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Os mercados globais operam em tom misto nesta quarta-feira, mas o pano de fundo permanece marcado por forte cautela. Na Ásia, a aversão ao risco foi intensa, com o Kospi despencando 5,8%, o Nikkei recuando mais de 3% e os mercados chineses também sob pressão.
O principal vetor de preocupação continua sendo a combinação entre petróleo acima de US$ 90 por barril, tensões geopolíticas no Oriente Médio, juros soberanos elevados e valuations mais exigentes no setor de tecnologia. O petróleo, em particular, segue como uma das principais fontes de risco para a inflação global.
O Brent permanece acima de US$ 90 por barril, sustentado pela redução do tráfego no Estreito de Ormuz, pelos ataques a embarcações e refinarias e pela ausência de avanços diplomáticos. Essa pressão ocorre justamente quando dados mais fracos da economia americana vinham reduzindo as apostas em novas altas de juros pelo Federal Reserve.
O problema é que, mesmo com algum alívio na parte mais curta da curva, os juros de longo prazo continuam elevados nas principais economias, pressionados por déficits públicos, aumento das emissões de dívida e maior competição global por capital. Esse movimento já aparece nos Treasuries e nos títulos soberanos do Japão, da Alemanha e da França, e começa a se refletir também nas ações de tecnologia, especialmente nas empresas ligadas à inteligência artificial e aos semicondutores, que dependem de volumes expressivos de investimento.
Na Europa, os dados de inflação também mantêm algum grau de pressão. Na Zona do Euro, a inflação ao consumidor ficou em 2,9% em julho, enquanto o núcleo acelerou para 2,5%. No Reino Unido, a inflação cheia também subiu para 2,9%, embora o enfraquecimento do mercado de trabalho ajude a limitar o risco de efeitos de segunda ordem, como uma propagação mais persistente da alta de preços para salários e serviços.
Nesse ambiente, a ata da reunião de julho do FOMC ganha importância adicional. O mercado buscará entender quantos dirigentes chegaram a considerar uma nova elevação dos juros, como o Federal Reserve avalia o atual grau de restrição da política monetária e em que medida tarifas, preços de energia e inflação podem justificar uma postura mais dura nos próximos meses.
· 00:59 — O custo fiscal
No Brasil, a pressão sobre os ativos aumentou com a forte saída de capital estrangeiro da B3. Entre 10 e 14 de agosto, investidores externos retiraram R$ 12,6 bilhões, a maior saída semanal desde 2008, enquanto o fluxo negativo no mês já somava cerca de R$ 18,1 bilhões. O movimento contribuiu para pressionar o Ibovespa, que caiu 0,27% na terça-feira, aos 166.335 pontos, acumulando onze pregões consecutivos de baixa, enquanto o dólar avançou para R$ 5,22.
A cautela reflete uma combinação de incerteza eleitoral, dúvidas fiscais, juros reais elevados em diversas economias e maior competição global por capital, em um ambiente externo mais avesso a risco e ainda marcado pelas tensões no Oriente Médio. Apesar disso, alguns gestores estrangeiros continuam identificando valor nos ativos brasileiros, destacando preços descontados, baixa participação dos fundos locais na Bolsa, abundância de minerais críticos, potencial energético e a posição relevante do país nos mercados de petróleo e grãos. Essa percepção, no entanto, segue condicionada à necessidade de maior clareza sobre a trajetória da política fiscal a partir de 2027.
O quadro se torna mais delicado porque o custo do dinheiro permanece elevado. No mercado doméstico, a curva de juros ainda precifica cerca de 70% de probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual da Selic em setembro, sustentado pelos sinais de desaceleração da atividade, enquanto os vencimentos mais longos continuam pressionados pelos riscos fiscal e eleitoral. A taxa implícita da dívida bruta atingiu 13,2% ao ano, o maior nível desde 2016, e a despesa financeira do governo alcançou R$ 149 bilhões no primeiro semestre, tornando a dinâmica da dívida cada vez mais onerosa.
O resultado é uma combinação pouco confortável para o mercado: atividade perdendo força e algum espaço para alívio monetário no curto prazo, mas prêmios de risco ainda elevados nos vencimentos longos e investidores à espera de sinais mais claros de responsabilidade fiscal antes de ampliar novamente a exposição ao país.
· 01:44 — Desconforto visível
Nos Estados Unidos, Wall Street encerrou a segunda sessão consecutiva de queda, pressionada principalmente pela forte correção no setor de semicondutores e por uma combinação cada vez mais desconfortável entre petróleo mais caro e juros de longo prazo elevados. O Dow Jones recuou 0,2%, o S&P 500 caiu 0,7% e o Nasdaq perdeu 1,3%, enquanto um dos principais índices de fabricantes de chips despencou cerca de 5%.
