(Imagem: Jakub Zerdzicki/Pexels)
Os mercados globais operam em terreno positivo, sustentados pela recuperação das ações de tecnologia e pelas expectativas em torno da temporada de resultados, embora a incerteza geopolítica permaneça elevada. Donald Trump afirma que as negociações com o Irã estão em andamento e classificou a proposta americana como uma “última chance”. Na agenda econômica, o principal destaque nos Estados Unidos será a divulgação do relatório JOLTS, acompanhada pelos dados da balança comercial e das encomendas à indústria.
No Japão, as atenções permanecem voltadas às políticas fiscal e monetária, após Sanae Takaichi avançar com a proposta de redução do imposto sobre alimentos. A temporada de balanços também ganha intensidade, com os resultados de Caterpillar, McDonald’s, HSBC, BP, AMD e, sobretudo, o primeiro balanço da SpaceX desde sua abertura de capital. No Brasil, o foco estará na produção industrial, no início da reunião do Copom e nos resultados de Itaú, Gerdau e outras companhias após o fechamento.
· 00:57 — O corte que o fiscal ainda limita
No Brasil, o Ibovespa encerrou a segunda-feira praticamente estável, aos 178 mil pontos, em um pregão marcado por forças opostas. A queda dos juros futuros ofereceu algum suporte ao mercado acionário, mas o recuo das principais empresas ligadas a commodities impediu um avanço mais consistente.
As ações da Petrobras caíram 0,85%, acompanhando a baixa do petróleo após a trégua temporária entre Estados Unidos e Irã, enquanto a Vale recuou 2,15%, pressionada pela desvalorização do minério de ferro e pelas dúvidas persistentes em relação à demanda chinesa. Em contrapartida, a valorização dos grandes bancos ajudou a limitar as perdas do índice.
Nesta terça-feira, as atenções se concentram no início da reunião do Copom, na divulgação da produção industrial de junho e no balanço do Itaú Unibanco. A expectativa amplamente majoritária é de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14% ao ano, mas o foco do mercado estará sobretudo na comunicação do Banco Central sobre os próximos passos. A melhora recente da inflação, a desaceleração da atividade e a queda do petróleo abriram espaço para a discussão de uma nova redução da taxa, para 13,75% em setembro, cenário que já passou a ser incorporado pelo Boletim Focus.
Ainda assim, expectativas de inflação acima da meta, riscos fiscais e incertezas eleitorais recomendam cautela. No campo das contas públicas, a Instituição Fiscal Independente estima que o governo poderá ultrapassar a Regra de Ouro em R$ 288 bilhões em 2026, reforçando as preocupações com a qualidade do ajuste e com a trajetória da dívida pública. Em síntese, a deterioração fiscal mantém elevado o prêmio de risco, restringe o espaço para cortes mais profundos de juros e torna os ativos brasileiros mais vulneráveis a qualquer perda adicional de confiança.
· 01:43 — Lucros e indústria reacendem Wall Street
Os mercados americanos iniciaram agosto em forte alta, com o Dow Jones renovando sua máxima histórica, o S&P 500 avançando 1,5% e o Nasdaq registrando ganho de 2,1%. O movimento foi liderado pelas “Magnificent Seven”, que acrescentaram US$ 1,77 trilhão em valor de mercado ao longo de três pregões, enquanto a Amazon superou, pela primeira vez, a marca de US$ 3 trilhões.
O ambiente positivo, contudo, não ficou restrito ao setor de tecnologia. A queda dos preços do petróleo, o recuo dos rendimentos dos títulos públicos e uma temporada de balanços acima das expectativas sustentaram uma valorização mais disseminada entre os setores. O crescimento dos lucros das empresas do S&P 500 caminha entre 35% e 40%, acima das projeções iniciais, acompanhado por aumento dos investimentos, expansão das carteiras de pedidos e maior visibilidade sobre receitas futuras, sobretudo entre as grandes companhias de tecnologia e computação em nuvem.
A melhora também se estendeu à indústria americana. O PMI industrial do ISM avançou para 55,6 pontos em julho, alcançando o maior nível desde maio de 2022 e marcando o sétimo mês consecutivo de expansão. A produção, as novas encomendas e o emprego apresentaram evolução positiva, impulsionados pelos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, pela demanda dos setores aeroespacial e de defesa e pela recomposição dos estoques.
Ainda assim, a trajetória dos custos e da inflação continua exigindo cautela. O cenário também permanece sujeito a riscos, especialmente às tensões no Estreito de Ormuz, à possibilidade de uma nova pressão sobre os preços do petróleo e à divulgação dos próximos dados do mercado de trabalho. John Williams avaliou que a política monetária está bem-posicionada, mas ressaltou que o Federal Reserve poderá agir caso os próximos indicadores não confirmem a continuidade do processo de desinflação.
· 02:39 — Fusão diferenciada
A possível fusão entre AstraZeneca e Bristol Myers Squibb surpreendeu o mercado e foi recebida com cautela pelos investidores, levando as ações da companhia britânica a recuarem cerca de 7%. Caso a operação avance, a empresa resultante poderá alcançar valor de mercado próximo de US$ 400 bilhões e se tornar a quarta maior farmacêutica do mundo.
O movimento causa estranhamento porque a AstraZeneca atravessa uma fase de forte crescimento e elevada capacidade de inovação, enquanto a Bristol Myers enfrenta a perspectiva de desaceleração nos próximos anos, à medida que expiram as patentes de alguns de seus medicamentos mais relevantes.
Ainda assim, a combinação poderia ampliar de forma significativa a presença da AstraZeneca nos Estados Unidos e criar o maior portfólio de medicamentos contra o câncer da indústria. Uma transação dessa dimensão, no entanto, provavelmente seria submetida a uma análise rigorosa por parte das autoridades antitruste.
