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Os mercados globais operam em tom de maior cautela nesta terça-feira, pressionados principalmente pela escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e pela alta dos preços do petróleo. O cessar-fogo de 60 dias expirou sem acordo, com Washington descartando uma extensão imediata e Teerã sinalizando disposição para adotar uma postura mais ofensiva caso as negociações não avancem.
Donald Trump também elevou o tom ao ameaçar Omã caso o país interfira nas tratativas envolvendo o Estreito de Ormuz, enquanto um novo ataque a uma embarcação na região reforçou a percepção de risco. Nesse ambiente, o Brent voltou a superar US$ 90 por barril, reacendendo as preocupações com uma nova rodada de pressão inflacionária e com eventuais interrupções mais prolongadas no fluxo de energia pelo estreito, uma das rotas mais importantes para o comércio mundial de petróleo.
A deterioração do quadro geopolítico vem sendo acompanhada por uma nova rodada de pressão sobre os títulos soberanos de longo prazo. Nos Estados Unidos, o Treasury de 30 anos opera próximo das máximas de mais de duas décadas, enquanto os rendimentos dos títulos de 10 e 2 anos também avançam. O movimento reflete uma combinação de preocupações com a inflação, déficits fiscais elevados e maior oferta de dívida, ao mesmo tempo em que os investidores acompanham o crescimento do endividamento associado aos investimentos em inteligência artificial.
Na Ásia, o ambiente foi ainda mais desafiador, com Nikkei e Kospi registrando quedas expressivas, enquanto os mercados chineses apresentaram desempenho relativamente mais resiliente.
· 00:55 — Um ambiente difícil
O mercado brasileiro segue em um ambiente de cautela, com o Ibovespa encerrando a segunda-feira praticamente estável, em queda de 0,09%, aos 166.784 pontos, na décima sessão consecutiva de perdas. O índice chegou a avançar durante o pregão, mas perdeu força diante da queda das ações bancárias, pressionadas pela exposição às dívidas de Casas Bahia e Marabraz após os pedidos de recuperação judicial das varejistas.
O movimento ocorre em meio à proximidade das eleições, à saída de investidores estrangeiros e a um cenário externo ainda sensível às tensões entre Estados Unidos e Irã. No câmbio, o dólar recuou cerca de 0,4%, para a região de R$ 5,20, em uma correção após cinco sessões consecutivas de alta, enquanto os juros futuros também devolveram parte do estresse acumulado na semana anterior.
No campo macroeconômico, como comentei ontem, o destaque foi o IBC-Br de junho, que caiu 0,64% na margem, abaixo da expectativa de recuo de 0,50%, confirmando a perda de fôlego da atividade no fim do segundo trimestre. Indústria e serviços recuaram, enquanto a agropecuária avançou, e o indicador encerrou o 2T26 com alta de apenas 0,2%, ante 1,2% no trimestre anterior, deixando um carry-over negativo para o terceiro trimestre.
O dado reforça a perspectiva de desaceleração do PIB e aumenta a probabilidade de um corte de 25 pontos-base da Selic em setembro. Ainda assim, o espaço para novas reduções segue condicionado a fatores como petróleo, câmbio, fiscal e eleições. A alta do Brent acima de US$ 90 e a escalada das tensões no Oriente Médio mostram que a trajetória de juros à frente pode se tornar mais complexa, mesmo com sinais mais claros de enfraquecimento da economia doméstica.
· 01:44 — Problemas nos juros longos
Nos Estados Unidos, seguimos com um ambiente de aparente calmaria, mas os movimentos recentes no mercado de juros sugerem que uma parcela relevante do risco vem se deslocando para a renda fixa de longo prazo. Na segunda-feira, o S&P 500 recuou 0,5%, o Nasdaq caiu 0,3% e o Dow Jones cedeu 0,5%, enquanto o setor de semicondutores destoou positivamente e o índice SOX voltou a entrar em bull market, acumulando alta de 20% desde a mínima de 29 de julho.
O setor de energia também avançou, acompanhando a valorização de 2,6% do petróleo WTI, para US$ 84,50 por barril. Em paralelo, o rendimento do Treasury de 30 anos subiu para 5,31%, maior nível desde 2007, refletindo uma combinação de inflação ainda resistente, petróleo mais caro, déficits fiscais elevados e maior necessidade de emissão de dívida.