A fraqueza das empresas ligadas à inteligência artificial começa a refletir não apenas preocupações com concentração e com o retorno dos investimentos realizados no setor, mas também o aumento do custo de financiamento. Os rendimentos dos Treasuries de longo prazo permanecem próximos das máximas recentes, em um ambiente marcado por inflação ainda resistente, elevada oferta de dívida pública e emissões corporativas recordes associadas ao ciclo de investimentos em IA. Ao mesmo tempo, a alta do petróleo, alimentada pela ausência de negociações entre Estados Unidos e Irã, acrescenta uma nova fonte de pressão inflacionária e reforça a postura mais defensiva dos investidores.
A atenção agora se volta para a ata da reunião de julho do Federal Reserve, quando os juros foram mantidos na faixa de 3,50% a 3,75%, apesar de três dirigentes terem defendido uma elevação de 0,25 ponto percentual. O mercado buscará sinais sobre quantos membros chegaram a considerar um aperto adicional, como o Fed avalia o grau de restrição da política monetária e em que medida tarifas e preços de energia podem contaminar a inflação subjacente.
No mercado de renda fixa, a expectativa é de que os rendimentos permaneçam elevados no curto prazo e recuem apenas de forma gradual, diante da grande oferta de Treasuries e de uma base de compradores cada vez mais sensível aos preços. No cenário externo, Donald Trump afirmou que não há negociações em andamento com o Irã, enquanto suspendeu por três dias as tarifas de 50% previstas sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses após sinalizar a possibilidade de um acordo com Ottawa. O conjunto desses fatores mantém elevados os níveis de incerteza geopolítica, comercial e financeira.
· 02:31 — Mudança de competitividade
A Alemanha enfrenta uma combinação particularmente desconfortável de juros mais elevados e perda de competitividade industrial. Os custos de financiamento do país alcançaram os maiores níveis em cerca de 15 anos, com uma emissão de títulos de 30 anos realizada a um rendimento de 3,783%, patamar semelhante ao observado durante a crise da dívida da zona do euro. O movimento reflete preocupações mais amplas dos investidores com a inflação, o aumento do endividamento público e a pressão crescente sobre os títulos soberanos de longo prazo.
Ao mesmo tempo, a China deixou de ser apenas um mercado relevante para as empresas alemãs e passou a competir diretamente com elas em setores estratégicos, como automóveis, produtos químicos e maquinário industrial. As companhias chinesas vêm ampliando sua participação em diferentes mercados ao oferecer produtos cada vez mais sofisticados a preços competitivos, enquanto a importância da China como destino das exportações alemãs diminui. O país caiu da posição de segundo maior mercado externo da Alemanha, em 2021, para a nona colocação em 2026, enquanto o déficit comercial alemão com a China alcançou cerca de € 53 bilhões no primeiro semestre, reforçando o caráter estrutural do desafio enfrentado pela indústria alemã.
· 03:26 — Aprofundando a parceria militar
Japão e Austrália avançaram na cooperação de defesa com um acordo que permitirá a Tóquio testar mísseis hipersônicos em território australiano e com o desenvolvimento conjunto de um protótipo de arma a laser. A aproximação ocorre em meio à rápida expansão dos gastos militares japoneses, que chegaram a 2% do PIB, e reflete a crescente preocupação de Tóquio com o fortalecimento militar da China e sua postura no Indo-Pacífico.
Ao estreitar os laços com a Austrália, o Japão também busca diversificar sua rede de segurança para além da tradicional aliança com os Estados Unidos. Em um mundo em que a presença americana parece menos previsível, países começam a redesenhar suas estratégias de segurança e a construir novas alianças para preencher esse vazio.
· 04:12 — IA enfrenta um novo teste: o custo do capital
A alta dos juros de longo prazo começa a emergir como um novo risco para as ações ligadas à inteligência artificial. O movimento já aparece com força na Ásia, onde ações de tecnologia recuaram, com quedas expressivas na Coreia, China e Japão.
O problema é direto: empresas de tecnologia estão ampliando fortemente os investimentos em infraestrutura de IA e, para financiar esse ciclo, precisarão recorrer cada vez mais ao mercado de dívida. Com os custos de captação subindo, esse financiamento fica mais caro. A Alphabet, por exemplo, pagou quase 7% em sua primeira emissão de títulos de longo prazo em dólares australianos, a maior taxa já registrada pela companhia em uma operação desse tipo.