· 03:28 — Coordenação
Como comentei ontem neste espaço, os Estados Unidos e o Japão realizaram uma rara intervenção coordenada para sustentar o iene, na primeira ação conjunta desse tipo desde 1998. Embora Donald Trump tenha descrito a iniciativa como um gesto de amizade, a participação americana também responde a interesses próprios: reduzir o risco de que o Japão venda parte de suas reservas de Treasuries para financiar novas intervenções, limitar a vantagem competitiva proporcionada por uma moeda excessivamente depreciada e ampliar o poder de negociação de Washington em questões comerciais e estratégicas. A operação contribuiu para a valorização do iene, mas parte dos ganhos já foi devolvida, e o patamar de 155 ienes por dólar surge como um teste importante para avaliar a sustentabilidade do movimento.
Ainda assim, a intervenção tende a oferecer apenas um alívio temporário caso não seja acompanhada por mudanças nos fundamentos da economia japonesa. Uma recuperação mais duradoura da moeda dependerá de maior disciplina fiscal no Japão e de uma normalização monetária mais firme por parte do Banco do Japão, capaz de reduzir o diferencial de juros que alimenta as operações de carry trade.
Taxas mais elevadas no país diminuiriam o incentivo para tomar recursos em ienes e direcioná-los a ativos estrangeiros de maior rendimento. Scott Bessent afirmou que os Estados Unidos poderão voltar a atuar, mas o comportamento recente da moeda reforça uma conclusão conhecida: intervenções cambiais podem ganhar tempo, mas não substituem os ajustes estruturais necessários.
· 04:14 — Reduzindo a distância
A inteligência artificial chinesa vem reduzindo rapidamente a distância que ainda a separa do Vale do Silício, combinando desempenho tecnológico cada vez mais avançado com custos mais competitivos. O Alibaba reforçou esse movimento com o Qwen3.8-Max, seu modelo mais sofisticado até o momento, que parece igualar ou até superar o Claude 3.5 Sonnet, da Anthropic. Na mesma direção, o Kimi K3, da Moonshot AI, apresentou resultados comparáveis aos de soluções americanas mais caras, apesar de ter sido desenvolvido com um orçamento significativamente menor.
Essa sequência de lançamentos mostra que a China já não se limita a oferecer alternativas de baixo custo, mas dispõe de modelos capazes de competir em tarefas de raciocínio, programação e execução de atividades complexas, ampliando a pressão competitiva sobre a OpenAI e outras empresas dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a disputa tecnológica assume contornos cada vez mais geopolíticos e relacionados à segurança nacional. Autoridades chinesas demonstram preocupação com o possível uso ofensivo do Mythos, da Anthropic, e de outros modelos avançados desenvolvidos nos Estados Unidos, sobretudo em operações cibernéticas.
Esse receio acrescenta uma nova camada de tensão à relação entre Pequim e Washington, especialmente às vésperas de uma possível reunião entre Xi Jinping e Donald Trump. A corrida pela liderança em inteligência artificial, portanto, deixa de ser apenas uma competição empresarial e passa a ocupar uma posição central na rivalidade estratégica entre as duas maiores potências globais.
· 05:06 — Palantir e a Nova Fronteira da Defesa Digital
A Palantir apresentou resultados acima das expectativas, impulsionados pela forte expansão de seu segmento comercial nos Estados Unidos, cujas receitas avançaram 149% na comparação anual. A receita total cresceu 93%, para US$ 1,9 bilhão, enquanto o lucro ajustado alcançou US$ 0,41 por ação.
A companhia vem se consolidando como uma plataforma relevante para integrar dados dispersos, organizar informações e aplicar diferentes modelos de inteligência artificial à resolução de problemas concretos. A aceleração da demanda levou a empresa a projetar uma receita entre US$ 2,16 bilhões e US$ 2,164 bilhões para o próximo trimestre, além de elevar sua estimativa para 2026 para aproximadamente US$ 8,15 bilhões, reforçando a perspectiva de crescimento robusto e progressivamente mais diversificado.
A leitura também permanece construtiva para a indústria de defesa, sobretudo para empresas expostas à digitalização, à análise de dados e à inteligência artificial. As receitas governamentais da Palantir cresceram 90%, evidenciando que a modernização tecnológica das forças armadas e das agências públicas continua ganhando prioridade.
Ao mesmo tempo, o avanço do segmento comercial mostra que tecnologias originalmente desenvolvidas para ambientes de defesa estão encontrando aplicações cada vez mais amplas no setor privado, o que expande o mercado potencial da companhia e reduz sua dependência de contratos públicos. Esse caráter de uso dual tende a sustentar investimentos de longo prazo em software, automação, segurança e inteligência operacional em diferentes elos da cadeia de defesa.
Essa tendência continua criando oportunidades em empresas ligadas aos segmentos de defesa, aeroespacial e segurança nacional. ETFs temáticos, como o Select STOXX Europe Aerospace & Defense (EUAD), o Global X Defense Tech (SHLD) e o First Trust Indxx Aerospace & Defense (MISL), oferecem formas eficientes de capturar esse movimento por meio de uma exposição diversificada a companhias que tendem a se beneficiar do aumento estrutural dos gastos militares.
No mercado brasileiro, alternativas como o BDR do iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BAER39) e o SHLD39 cumprem função semelhante, permitindo acesso simplificado à temática. Ainda assim, como em qualquer tese temática, a disciplina de alocação permanece essencial. Exposições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com limite agregado próximo de 5% para aos temas mais disruptivos e estressados, tendem a oferecer um equilíbrio adequado entre potencial de retorno, diversificação e controle de risco, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente ao setor.