Imagem: iStock.com/tzahiV
Os mercados globais iniciam a sexta-feira (12) em tom mais favorável, após Donald Trump anunciar o cancelamento de novos ataques contra o Irã e sinalizar avanços relevantes nas negociações para um possível acordo de paz. Embora ainda existam dúvidas sobre a adesão definitiva de Teerã, relatos indicam que as conversas avançaram de forma significativa, incluindo propostas para a reabertura do Estreito de Ormuz, alívio de sanções e redução das tensões na região.
Vale lembrar que, apesar da animação, estamos na trigésima-nona vez que a Casa Branca promete estar perto de algum entendimento (não é hipérbole). Ainda assim, a possibilidade de uma solução diplomática impulsionou os ativos de risco ao redor do mundo, favorecendo bolsas na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que provocou uma queda expressiva do petróleo.
O Brent recuou para a região de US$ 87 por barril, refletindo a expectativa de normalização gradual do fluxo global de energia. No campo macroeconômico, as atenções continuam concentradas na inflação e na política monetária. No Brasil, o foco do mercado se volta para a divulgação do IPCA de maio.
· 00:53 — Problema inflacionário
O mercado brasileiro acompanhou a melhora do humor global e registrou uma forte recuperação na quinta-feira (11). O Ibovespa avançou 1,71%, encerrando o pregão aos 171.497 pontos, recuperando parte das perdas recentes e alcançando o maior nível de fechamento desde o início de junho.
O dólar, por sua vez, recuou 1,37%, para R$ 5,10, refletindo o aumento do apetite por risco após Donald Trump sinalizar a possibilidade de um acordo de paz no Oriente Médio. No entanto, o foco dos investidores rapidamente migrou para a divulgação do IPCA de maio, que acabou trazendo um sinal menos favorável do que o esperado. Embora a inflação tenha desacelerado na margem, passando de 0,67% em abril para 0,58% em maio, o resultado ficou acima da mediana das projeções de mercado, que apontava para alta de 0,53%.
A composição do dado também reforçou a necessidade de cautela. Em 12 meses, a inflação acelerou de 4,39% para 4,72%, voltando a superar o teto da meta estabelecida pelo Banco Central. O resultado sugere que, embora parte das pressões recentes possa estar associada a fatores temporários, a dinâmica inflacionária continua incompatível com um cenário confortável para a condução da política monetária.
Dessa forma, mesmo após a melhora observada nos ativos de risco e da recente reprecificação das expectativas em direção a um possível corte da Selic, permanece elevada a incerteza sobre o espaço para uma flexibilização dos juros no curto prazo, especialmente diante da persistência das pressões inflacionárias subjacentes.
No campo fiscal, as preocupações seguem presentes. Os Ministérios da Fazenda e do Planejamento estimaram que nove propostas atualmente em tramitação no Congresso podem gerar impacto fiscal de aproximadamente R$ 111 bilhões por ano. Entre elas, destacam-se iniciativas relacionadas à renegociação de dívidas rurais, ampliação de programas de crédito subsidiado e outras medidas de estímulo econômico.
Paralelamente, cresce a discussão sobre a necessidade de aperfeiçoamentos no arcabouço fiscal, especialmente na gestão das receitas provenientes do petróleo, com propostas inspiradas em modelos adotados por países como Noruega e Chile. Em um ambiente caracterizado por dívida pública elevada, juros altos e crescimento moderado, a combinação entre inflação resiliente e incertezas fiscais continua figurando entre os principais fatores de atenção para os mercados brasileiros.
· 01:46 — A pressão sobre os preços continua
Como comentei ontem, a inflação ao produtor nos Estados Unidos voltou a surpreender negativamente em maio. O índice de preços ao produtor avançou 1,06% na comparação mensal, superando a expectativa de alta de 0,7% e elevando a variação acumulada em 12 meses para 6,5%, o maior patamar desde o final de 2022.
Embora a energia continue desempenhando papel relevante nesse movimento, as pressões inflacionárias passaram a se espalhar por outros segmentos da economia, com destaque para os setores de serviços financeiros e saúde.
Diante desse cenário, o mercado tem revisado para cima as projeções para o núcleo do PCE, principal indicador de inflação acompanhado pelo Federal Reserve, reforçando a percepção de que o processo de convergência da inflação para a meta permanece mais lento e desafiador do que o esperado. Ainda que haja baixa probabilidade a novas altas imediatas de juros, cresce a avaliação de que o Banco Central americano precisará manter uma postura restritiva por um período mais prolongado.
