuou em meio ao fortalecimento do dólar.
De outro lado, o foco dos investidores se deslocou para a forte realização nas ações ligadas à inteligência artificial, especialmente semicondutores e big techs. A queda foi intensa na Ásia, com o Kospi (Coreia do Sul) recuando 10% e Samsung e SK Hynix caindo mais de 12%, enquanto o Nikkei (Japão) perdeu 3,55% e o Hang Seng (Hong Kong) recuou 1,82%.
A correção reflete dúvidas crescentes sobre a capacidade dos grandes hiperescaladores (as maiores empresas de computação em nuvem) de sustentar o ritmo de investimentos em IA e transformar esse volume elevado de gastos em retornos proporcionais, em um ambiente ainda pressionado por juros mais altos e pela possibilidade de um Federal Reserve menos expansionista. Como o ciclo de IA vinha sendo o principal motor do mercado em 2026, a questão central agora é se a liquidação representa apenas uma pausa técnica em um setor muito aquecido ou o início de uma mudança mais profunda no sentimento dos investidores.
· 00:57 — Aumentando a relevância de outro vetor
No Brasil, o Ibovespa recuperou parte das perdas recentes e fechou acima dos 170.000 pontos pela primeira vez desde 15 de junho. O movimento foi impulsionado pelo forte recuo dos juros futuros, após o Tesouro Nacional cancelar o leilão de NTN-Bs previsto para esta terça-feira, decisão interpretada como uma resposta à deterioração recente do mercado de títulos públicos. Mesmo com juros reais elevados, a demanda segue fraca, o que representa um sinal negativo para o Tesouro. O dólar também recuou, encerrando cotado a R$ 5,14, em um movimento de ajuste após a depreciação recente do real, embora o sentimento em relação à moeda continue cauteloso.
O principal foco da semana, porém, está na comunicação do Banco Central após o comunicado considerado ambíguo da última reunião do Copom, que reduziu a Selic para 14,25% e deixou dúvidas sobre a possibilidade de novos cortes em um ambiente de inflação pressionada, expectativas em deterioração e riscos fiscais mais desafiadores. A ata divulgada nesta manhã trouxe elementos adicionais, como a avaliação de que os riscos para a inflação são assimétricos para cima e a realização de simulações com pausas em diferentes pontos do ciclo, o que, em tese, sugeriria a possibilidade de interrupção dos cortes.
Ainda assim, a discussão sobre choques de oferta e a ideia de que o Banco Central não deve reagir integralmente a eles mantiveram certa ambiguidade sobre os próximos passos. Por isso, o Relatório de Política Monetária, marcado para quinta-feira, passa a ter importância ainda maior para esclarecer se houve apenas um problema de comunicação ou se o Banco Central, de fato, pretende preservar espaço para novas reduções da Selic.
· 01:41 — Pressão sobre tecnologia
Os mercados americanos tiveram desempenho misto em meio à combinação entre negociações ainda delicadas de paz entre Estados Unidos e Irã e uma realização mais intensa nas ações ligadas à inteligência artificial.
Embora o acordo no Oriente Médio continue frágil, com ameaças de retomada do conflito e violência persistente no Líbano, os investidores seguem apostando em avanços nas conversas em curso na Suíça, classificadas como positivas por Washington.
Nesse ambiente, o petróleo devolveu parte do prêmio de risco, mas o foco de Wall Street se deslocou para o setor de tecnologia. A saída de um pesquisador relevante do Google DeepMind para a Anthropic pressionou as ações da Alphabet e reforçou as preocupações com a disputa por talentos em IA. Como o setor tem peso elevado nos principais índices, o Nasdaq caiu 1,3% e o S&P 500 recuou 0,4%, enquanto o Dow Jones avançou 0,3%, sustentado por segmentos como financeiro, energia e indústria.
Ao mesmo tempo, small caps e mid caps continuaram ganhando tração, com o Russell 2000 renovando recorde, em uma leitura de que o crescimento dos lucros se espalha para além das megacaps.
· 02:36 — Sustentando a paz
Os Estados Unidos suspenderam por 60 dias as sanções ao petróleo iraniano, permitindo que o Irã venda sua produção em dólares pela primeira vez em décadas, enquanto as negociações avançam em direção a um acordo definitivo de paz. A medida, anunciada após conversas na Suíça consideradas positivas por Washington, reduziu parte do prêmio de risco embutido nos preços do petróleo ao sinalizar uma probabilidade maior de normalização gradual do fluxo energético pelo Estreito de Ormuz e de retorno do petróleo iraniano ao mercado global.
Ainda há incertezas relevantes, já que Teerã contestou declarações americanas sobre novos compromissos, incluindo a autorização para inspeções nucleares, e condicionou avanços mais amplos à conclusão de um acordo final. Mesmo assim, o aumento do tráfego de embarcações, a atuação de mediadores como Catar e Paquistão e a percepção de menor risco de uma interrupção prolongada da oferta global de energia ajudaram a aliviar um dos principais focos de estresse recente para os mercados.
· 03:25 — Alan Greenspan e a ambiguidade do poder monetário
Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve entre 1987 e 2006 e morreu ontem aos 100 anos, é lembrado como uma das figuras mais influentes e controversas da história econômica moderna. À frente do banco central americano por quase duas décadas, atravessou governos de ambos os partidos e marcou um período de forte criação de riqueza, ajudando a conduzir a economia em meio a crises, ciclos de expansão e momentos delicados de inflação.
Sua reputação foi construída pela capacidade de calibrar a política de juros com base em análises detalhadas de dados, como na recuperação após a crise do fim dos anos Reagan, no chamado “pouso suave” dos anos 1990 e na decisão de manter os juros mais baixos durante o boom tecnológico, apostando que os ganhos de produtividade ajudariam a conter a inflação.