A pressão sobre os títulos de longo prazo não se restringe aos EUA. Os rendimentos da dívida soberana também avançaram em países como França, Alemanha, Reino Unido e Japão, reforçando a percepção de que os investidores estão exigindo prêmios mais elevados para financiar governos em um ambiente de endividamento crescente. Nos EUA, esse quadro é agravado por déficits anuais próximos de US$ 2 trilhões, uma dívida pública caminhando para US$ 40 trilhões e uma oferta crescente de títulos corporativos ligados aos investimentos em inteligência artificial.
Esses papéis passaram a competir com os Treasuries por capital, ao mesmo tempo em que a demanda tradicional por títulos soberanos de longo prazo dá sinais de enfraquecimento. O resultado é uma elevação do prêmio de prazo e uma perda parcial da função tradicional desses ativos como instrumento de proteção e diversificação.
Por enquanto, o mercado não parece precificar uma crise: os juros de curto prazo permanecem relativamente estáveis e os índices acionários seguem próximos das máximas. Ainda assim, a combinação entre petróleo mais caro, dúvidas sobre disciplina fiscal, emissão recorde de dívida e investimentos crescentes em IA merece atenção, especialmente se passar a exercer pressão adicional sobre os juros reais de longo prazo.
Nesse ambiente, empresas com balanços robustos e menor dependência de financiamento tendem a ganhar importância relativa, tanto em um cenário de continuidade da alta dos rendimentos por razões fiscais quanto em um eventual movimento de queda provocado por uma desaceleração econômica. O ponto central, portanto, é que a principal fonte potencial de instabilidade pode estar menos no mercado acionário em si e mais na capacidade dos mercados de absorver volumes crescentes de dívida a custos cada vez mais elevados.
· 02:39 — Crédito para financiar infraestrutura
O mercado de crédito ligado à inteligência artificial vem passando por uma transformação relevante em 2026, impulsionada pelo forte aumento das emissões de dívida. Já foram colocados cerca de US$ 500 bilhões em títulos vinculados à IA neste ano, ante US$ 120 bilhões em 2025, e uma parcela significativa desse volume foi emitida por empresas com classificações de crédito elevadas.
Paradoxalmente, porém, esses títulos de maior qualidade, classificados como AAA e AA, têm apresentado desempenho inferior ao de papéis BBB e A. A explicação parece estar menos na deterioração do risco de crédito e mais nas características desses instrumentos: por oferecerem spreads menores e, em geral, apresentarem duration mais longa, eles são mais sensíveis às oscilações das taxas livres de risco. Assim, em um ambiente de juros elevados e de oferta crescente de novos títulos, a pressão sobre os preços pode ser maior justamente entre os emissores mais bem avaliados.
A principal leitura, portanto, é que o mercado enfrenta hoje mais um problema de duração e volume de dívida do que propriamente de piora na qualidade de crédito. O aumento do capex dos hyperscalers e das emissões associadas à infraestrutura de IA está criando uma oferta recorde de títulos de alta qualidade, alterando a relação tradicional entre classificação de risco e desempenho.
O risco mais relevante surgiria caso esses investimentos não gerassem retornos suficientes ou se o aumento do endividamento e dos gastos passasse a alimentar novas pressões inflacionárias, obrigando os bancos centrais a manter ou elevar os juros por mais tempo. Nesse cenário, a combinação entre duration longa, grande volume de emissões e política monetária restritiva poderia exercer pressão mais significativa sobre o crédito corporativo, mesmo sem uma deterioração material na qualidade dos emissores.
· 03:28 — Crise de alimentos?
Os riscos de uma crise global de alimentos permanecem relativamente baixos, mesmo diante da combinação entre as tensões geopolíticas envolvendo o Irã e a intensificação do El Niño. Um dos principais fatores que ajudam a limitar esse risco é a normalização parcial do mercado de fertilizantes, especialmente após a retomada das exportações de ureia pela China, movimento que contribui para conter os custos de produção agrícola e reduz a probabilidade de impactos mais relevantes sobre a oferta global. Além disso, os fundamentos do setor permanecem robustos, sustentados por boas colheitas recentes, estoques elevados de grãos e oleaginosas e balanços globais ainda confortáveis.
Embora o El Niño possa provocar perdas localizadas em determinadas regiões e culturas, o cenário-base não aponta, por enquanto, para um choque amplo e persistente de oferta. A combinação entre estoques abundantes, maior capacidade de adaptação dos produtores e condições mais equilibradas no mercado de insumos reduz a probabilidade de uma alta sustentada das commodities agrícolas. Para os investidores, isso significa que a volatilidade pode permanecer elevada em razão dos riscos climáticos e geopolíticos, mas, neste momento, faltam fundamentos para sustentar um movimento amplo e duradouro de valorização dos preços agrícolas.
