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Crypto Pulse

Como a blockchain e os criptoativos podem redefinir o futuro da economia?

A blockchain caminha a passos largos para ser integrada ao sistema financeiro, trazendo eficiência, velocidade, e transformando os serviços que usamos para pagar, investir e movimentar dinheiro

Por Luis Kuniyoshi

27 set 2026, 15:00

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Imagem: iStock.com/MaxFrost

Na última quinta-feira (24), participei de um encontro promovido pelo Market Makers, um dos maiores podcasts de finanças do Brasil, com patrocínio da Binance. O evento reuniu executivos da corretora e profissionais do mercado financeiro para discutir como os ativos digitais podem transformar os serviços que usamos para pagar, investir e movimentar dinheiro.

A oportunidade foi ouvir quem acompanha essa transformação por dentro: profissionais que conversam com instituições e reguladores e trabalham na aproximação entre criptomoedas e o sistema financeiro. Os dois painéis trataram da convergência entre inteligência artificial e blockchain, e dos produtos que podem levar essa infraestrutura a um público maior.

Saí de lá com uma ideia que dá o tom desta edição: blockchain caminha a passos largos para ser integrada ao sistema financeiro, trazendo eficiência e velocidade. A prova de que essa tecnologia “venceu” será quando ela for utilizada sem que as pessoas percebam que estão usando cripto.

Por isso, hoje começamos pelos aprendizados do encontro: a experiência do usuário, a conexão com a IA, e os caminhos para transformar adoção em valor para a carteira. Depois, voltamos ao Bitcoin, cuja recuperação ganhou apoio dos compradores, mas ainda enfrenta a pressão do petróleo e dos juros.

Você pode usar cripto sem precisar aprender sobre cripto?

A experiência do usuário deve ser decisiva para levar os ativos digitais a um público maior. Ao longo dos dois painéis, a aproximação com bancos, gestoras e empresas apareceu como um caminho para essa expansão. Regras mais claras ajudam essas instituições a desenvolver produtos; serviços mais simples ajudam a colocá-los no cotidiano das pessoas.

Essa foi uma das mensagens das conversas com os executivos da Binance: quem precisa transferir dinheiro ou fazer um investimento quer resolver um problema, sem necessariamente estudar a tecnologia por trás da operação. A adoção pode acontecer dentro de um aplicativo financeiro, sem exigir que o cliente escolha uma rede ou administre uma carteira digital por conta própria.

Durante anos, entrar nesse mercado exigiu aprender sobre carteiras digitais, redes e taxas. A visão apresentada no encontro aponta para serviços que absorvem essa complexidade e entregam uma experiência mais simples, parecida com a dos aplicativos financeiros que já usamos.

No fim, o que importa é resolver o problema de forma eficiente, segura e simples para o usuário, não como a tecnologia funciona por de trás, afinal, você sabe como funciona toda estrutura do PIX ou do seu próprio cartão de crédito?

A inteligência artificial também vai precisar pagar contas

O primeiro painel, “A nova corrida tecnológica: como IA e blockchain estão redefinindo a economia”, reuniu Pedro Kunzler, da área institucional da Binance, e Leonardo Dawadji, especialista em inteligência artificial aplicada ao mercado financeiro. A conversa mostrou como essas tecnologias podem se complementar na execução de serviços e na movimentação de dinheiro.

Pedro destacou que pagamentos e outros serviços continuaram avançando mesmo nos últimos meses, períodos ruins para as cotações, evidenciando que o institucional não sumiu mesmo em meio a um cenário adverso. O interesse vai além da simples exposição via alocação direta. Leonardo trouxe o desafio da aplicação nas empresas: as ferramentas já executam tarefas relevantes, mas sua adoção exige organizar dados, definir limites e verificar os resultados.

Uma conexão entre essas duas visões são os agentes de inteligência artificial, programas que recebem um objetivo e executam tarefas para alcançá-lo. Se um agente precisar contratar um servidor ou comprar dados, alguém terá que definir como ele pode pagar por isso. Moedas digitais e blockchain podem fazer parte dessa infraestrutura.

Imagine um agente autorizado a contratar um serviço dentro de um orçamento definido. A operação poderia ser executada e registrada digitalmente, respeitando limites estabelecidos pelo responsável. É uma possibilidade de uso que aproxima automação e movimentação de dinheiro.

Mas autonomia exige controle. As discussões destacaram parâmetros de autorização, supervisão humana e proteção dos dados. Quanto maior o impacto de uma decisão, mais importante se torna definir o que o sistema pode fazer e quem responde pelo resultado.

Para o investidor, essa convergência merece acompanhamento. Ainda assim, associar um projeto à inteligência artificial é apenas o começo da análise: precisamos saber se existe um serviço útil, quem paga por ele e qual o papel do token nessa operação.

Uma tecnologia útil precisa virar valor para o investidor

O segundo painel, “Capitalizando a próxima onda da inovação”, aproximou a discussão da nossa vida financeira. Participaram Thiago Sarandy, diretor-geral da Binance no Brasil, e Arturito Faria Lima, influenciador de finanças com experiência em análise de ações. A pergunta central era como essa infraestrutura pode chegar aos produtos e, finalmente, à carteira do investidor.

Sarandy destacou o potencial de mercados que funcionam continuamente e permitem transferências globais. As stablecoins ajudam a entender esse caminho: são moedas digitais que procuram acompanhar o valor de uma referência, como o dólar, e podem ser usadas para transferir recursos entre países. Para o usuário, a vantagem potencial está no custo e na velocidade da operação.