Ao mesmo tempo, uma onda de investimentos em IA estimada em cerca de US$ 1 trilhão pode ampliar a volatilidade na renda fixa global. Os grandes hyperscalers têm necessidades tão elevadas de capital que acabam aceitando custos de financiamento maiores, aumentando a oferta de títulos corporativos justamente quando governos também emitem volumes elevados de dívida.
Esse excesso de oferta pressiona os rendimentos dos títulos de longo prazo, em um ambiente já marcado por preocupações com inflação e déficits fiscais. O resultado é uma dinâmica que pode se retroalimentar: quanto mais caro fica o capital, maior a pressão sobre os múltiplos de empresas de crescimento e mais exigente se torna a discussão sobre o retorno efetivo dos investimentos em inteligência artificial.
· 05:03 — O mundo se prepara para uma nova era de defesa
O mundo parece estar entrando em uma fase cada vez mais fragmentada, militarizada e permanentemente exposta a riscos de conflito. O que antes era tratado como uma responsabilidade quase exclusiva das Forças Armadas começa, cada vez mais, a envolver a sociedade como um todo. Índia, Taiwan, Suécia, Finlândia, Coreia do Sul, Cingapura e Filipinas estão ampliando programas de defesa civil, treinamento de cidadãos, proteção de infraestrutura crítica, formação de estoques estratégicos e planos de evacuação.
A preocupação já não se limita a tanques, aviões ou mísseis: refinarias, bancos, centros de dados, redes elétricas, hospitais, sistemas de comunicação e cabos submarinos passaram a ser vistos como alvos potenciais da guerra moderna. Ataques cibernéticos, sabotagem, drones e campanhas de desinformação transformaram a própria infraestrutura econômica em uma extensão do campo de batalha.
Esse movimento é particularmente evidente na Europa e na Ásia. Desde a invasão da Ucrânia, países europeus passaram a se preparar para possíveis episódios de sabotagem, ataques cibernéticos e interrupções de serviços essenciais, enquanto governos mais próximos da Rússia coordenam rotas de evacuação, capacidade de transporte e acolhimento de populações. Na Ásia, a crescente tensão envolvendo China, Taiwan e Coreia do Norte produz resposta semelhante. Taiwan já simula interrupções deliberadas de internet em exercícios militares, a Coreia do Sul retomou treinamentos nacionais de defesa civil e outros países vêm ampliando contingentes de voluntários e reservistas.
O aspecto mais preocupante é que essas iniciativas não parecem medidas isoladas: elas refletem a percepção crescente dos próprios governos de que o ambiente de segurança global se deteriorou e de que sociedades inteiras precisam estar preparadas para conviver com crises mais frequentes e potencialmente mais severas.
Para os investimentos ligados à defesa, essa mudança reforça uma tese que vai muito além de um conflito específico. O aumento estrutural dos gastos militares e de segurança tende a envolver não apenas armamentos tradicionais, mas também defesa aérea, drones, cibersegurança, comunicações, inteligência, infraestrutura crítica, logística e tecnologias voltadas à resiliência. A própria preparação civil passa a funcionar como instrumento de dissuasão: quanto mais difícil for paralisar uma sociedade, menor tende a ser o incentivo para atacá-la.
Em um mundo no qual Europa e Ásia voltam a se preparar explicitamente para cenários de guerra, a defesa deixa de ser apenas uma resposta emergencial e passa a ocupar uma posição mais permanente nos orçamentos públicos e nas estratégias nacionais. Trata-se de um pano de fundo preocupante do ponto de vista geopolítico, mas que reforça, de forma estrutural, a perspectiva de longo prazo para empresas expostas ao complexo global de defesa e segurança.
Essa tendência continua criando oportunidades em companhias ligadas aos segmentos de defesa, aeroespacial e segurança nacional. ETFs temáticos, como o Select STOXX Europe Aerospace & Defense (EUAD), o Global X Defense Tech (SHLD) e o First Trust Indxx Aerospace & Defense (MISL), oferecem formas eficientes de capturar esse movimento por meio de uma exposição diversificada a empresas potencialmente beneficiadas pelo aumento estrutural dos gastos militares.
No mercado brasileiro, alternativas como o BDR do iShares U.S. Aerospace & Defense ETF (BAER39) e o SHLD39 cumprem função semelhante, permitindo acesso simplificado à temática. Ainda assim, como em qualquer tese temática, a disciplina de alocação permanece essencial. Exposições individuais entre 1% e 2,5% da carteira, com limite agregado próximo de 5% para os temas mais disruptivos e sujeitos a maior estresse, tendem a oferecer um equilíbrio adequado entre potencial de retorno, diversificação e controle de risco, respeitando tanto o caráter estrutural da tese quanto a volatilidade inerente ao setor.