· 04:12 — Efeitos sobre a economia
A inteligência artificial já começa a produzir efeitos relevantes sobre a economia global, mas a magnitude desses ganhos e seus impactos sobre o mercado de trabalho ainda permanecem altamente incertos. No cenário-base, a expectativa é de que a IA eleve a produtividade dos Estados Unidos em cerca de 3,5% na próxima década, a partir da combinação entre a exposição das tarefas à tecnologia, a velocidade de adoção e a capacidade de transformar seu uso em ganhos efetivos de eficiência.
A partir dessa referência, três cenários ajudam a ilustrar a amplitude dos possíveis resultados: o “Avanço da IA”, marcado por fortes ganhos de produtividade e boa adaptação do mercado de trabalho; a “Disrupção da IA”, em que a produtividade também avança de forma expressiva, mas acompanhada por aumento mais significativo do desemprego estrutural; e o “Desapontamento com a IA”, no qual a adoção da tecnologia e seus retornos econômicos ficam aquém do esperado.
As diferenças entre esses cenários são expressivas. Até 2060, o PIB do G7 poderia ficar cerca de 8% acima do cenário-base no caso de “Avanço” e 6% acima no cenário de “Disrupção”, enquanto um resultado de “Desapontamento” deixaria o PIB aproximadamente 4% abaixo da referência. Os maiores benefícios tenderiam a se concentrar em economias mais digitalizadas e com maior exposição à IA, como as do G7, enquanto países como China e Índia poderiam capturar ganhos menores em razão de limitações na difusão da tecnologia.
A principal conclusão é que a IA tem potencial para elevar de forma relevante os níveis de produtividade e de PIB, mas ainda existe grande incerteza quanto à intensidade desse impacto e à forma como seus benefícios serão distribuídos entre capital e trabalho. Para os mercados, essa discussão é particularmente importante, pois parte das avaliações atuais das empresas de tecnologia já incorpora a expectativa de retornos econômicos substanciais associados a essa transformação no longo prazo.
· 05:07 — Novas fronteiras para o crescimento da inteligência artificial
A Nvidia (NASDAQ: NVDA | B3: NVDC34) segue sustentando uma tese estruturalmente construtiva, apoiada pela continuidade da expansão dos investimentos em inteligência artificial e pela força da demanda por infraestrutura computacional. No segundo trimestre fiscal, a companhia reportou receita de US$ 46,7 bilhões, alta de 56% na comparação anual, e projetou vendas de US$ 54 bilhões para o trimestre seguinte.
Embora o guidance tenha ficado abaixo das estimativas mais otimistas, parte dessa postura mais cautelosa decorre da exclusão das vendas para a China, diante das restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos. Caso as licenças para os chips H20 avancem, a própria empresa estima que as vendas ao mercado chinês poderiam acrescentar até US$ 5 bilhões em um único trimestre, representando uma fonte relevante de potencial adicional ainda não incorporada às projeções atuais.
Ao mesmo tempo, a companhia vem ampliando sua estratégia de expansão geográfica, com destaque crescente para a América Latina. A região ainda representa menos de 5% da receita global da Nvidia, mas Brasil e México começam a ganhar importância como potenciais polos de data centers e infraestrutura de IA. No México, a empresa participa de uma iniciativa voltada à instalação de data centers, à formação de engenheiros e ao desenvolvimento do ecossistema local, enquanto, no Brasil, colabora com iniciativas ligadas ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial.
A disponibilidade de energia relativamente competitiva, a presença de fontes renováveis e o movimento de nearshoring criam condições favoráveis para atrair hyperscalers, os grandes operadores de infraestrutura em nuvem, e novos investimentos em capacidade computacional. Ainda assim, esse avanço depende não apenas de capital e infraestrutura, mas também da formação de profissionais qualificados, hoje apontada pela própria Nvidia como um dos gargalos para o desenvolvimento.
Para as ações da Nvidia, o ponto central continua sendo a expansão da demanda por IA para além dos grandes mercados tradicionais, abrindo novas frentes de crescimento para a companhia. A proliferação de modelos mais eficientes, como os desenvolvidos por empresas chinesas, também pode ampliar o universo de usuários e aplicações, em vez de necessariamente reduzir a necessidade de capacidade computacional.
Ao mesmo tempo, a diversificação geográfica pode ajudar a mitigar parcialmente os riscos associados às restrições comerciais com a China. A tese, portanto, permanece sustentada por crescimento elevado, expansão da infraestrutura global de IA e aumento da adoção tecnológica, embora continue sensível a fatores como regulação, geopolítica, execução dos investimentos e expectativas já bastante elevadas incorporadas ao preço das ações.