Outro caminho é a tokenização: a representação digital de um ativo ou direito, como uma participação em um fundo. Em determinados modelos, isso permite usar redes blockchain para registrar e transferir esses investimentos, aproximando produtos tradicionais de uma infraestrutura que funciona continuamente.

Sarandy também mencionou planos de ampliar a oferta de produtos ligados ao CDI. É um exemplo de como empresas conhecidas pela negociação de criptomoedas procuram atender outras necessidades financeiras.

O potencial é relevante. Sua concretização depende das regras, da segurança e da capacidade de entregar uma experiência melhor. Para acompanhar essa transformação, vale observar quais soluções conquistam usuários e resolvem problemas reais.

Uma pergunta da plateia levou essa discussão para o retorno do investimento: se uma blockchain for cada vez mais utilizada, seu token necessariamente precisa subir? A resposta é não. Uma rede pode ganhar usuários sem que seu token se valorize na mesma proporção.

Ao investir em um token, você não se torna automaticamente sócio de todas as empresas que utilizam aquela tecnologia. A expansão de um serviço pode beneficiar seus usuários e operadores sem criar uma demanda equivalente pelo ativo negociado em bolsa ou corretora.

Por isso, a análise precisa ir além do tamanho do mercado. O uso do serviço exige comprar ou manter o token? A oferta pode aumentar rapidamente? O crescimento da atividade cria algum benefício econômico para quem detém o ativo?

Essas respostas variam de um projeto para outro. Uma boa história sobre pagamentos, tokenização ou IA pode abrir a investigação, mas não encerra a decisão de investimento.

Arturito Faria Lima trouxe uma questão complementar ao painel: qual função cada posição cumpre na carteira? Uma exposição voltada à proteção cambial tem um objetivo diferente de uma aposta em crescimento. O tamanho da posição e a tolerância às oscilações precisam acompanhar essa diferença.

Quanto mais fácil fica comprar um ativo, mais importante se torna saber por que comprá-lo. É esse cuidado que permite participar da transformação sem tratar todos os projetos como vencedores antecipados.

O Bitcoin ganhou compradores; a alta precisa preservá-los

Apesar de muito positivos, os insights trazidos no evento apontam para uma transformação que deve se materializar ao longo de um horizonte mais longo — e que, justamente por isso, reforça nossa convicção estrutural no setor. No curto prazo, porém, seguimos acompanhando o mercado de perto e gerindo o risco de forma ativa, buscando capturar as oportunidades sem perder de vista as oscilações do ciclo.

Ao longo desta semana, observamos um movimento de alta do Bitcoin que deu continuidade à recuperação discutida na edição anterior. Na última segunda-feira (21), o BTC avançou 6,7% entre fechamentos e superou os US$ 86 mil.

O alívio inicial do petróleo ajudou a criar um ambiente mais favorável aos investimentos de risco. Dentro do mercado cripto, a alta ganhou velocidade com o encerramento forçado de apostas na queda, conforme citado na edição anterior: investidores que operavam posições vendidas alavancadas foram obrigados a recomprar o Bitcoin à medida que o preço subia, reforçando o movimento.

Essas recompras, porém, têm duração limitada. Depois desse impulso inicial, a continuidade da recuperação depende de compradores dispostos a absorver as vendas. É por isso que o comportamento dos ETFs, fundos negociados em bolsa que compram e mantêm BTC, ganhou importância nesta semana.

Entre segunda e quinta-feira, os ETFs americanos à vista receberam US$ 2,25 bilhões líquidos, com entradas em todos os quatro pregões — inclusive na quarta-feira, quando o preço recuou. Esse fluxo mostra que a demanda foi além das compras forçadas e ajuda a sustentar a recuperação.

A Strategy também anunciou, na segunda-feira, a aquisição de 950 BTC. As compras ocorreram entre 14 e 20 de setembro: reforçam a presença de demanda corporativa, mas não representam ordens executadas no dia do anúncio.

O ambiente econômico continua exigente, o alívio do petróleo no começo da semana ajudou os ativos de risco, mas a pressão voltou na quarta-feira. Energia mais cara dificulta a queda da inflação, enquanto juros elevados encarecem o financiamento dos investimentos.

O crédito ainda disponível funciona como um amortecedor. Isso ajuda a explicar por que mantemos uma visão construtiva para o Bitcoin, apesar desses obstáculos. A combinação que nos faria rever essa leitura seria a perda de compradores acompanhada de enfraquecimento do preço e piora das condições de financiamento.

Depois de superar as referências acompanhadas na semana anterior, o BTC passou a testar uma base entre US$ 84 mil e US$ 85 mil. A permanência de compradores nessa região daria mais consistência à recuperação; ela ainda precisa se firmar.

Amarrando as pontas

O cenário macro manteve suas principais características nesta semana. Petróleo e juros de longo prazo continuam exigindo atenção, mas o crédito segue fluindo e a economia permanece robusta. Enquanto essa combinação se mantiver, seguimos com expectativas positivas para o mercado cripto no médio prazo e enxergamos sustentação para a continuidade da alta.

Nossos indicadores de momentum, que acompanham a força e a direção da tendência, também seguem no verde. Diante disso, continuamos acreditando que este é um momento favorável para investir em cripto, inclusive com exposição seletiva a altcoins — os demais criptoativos além do Bitcoin — que estejam apresentando desempenho superior ao próprio BTC.

A seleção faz diferença: a recuperação não beneficia todos os ativos da mesma forma. Buscamos aqueles que demonstram maior força e ajustamos a exposição quando os sinais mudam. É essa disciplina que permite aproveitar as oportunidades e reagir quando o mercado perde sustentação.

Analista de criptomoedas na Empiricus Research.