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Crypto Pulse

Fed manteve juros inalterados: o que isso significa para o Bitcoin (BTC)?

A principal notícia da semana não é a manutenção dos juros nos EUA, mas sim o que ela revela; enquanto isso, o bitcoin (BTC) não caiu, mas também não consegue subir

Por Luis Kuniyoshi

02 ago 2026, 15:00

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(Imagem: ภาพ2ของMemorystockphoto)

Na última quarta-feira (29), o Federal Reserve manteve os juros dos Estados Unidos na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. A decisão saiu por 9 votos a 3, e os três votos vencidos não pediam corte, mas sim alta.

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A notícia da semana não está na decisão, e sim no que ela revelou. A próxima direção dos juros americanos deixou de ser óbvia: os contratos futuros negociados na bolsa de Chicago na sexta-feira (31) atribuíam 81% de chance de o Fed subir os juros na reunião de setembro. Uma semana atrás, essa probabilidade era inferior a 53%.

O contraponto é que o banco central pode ter ficado parado, mas o custo do dinheiro não ficou. O Fed não mexeu nos juros: o mercado mexeu por ele, e o próprio presidente da instituição fez questão de dizer isso na coletiva.

Nesta edição: o que mudou dentro do Fed e porque cada reunião virou uma incógnita; por que o custo do dinheiro subiu no mundo inteiro sem o banco central encostar na taxa; e como isso tem afetado o Bitcoin (BTC).

O Fed manteve os juros, mas três diretores queriam subir

A reunião do comitê de política monetária dos EUA, o FOMC, terminou na quarta-feira com a taxa básica inalterada. O placar, porém, foi o mais dividido em muito tempo: Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan votaram por elevar os juros em 0,25 ponto percentual.

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Dissidência para cima é um sinal diferente de tudo o que o mercado ouviu nos últimos anos. Desde 2024, a discussão dentro do Fed era sobre quando e quanto cortar. Agora, há três diretores registrando em ata que o próximo movimento deveria ser na direção oposta.

Parte disso tem nome. Kevin Warsh assumiu a presidência do Fed há nove semanas e mudou a forma como o banco central conversa com o mercado. O comunicado encolheu para cerca de 130 palavras, contra mais de 300 nas gestões anteriores, e deixou de trazer qualquer indicação sobre os próximos passos — o que o jargão chama de “forward guidance“, ou seja, a prática de o banco central antecipar o que pretende fazer nas reuniões seguintes.

Em essência, isso muda o calendário do investidor. Antes, o Fed cuidava de eliminar a surpresa nos dias que antecediam a reunião, e o mercado chegava ao anúncio praticamente convicto do resultado. Na quarta-feira, as apostas estavam divididas entre 68% de manutenção e 32% de alta. A decisão voltou a ser tomada na própria reunião.

Warsh não escondeu que isso é intencional. Questionado sobre os três votos contrários, respondeu que havia pedido “uma boa briga de família — e consegui”. Sobre o alvo de inflação, foi igualmente direto: “não existe meta implícita, não existe meta flexível. Existe uma meta, e ela é de 2%.”

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O que o leitor precisa levar daqui não é a decisão de julho, e sim o regime que ela inaugura. Daqui para frente, é razoável esperar que cada reunião seja disputada até o comunicado, com mais oscilação nas vésperas e menos previsibilidade nas apostas. Isso vale para ações, para câmbio e, com intensidade maior, para cripto.

O aperto veio do mercado, não do banco central

Se o Fed não mexeu na taxa, alguém mexeu. Entre a reunião de junho e a desta semana, os juros negociados no mercado subiram de forma expressiva — e Warsh classificou o movimento como um dos mais relevantes das últimas duas décadas, algo próximo do decil superior da série histórica.

A frase dele resume o quadro: “não fizemos muita coisa em 42 dias. Os mercados fizeram bastante.”

E os números confirmam. O título americano de dez anos está em 4,65%, 25 pontos-base acima de um mês atrás. Na zona do euro, a curva de referência subiu 15 pontos-base, para 3,16%. No Japão, o título de dez anos passou de 2,71% para 2,78%. Em toda parte, o investidor passou a cobrar mais caro para financiar governos e empresas.

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O detalhe mais importante é onde essa alta se concentrou. Nos Estados Unidos, quase toda a elevação veio do juro real — o retorno que sobra depois de descontada a inflação esperada. Ele subiu 26 pontos-base em um mês, para 2,44%, enquanto a inflação embutida nos preços dos títulos ficou parada em 2,20%. Não é medo de inflação; é exigência de retorno.

E é aí que a conta chega no mercado cripto. O Bitcoin não paga juros, dividendo, nem aluguel. Quando o título mais seguro do mundo passa a render 2,44% acima da inflação, o custo de carregar um ativo (como o Bitcoin) que não paga nada aumenta — sem que nada tenha mudado no próprio ativo.

Vale entender de onde veio a pressão, porque ela tem duas fontes: a primeira foi o petróleo, que ainda se encontra refém do escalonamento entre Estados Unidos e Irã.

A segunda é o volume de capital que está sendo consumido pelo ciclo de investimento em inteligência artificial. Warsh apontou que o gasto com equipamentos e softwares ligados a IA cresce cerca de 20% em quatro trimestres, e que o comitê discutiu se a alta de preços de memória e chips é um fenômeno isolado ou o começo de algo mais amplo.

