2024, o ano da geopolítica. Imagem: Freepik
Na agenda do dia, o deflator do PCE americano — principal métrica de inflação acompanhada pelo Federal Reserve — deve permanecer ligeiramente abaixo de 3%, tanto no índice cheio quanto no núcleo.
A ata mais recente do Fed revelou divergências quanto à trajetória futura da inflação e, por consequência, da política monetária, mas é importante destacar que as pressões inflacionárias correntes já vêm sendo consideradas nas decisões do banco central.
Com a também a divulgação do PIB do quarto trimestre no radar, o mercado pode reforçar uma postura mais cautelosa em relação a cortes de juros, sobretudo após um relatório de emprego mais forte.
No plano geopolítico, o ambiente tornou-se mais sensível. O presidente Donald Trump elevou o tom ao estabelecer um ultimato ao Irã, intensificando as tensões no Oriente Médio e impulsionando o petróleo ao maior nível em seis meses.
Esse movimento reacende preocupações inflacionárias e pressiona as bolsas globais. Paralelamente, o mercado japonês tem sido sustentado por fluxos estrangeiros consistentes após a vitória de Sanae Takaichi, enquanto o restante da Ásia exibe um quadro misto.
· 00:51 — O rali é real, mas o dinheiro é nervoso
No Brasil, a agenda da semana concentra-se em dados de emprego, em um momento em que o IBC-Br veio acima do esperado e, com isso, elevou a probabilidade de um corte mais parcimonioso de juros — possivelmente de apenas 25 pontos-base — na reunião do mês que vem.
Seja qual for o desfecho, o ponto central é que o fluxo segue presente. No primeiro pregão completo após o Carnaval, voltamos a ver o Ibovespa acima dos 188 mil pontos, com destaque para Petrobras — que respondeu bem à alta do petróleo — e para os bancos, que também contribuíram para sustentar o índice.
O investidor estrangeiro continua mostrando apetite por ativos emergentes, em linha com a rotação global de recursos que temos observado desde o ano passado. Mesmo após a valorização recente, ainda parece haver espaço para a continuidade do movimento. Mas aqui vale um alerta importante: não confunda “fluxo” com “tranquilidade”.
Uma parcela relevante desses recursos tem perfil mais tático e especulativo e, portanto, pode sair com a mesma velocidade com que entrou — especialmente à medida que a volatilidade ligada às eleições começar a ganhar corpo.
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· 01:49 — Pressão do crédito
Nos Estados Unidos, a breve sequência de alta nas bolsas foi interrompida por uma combinação de fatores de risco: o Dow Jones caiu 0,5%, o S&P 500 recuou 0,3% e o Nasdaq perdeu 0,3%, enquanto o petróleo WTI avançou 1,9%, a US$ 66,43, após o presidente Donald Trump sinalizar que pode decidir sobre uma eventual ação contra o Irã nos próximos dias.
Ao mesmo tempo, a Blue Owl Capital suspendeu resgates em um fundo de crédito privado, provocando queda de cerca de 10% em suas ações e pressionando o setor financeiro, reacendendo temores sobre riscos no mercado de US$ 1,8 trilhão de crédito privado. O ambiente de aversão a risco também reflete a expectativa pela divulgação do PCE e do PIB dos EUA, marcados para hoje, que podem nivelar melhor as expectativas dos investidores para os próximos cortes de juros.
· 02:34 — Uma decisão fundamental
O mercado acompanhou com elevada expectativa a possibilidade de uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre o uso da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) pelo presidente Trump para fundamentar parte relevante de sua política tarifária.
Embora, nas últimas semanas, temas tenham dividido as atenções, a decisão pode ser divulgada a qualquer momento e carrega potencial significativo de impacto sobre os mercados. Isso porque estão em jogo tarifas que respondem por aproximadamente US$ 130 bilhões em arrecadação. Ainda assim, apesar da retórica protecionista e da intensidade do debate político, o déficit comercial norte-americano mostrou pouca alteração: totalizou US$ 901,5 bilhões em 2025, praticamente em linha com os US$ 903,5 bilhões registrados em 2024.