Seu legado, no entanto, segue profundamente disputado. Para os críticos, a percepção de que Greenspan sempre protegeria os mercados estimulou uma tomada de risco maior por parte dos investidores, enquanto sua defesa de uma regulação financeira mais branda e sua postura diante da bolha imobiliária teriam contribuído para a crise de 2008. Ainda assim, sua influência permanece viva no Federal Reserve, tanto nas práticas institucionais que ajudou a moldar quanto no debate atual sobre comunicação e política monetária.
A comparação com o presente é direta: Kevin Warsh sinaliza preferência por uma comunicação menos explícita, enquanto Scott Bessent resgata o exemplo de Greenspan nos anos 1990 para defender uma postura mais aberta a cortes de juros. Mais do que uma figura histórica, Greenspan continua sendo uma referência central nas discussões sobre inflação, crescimento, estabilidade financeira e o papel dos bancos centrais ao redor do mundo inteiro.
· 04:18 — Uma Doutrina Carter fragilizada
A guerra de Donald Trump contra o Irã é apresentada como um grande fracasso estratégico, com elevados custos humanos, econômicos e diplomáticos, além de forte rejeição nos Estados Unidos, no Oriente Médio e no restante do mundo. O conflito não teria produzido ganhos geopolíticos relevantes e passou a ser visto como o maior erro de política externa de Trump em seus dois mandatos.
Ainda assim, há um efeito inesperado: ao expor a fragilidade da dependência global de petróleo e gás importados, a guerra pode acelerar a transição para fontes de energia pós-carbono, mesmo contrariando a agenda pró-combustíveis fósseis do próprio presidente Trump.
A tese central é que o conflito evidencia o enfraquecimento da antiga garantia americana de segurança energética no Golfo, simbolizada pela Doutrina Carter, de 1980, quando Washington assumiu o compromisso de proteger o fluxo de petróleo da região. Esse arranjo fazia sentido em uma época de hegemonia americana, dependência energética dos Estados Unidos e ausência de alternativas viáveis aos combustíveis fósseis.
Hoje, porém, em um mundo mais fragmentado, sem um provedor claro de bens públicos globais, e com os Estados Unidos na condição de exportadores líquidos de energia desde 2019, o incentivo estratégico para proteger cadeias energéticas no Oriente Médio diminuiu. Nesse novo contexto, a busca por segurança energética tende a reforçar o investimento em fontes alternativas, renováveis e menos dependentes de rotas geopolíticas vulneráveis.
· 05:04 — Computação quântica entra na agenda estratégica dos EUA
O governo Trump está acelerando a agenda de computação quântica nos Estados Unidos, com determinações para desenvolver o primeiro computador quântico voltado à pesquisa científica e acelerar a migração do governo para a criptografia pós-quântica até 2031. A máquina deverá ser instalada em um laboratório nacional até 2028, um prazo considerado ambicioso por antecipar as metas de boa parte da indústria.
A IBM, por exemplo, trabalha com a expectativa de lançar um supercomputador quântico tolerante a falhas apenas em 2029, enquanto outras empresas miram 2030 ou depois. A tolerância a falhas é vista como o grande marco tecnológico do setor, pois significa construir sistemas capazes de operar de forma estável mesmo diante de falhas em seus componentes individuais.
A ordem também determina que o Departamento de Energia defina as especificações técnicas do projeto, incluindo métricas como quantidade e qualidade dos qubits, as unidades básicas da computação quântica. Além disso, agências como a NASA e o Departamento de Comércio deverão elaborar planos para a implantação de sensores e redes habilitados por tecnologia quântica.
O movimento se apoia em um pacote de US$ 2 bilhões do Departamento de Comércio, incluindo participações em empresas do setor, e reforça que a computação quântica passou a ocupar uma posição estratégica ao lado da inteligência artificial e da tecnologia nuclear na agenda industrial, científica e de segurança dos Estados Unidos.
A leitura mais importante é que a computação quântica começa a deixar de ser apenas uma promessa científica distante para se tornar uma prioridade estratégica de Estado, como já aconteceu com a inteligência artificial. Ainda há riscos relevantes — prazos ambiciosos, incertezas técnicas, modelos de negócio em formação e valuations sensíveis a frustrações no curto prazo —, mas o direcionamento de capital público, a definição de metas claras e a entrada de grandes empresas, laboratórios nacionais e governos tendem a acelerar o amadurecimento do setor. Para o investidor, isso reforça a visão de que a próxima fase da tecnologia será marcada por infraestrutura crítica, segurança, capacidade computacional e soberania tecnológica.
Nesse sentido, a computação quântica deve ser vista como uma extensão natural do ciclo de IA, e não como uma tese concorrente: enquanto a inteligência artificial já impulsiona a demanda por semicondutores, energia, data centers, redes, memória, software e modelos avançados, a computação quântica pode ampliar esse ecossistema ao abrir novas fronteiras em simulações científicas, criptografia, descoberta de medicamentos, materiais avançados, defesa e otimização industrial. O caminho deve seguir volátil e seletivo, mas a direção estrutural permanece positiva.
Por isso, seguimos construtivos com as teses de inteligência artificial e computação quântica, mantendo uma visão favorável à exposição ao Defiance Quantum ETF (NASDAQ: QTUM), como veículo mais diretamente ligado ao avanço da computação quântica, e ao BTG Pactual S&P/B3 Ingenius ETF (B3: GENB11), como alternativa local para capturar a transformação mais ampla em tecnologia, inovação e inteligência artificial, sempre com disciplina de preço, horizonte de longo prazo e foco em empresas capazes de converter inovação em receita, margem e vantagem competitiva sustentável.