Apesar do pano de fundo inflacionário menos favorável, os mercados reagiram positivamente após Donald Trump sinalizar avanços nas negociações com o Irã e anunciar o cancelamento de novos ataques militares à região. O alívio geopolítico impulsionou os principais índices acionários americanos, com destaque para o Nasdaq, que avançou 2,5%, enquanto o Dow Jones e o S&P 500 registraram altas de 1,9% e 1,8%, respectivamente.
Ainda assim, o estrago já foi feito. A combinação entre inflação persistente, juros potencialmente elevados por mais tempo e sinais de enfraquecimento gradual do consumidor americano continua exigindo cautela. Os investidores seguem atentos aos próximos indicadores econômicos, especialmente aqueles relacionados à inflação e à confiança das famílias, em um ambiente no qual o risco de convivência entre pressões inflacionárias, condições financeiras mais apertadas e desaceleração da atividade permanece presente, mesmo que ainda não configure o cenário-base para a economia americana.
· 02:32 — 39 vezes
A guerra entre Estados Unidos e Irã voltou a produzir sinais contraditórios, evidenciando a complexidade e a fragilidade do atual processo de negociação. Após afirmar que lançaria uma nova rodada de ataques contra Teerã, Donald Trump anunciou posteriormente a suspensão das operações militares, alegando avanços relevantes nas discussões de um acordo que poderia levar à reabertura do Estreito de Ormuz e à redução das hostilidades na região.
Segundo o presidente americano, os documentos estariam em fase final de elaboração e poderiam ser assinados nos próximos dias. Foi a trigésima-nona vez que o presidente americano disse estar perto de um acordo. Do lado iraniano, porém, autoridades afirmaram que nenhum entendimento foi concluído até o momento, embora relatos da imprensa indiquem a existência de uma minuta em negociação que contempla um cessar-fogo permanente, a reabertura do estreito, o alívio de sanções e um amplo programa de reconstrução.
Enquanto isso, episódios militares continuam ocorrendo na região, incluindo a interceptação de drones iranianos nas proximidades do Estreito de Ormuz, reforçando que a situação permanece instável e sujeita a novos episódios de escalada.
Mesmo com a possibilidade de uma solução diplomática ganhando espaço, os impactos econômicos do conflito já se mostram relevantes. O Banco Mundial revisou para baixo suas projeções de crescimento global e passou a estimar uma expansão de apenas 2,5% para a economia mundial em 2026, citando os efeitos da guerra sobre os mercados de energia, o comércio internacional e os custos de importação.
A instituição também alertou que, caso as interrupções no fornecimento de energia se tornem mais severas e sejam acompanhadas por um ambiente de maior estresse financeiro, o crescimento global poderia desacelerar para apenas 1,3%. O episódio reforça a percepção de que o conflito já ultrapassou a dimensão regional e passou a representar um importante choque de oferta para a economia global, com potencial para pressionar não apenas os preços de energia, mas também a inflação e, eventualmente, os custos dos alimentos caso as tensões se prolonguem.
· 03:29 — Tentando armazenar
A expansão acelerada da inteligência artificial (IA) está abrindo uma nova e relevante frente de crescimento para o setor de armazenamento de energia. Empresas de diferentes segmentos, desde a Ford até fabricantes especializadas como a Fluence Energy, vêm ampliando investimentos em sistemas de baterias de grande escala capazes de armazenar eletricidade para data centers, além de atender às aplicações tradicionais associadas às fontes renováveis.
Esse movimento ganha ainda mais força em um ambiente marcado por tarifas elevadas sobre baterias chinesas e por incentivos à produção doméstica nos Estados Unidos, fatores que estimulam a indústria local e reduzem parte da pressão competitiva exercida pelos fabricantes asiáticos.
Mais do que uma consequência da transição energética, a crescente demanda por eletricidade gerada pelos data centers dedicados à inteligência artificial passou a se consolidar como um dos principais vetores de expansão do setor. As baterias deixaram de desempenhar apenas o papel de complemento para projetos solares e eólicos e passaram a ocupar uma posição estratégica na armazenagem, no fornecimento de energia de reserva e na estabilização do consumo elétrico.
Segundo estimativas do Morgan Stanley, a capacidade de armazenamento adicionada à rede americana, que alcançou 57 gigawatts-hora no último ano, pode atingir 279 gigawatts-hora até 2030. A magnitude desse crescimento fica evidente no plano da Ford, que pretende investir cerca de US$ 2 bilhões no segmento e iniciar suas operações comerciais em 2027, reforçando como a infraestrutura energética se tornou uma das principais beneficiárias indiretas da revolução provocada pela inteligência artificial.