Na prática, as tarifas modificaram a geografia do comércio exterior, mas não reduziram de forma relevante seu volume agregado. O déficit com a China recuou 31%, para US$ 202 bilhões, ao passo que aumentou com outros parceiros, como Taiwan, México e Vietnã — sinal de que parte das cadeias produtivas foi redirecionada. Paralelamente, estudos do Federal Reserve de Nova York indicam que cerca de 90% do custo das tarifas foi absorvido por empresas e consumidores americanos, segundo o qual companhias de médio porte triplicaram suas despesas tarifárias em 2025.
· 03:28 — A cúpula indiana
Na cúpula de IA em Nova Delhi, o primeiro-ministro Narendra Modi defendeu um modelo de inteligência artificial mais ético e atento ao Sul Global, buscando evitar que países emergentes se tornem apenas consumidores de tecnologia ou fornecedores de dados para EUA e China.
Em meio a alertas de lideranças como Sam Altman e Emmanuel Macron sobre regulação, uso por regimes autoritários e proteção de dados, a Índia já avança com regras mais rígidas, exigindo rastreabilidade e marcas d’água em conteúdos gerados por IA. Apoiado no peso de seu mercado de 1,4 bilhão de pessoas, Modi negocia contrapartidas com as big techs — estratégia que começa a render anúncios bilionários, como a parceria entre a OpenAI e o Grupo Tata para infraestrutura de grande escala no país.
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· 04:17 — Instabilidade política
Nesta semana, o Peru voltou a mergulhar em instabilidade política com a destituição do presidente interino José Jerí após apenas quatro meses no cargo, elevando para oito o número de líderes que passaram pela presidência desde 2016.
José María Balcázar assume, agora, de forma interina até as eleições de abril, que devem indicar o próximo rumo do país. Como venho comentando com vocês há algum tempo, esse episódio é um bom lembrete de que, no quadro mais amplo dos mercados emergentes, 2026 tende a ser um ano eleitoralmente decisivo para emergentes — e capaz de influenciar políticas econômicas relevantes.
No Brasil, voltamos a um ambiente de polarização semelhante ao de 2022, em que lulismo e bolsonarismo disputam espaço sobretudo pela rejeição; na Colômbia, cresce a possibilidade de uma inflexão do pêndulo político em direção à direita, como já vimos em outros países da América do Sul; e, na Hungria, uma vitória da oposição poderia reaproximar o país da União Europeia e favorecer os ativos locais, enquanto a permanência de Viktor Orbán tende a manter a pressão e o ruído.
No próprio Peru, o cenário-base aponta para um candidato de centro-direita, em linha com a tendência regional, ainda que com restrições relevantes à agenda de reformas; já na África do Sul, eleições locais devem testar a coesão do governo de unidade, com risco de aumento de tensões políticas nos próximos meses.
· 05:02 — Parceria estrutural
A parceria estratégica plurianual entre Nvidia e Meta reforça, de maneira bastante clara, o compromisso das duas companhias com a expansão estrutural da inteligência artificial. A Meta sinaliza que sua ambição em IA será sustentada por uma infraestrutura de altíssimo desempenho, com a implantação de milhões de GPUs das famílias Blackwell e Rubin, além de CPUs e soluções avançadas de rede da Nvidia.
Na prática, é um movimento que aumenta a visibilidade de demanda para a Nvidia ao longo de várias gerações de produtos e, ao mesmo tempo, consolida a Meta como um dos principais polos globais de investimento em capacidade computacional — inclusive com aplicações tangíveis, como o uso de recursos de computação confidencial no WhatsApp para viabilizar funcionalidades de IA com mais privacidade.
Do ponto de vista estratégico, o acordo também reforça o…