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A bolsa já respondeu à sua maneira. Mesmo com o alívio do petróleo, o índice de semicondutores da Filadélfia caiu 11,1% em quatro pregões, o Nasdaq fechou na mínima de 60 dias e opera 8,2% abaixo da máxima de 2 de junho, enquanto o Dow Jones — mais defensivo — subiu 2,0% no mesmo intervalo. Quando a causa apontada se reverte e o efeito continua, o problema é outro.

Para cripto, o encadeamento é indireto, mas consistente: capital mais caro reduz a disposição de assumir risco, posições alavancadas encolhem e o dinheiro migra para o que oferece retorno previsível.

O Bitcoin não caiu por causa do Fed — mas também não conseguiu subir

O Bitcoin (BTC) chegou a US$ 66.840 em 21 de julho, não sustentou o rompimento e voltou para a faixa dos US$ 63 mil a US$ 65 mil. Fechou esta quinta-feira em US$ 64.722. É o terceiro teste dessa região em pouco mais de dois meses, e o padrão se repete: as altas perdem força perto da resistência, as quedas encontram comprador no suporte.

Mais do que uma linha no gráfico, os US$ 66 mil para o Bitcoin são o preço em que o mercado precisa mostrar demanda suficiente para absorver a oferta acumulada nos últimos meses. E é justamente a demanda que não apareceu.

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O caso mais visível é o da Strategy, empresa americana que transformou seu balanço em um veículo de acumulação de Bitcoin e se tornou a maior detentora corporativa do ativo. A companhia não compra desde 22 de junho — cinco semanas, a maior pausa em quase dois anos — e inverteu o fluxo no período, vendendo 3.588 BTC, cerca de US$ 216 milhões, para reforçar caixa e pagar dividendos de ações preferenciais.

Nesta quinta-feira, a empresa divulgou o resultado do segundo trimestre: prejuízo líquido de US$ 8,2 bilhões. O número assusta menos do que parece, e a distinção importa. Praticamente todo esse valor — US$ 8,32 bilhões — vem da regra contábil que obriga a companhia a reavaliar seus bitcoins pelo preço de mercado a cada trimestre. Como o Bitcoin caiu no período, o balanço registra a perda mesmo sem que nenhuma moeda tenha sido vendida. É perda de papel, não saída de caixa.

O que muda de verdade está no restante do comunicado. A Strategy carrega 843.775 bitcoins, comprados por US$ 63,7 bilhões e avaliados hoje em cerca de US$ 54,8 bilhões. Construiu uma reserva em dólares de US$ 3,75 bilhões, suficiente para cobrir 2,1 anos de dividendos e juros, e passou a admitir explicitamente vender Bitcoin para financiar a recompra de suas ações preferenciais — uma reversão da postura de nunca vender que sustentou por anos.

Essa mudança tem dois lados, e ambos são reais. Ela reduz o risco de uma venda forçada de Bitcoin lá na frente, que seria o cenário mais destrutivo para o mercado. Mas retira do jogo, agora, um comprador que absorvia oferta com regularidade — e, nas últimas semanas, o transformou em vendedor.

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Do outro lado da demanda estão os ETFs de Bitcoin à vista, e o quadro ali é de recuperação tímida. As três últimas semanas fechadas registraram entradas de US$ 197 milhões, US$ 76 milhões e US$ 34 milhões. É pouco diante dos US$ 6,9 bilhões que saíram em maio e junho. Nesta semana, depois de dois pregões negativos, o fluxo voltou ao campo positivo e acumula cerca de US$ 20 milhões até quinta-feira. Nos ETFs de Ethereum, a semana segue negativa em US$ 15 milhões.

Há demanda suficiente para evitar uma deterioração mais séria, e não há demanda suficiente para romper resistência. É exatamente o que o preço vem mostrando, com o Bitcoin ainda em regime de lateralização.

O que isso significa para a sua carteira

O cenário segue equilibrado. De um lado, a reunião do Fed ficou para trás, os ETFs voltaram a registrar entradas e a integração entre cripto e o sistema financeiro continua avançando. Do outro, o juro real subiu, aumentaram as expectativas de aperto monetário e os principais compradores marginais do Bitcoin — Strategy e ETFs — seguem ausente e pouco ativos, respectivamente.

Na prática, o Fed manteve os juros, mas o mercado apertou as condições financeiras por conta própria. Isso tende a limitar uma alta mais consistente do Bitcoin no curto prazo, apesar da manutenção dos fundamentos.

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Por isso, não faz sentido nem aumentar o risco apenas porque os juros foram mantidos, nem liquidar posições por ruídos contábeis que não representam venda de bitcoin. A estratégia continua sendo dimensionar bem a exposição, preservar caixa e aguardar sinais mais claros: Bitcoin sustentado acima de US$ 66 mil, entradas semanais superiores a US$ 500 milhões nos ETFs, retomada das compras pela Strategy e queda do juro real de dez anos. Até lá, seguimos construtivos no médio e longo prazo, mas cautelosos no curto.

Analista de criptomoedas na Empiricus Research.