· 04:11 — Excessos que preocupam
As distorções financeiras têm se tornado cada vez mais visíveis em diferentes mercados asiáticos, levando autoridades e instituições financeiras a adotar medidas destinadas a conter excessos e reduzir potenciais riscos de instabilidade. Na Coreia do Sul, a forte valorização de empresas ligadas à inteligência artificial, como SK Hynix e Samsung, levou bancos globais a restringirem operações alavancadas diante da preocupação com os impactos de uma correção mais profunda nos ativos.
Na China, a combinação entre crescimento mais fraco e baixa demanda por crédito gerou excesso de liquidez no sistema financeiro, incentivando as autoridades a promover condições monetárias menos expansionistas para evitar a formação de bolhas em ativos como os títulos públicos. Já na Indonésia, a pressão sobre a moeda, a saída de capital estrangeiro e a deterioração da liquidez dos mercados levaram o banco central a elevar os juros de forma inesperada e reforçar o controle sobre operações cambiais.
Embora as respostas adotadas variem de país para país, todas refletem uma preocupação comum: os efeitos colaterais provocados por fluxos excessivos de capital e pela elevada concentração dos investidores em determinados temas, especialmente aqueles ligados à inteligência artificial. O desafio, contudo, é que a eficácia dessas medidas tende a ser limitada enquanto permanecerem presentes os fatores estruturais que alimentam essas distorções.
Em um ambiente caracterizado por abundância de liquidez em algumas economias, fragilidade econômica em outras e pela continuidade do ciclo de investimentos associado à inteligência artificial, a tendência é que investidores e formuladores de política econômica continuem convivendo com episódios recorrentes de volatilidade e com comportamentos cada vez mais incomuns nos mercados financeiros globais.
· 05:05 — Quando a volatilidade cria oportunidades
A abertura dos spreads no mercado de crédito incentivado era um risco que vínhamos destacando há vários meses. A combinação entre dificuldades enfrentadas por alguns emissores relevantes, o enfraquecimento do desempenho dos fundos e a continuidade dos resgates levou a uma reprecificação significativa dos ativos, especialmente das debêntures incentivadas.
Diferentemente dos fundos de crédito tradicionais, que contam com maior flexibilidade para administrar liquidez e posições de caixa, os veículos especializados em crédito incentivado tendem a ficar mais expostos aos efeitos da marcação a mercado em períodos de saída de recursos. Ainda assim, nossa avaliação era de que esse movimento começava a criar pontos de entrada mais atrativos, sobretudo nos fundos fechados de infraestrutura, cuja estrutura elimina o risco de vendas forçadas decorrentes de resgates.
Foi nesse contexto que a Sparta anunciou uma redução temporária na distribuição do JURO11, após um longo período pagando R$ 1,00 por cota ao mês. Em nossa leitura, a decisão reflete muito mais a mudança de direção do mercado do que qualquer deterioração dos fundamentos da carteira.
Nos últimos anos, parte relevante dos rendimentos distribuídos foi sustentada não apenas pelo carrego dos títulos, mas também pelos ganhos de capital proporcionados pelo fechamento dos spreads de crédito. Com a recente abertura desses spreads e a elevação dos juros reais, fator particularmente relevante para um fundo indexado ao IPCA, esse componente adicional de retorno deixou de existir, exigindo uma postura mais conservadora na distribuição.
Em conversa com a gestora, a avaliação foi de que os preços dos ativos já apresentam melhora em relação aos momentos mais críticos, embora a dinâmica de resgates nos fundos abertos da indústria ainda continue contribuindo para a volatilidade no curto prazo.
É justamente nesse ambiente que enxergamos uma oportunidade interessante no JURO11. Por ser um fundo fechado, o veículo não enfrenta a pressão de vender ativos para fazer frente a resgates, o que lhe confere maior capacidade de atravessar períodos de turbulência com disciplina e flexibilidade. Isso permite que a gestão recicle gradualmente a carteira em níveis mais elevados de spread, aproveitando distorções criadas pelo estresse recente do mercado.
Ao mesmo tempo, a reação negativa dos investidores ao corte de distribuição ampliou o desconto da cota de mercado para cerca de 4% e elevou a taxa implícita de negociação para aproximadamente IPCA + 9,8% ao ano, líquida de taxas.
Na nossa avaliação, a redução dos rendimentos possui caráter muito mais conjuntural do que estrutural. A combinação entre spreads mais atrativos, desconto na cota de mercado e benefícios inerentes à estrutura fechada cria uma relação risco-retorno particularmente interessante para investidores com horizonte de médio e longo prazo.