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Crypto Pulse

Sinal amarelo? Bitcoin (BTC) testa a confiança do mercado; entenda o que está em jogo agora

Bitcoin atravessa semana de oscilações influenciado pela economia norte-americana, e tendência perde força no curto prazo

Luis Kuniyoshi 2026

Por Luis Kuniyoshi

18 out 2026, 15:00

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Imagem: Edição CanvaPro

O Bitcoin atravessou mais uma semana de oscilações, influenciado principalmente pelos acontecimentos da economia americana. A inflação continua pressionando os mercados, mas o recuo recente dos juros de longo prazo trouxe algum alívio. Nesse ambiente, o Bitcoin conseguiu defender a região dos US$ 80 mil, preservando um nível importante para a continuidade da recuperação.

Nossos indicadores, porém, mostram uma diferença entre os horizontes de análise. No curto prazo, a tendência perdeu força e passou a apresentar uma leitura neutra. No médio prazo, a estrutura permanece favorável, indicando que, por ora, o ciclo de alta segue em voga.

A economia segue resiliente, enquanto o capital muda de direção

O cenário econômico americano continua apresentando sinais mistos. A inflação mais recente veio acima das expectativas, reforçando a possibilidade de que os juros permaneçam elevados por mais tempo. Por outro lado, a atividade econômica segue demonstrando resiliência, sustentada pelo consumo, pelos investimentos das empresas e por um mercado de trabalho que, apesar de alguma desaceleração, ainda não apresenta sinais de deterioração acentuada.

Essa combinação tem ajudado a manter a confiança dos investidores na economia americana, mas também cria um desafio. Uma economia forte ajuda a sustentar os resultados das empresas e reduz o risco de recessão. Ao mesmo tempo, se a atividade continuar aquecida demais, a inflação pode permanecer elevada, obrigando o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, a manter condições financeiras mais restritivas.

Esse cenário começou a provocar mudanças importantes no comportamento dos investidores. Depois de um longo período de valorização das empresas de tecnologia, especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial, o mercado passou a questionar o custo dos grandes investimentos no setor e a capacidade dessas companhias de transformar os gastos em resultados. Com isso, parte do capital começou a migrar para setores mais defensivos e para títulos do governo americano.

Esse movimento ajudou a interromper a alta dos juros dos Treasuries de longo prazo. Com mais investidores comprando esses títulos, seus preços subiram e suas taxas de rendimento recuaram. A queda dos juros de dez anos foi particularmente relevante, pois essa taxa funciona como referência para o custo do dinheiro na economia e influencia a avaliação de diversos ativos financeiros.

Para o Bitcoin, esse alívio é importante. O ativo funciona, em muitos momentos, como uma espécie de barômetro das condições de liquidez do mercado, reagindo de maneira intensa às mudanças nos juros e na disponibilidade de capital.

Isso acontece porque, assim como o ouro, o Bitcoin não gera fluxo de caixa nem distribui dividendos. Dessa forma, quando os títulos americanos passam a oferecer rendimentos mais elevados, aumenta o custo de oportunidade de manter recursos em um ativo que depende principalmente de sua valorização para proporcionar retorno.

Por outro lado, quando os juros recuam e as condições financeiras melhoram, parte dessa pressão diminui. O Bitcoin tende a encontrar um ambiente mais favorável, especialmente se os investidores estiverem confiantes na continuidade do crescimento econômico. A recuperação recente dos preços aconteceu justamente em meio a esse alívio, embora ainda não represente uma confirmação de retomada da tendência de alta.

O cenário mais favorável para o Bitcoin seria, portanto, uma economia americana que continue demonstrando força, mas com uma inflação mais controlada. Isso permitiria ao Fed ter mais espaço para reduzir os juros, ou pelo menos evitar mantê-los excessivamente elevados por mais tempo, sem que fosse necessário enfrentar uma deterioração significativa da atividade econômica.

Outro fator que merece atenção é o conflito no Oriente Médio. Um eventual acordo que reduza as tensões na região poderia trazer um alívio importante para os preços do petróleo e, consequentemente, diminuir parte das pressões inflacionárias que vêm preocupando os investidores.

Além de reduzir a incerteza geopolítica, esse cenário poderia melhorar as perspectivas para os juros americanos e favorecer o apetite por risco, beneficiando o Bitcoin e o mercado cripto como um todo. Naturalmente, ainda não é possível prever se ou quando esse desfecho acontecerá.

Fluxo institucional

O ambiente macroeconômico mais exigente também apareceu no comportamento dos grandes investidores. Os ETFs de Bitcoin, que se tornaram uma das principais portas de entrada do capital institucional no mercado cripto, voltaram a registrar saídas de recursos.

Esses fundos permitem investir no Bitcoin por meio do mercado financeiro tradicional, sem precisar lidar diretamente com a compra e a custódia das moedas, além de facilitar o cumprimento das exigências regulatórias e operacionais das instituições. Essa maior facilidade de acesso foi um dos grandes motores da valorização recente do ativo e representa uma diferença importante em relação aos ciclos anteriores.

Entretanto, nas últimas sessões, esses fundos registraram saídas líquidas de aproximadamente US$ 854 milhões, mostrando que parte dos investidores passou a reduzir sua exposição diante das incertezas econômicas. Esse movimento merece atenção, já que a retomada de compras consistentes por parte dos ETFs pode ser importante para sustentar uma recuperação mais forte do ativo.

Por outro lado, a demanda institucional não se limita aos ETFs. A Strive, empresa que acumula Bitcoin como reserva de tesouraria, anunciou a compra de 6.133 BTC, equivalentes a aproximadamente US$ 515 milhões. A aquisição mostra que algumas empresas continuam aproveitando o momento para aumentar suas reservas, mesmo em um ambiente de mercado mais desafiador.

Essas compras ajudam a compor a demanda pelo Bitcoin, embora não seja possível afirmar que compensaram diretamente as saídas dos ETFs. Além disso, existe um ponto de atenção: empresas que adotam essa estratégia frequentemente dependem da emissão de ações ou dívidas para financiar novas aquisições. Por isso, a continuidade dessas compras também depende das condições do mercado financeiro e do interesse dos investidores em financiar essas companhias.

Fonte: Farside Investors (fluxo líquido dos ETFs de Bitcoin) e comunicados da Strive à SEC.

No curto prazo, o Bitcoin perdeu força, mas encontrou suporte

No gráfico diário, o Bitcoin continua enfrentando dificuldades para recuperar o impulso de alta observado nos meses anteriores. A pressão vendedora aumentou nas últimas semanas, mas a região dos US$ 80 mil voltou a atrair compradores, permitindo uma recuperação depois das quedas recentes.

Essa defesa é importante porque mostra que, apesar do enfraquecimento do mercado, ainda existe interesse comprador nessa faixa de preços. Enquanto ela continuar sendo preservada, o Bitcoin mantém espaço para uma recuperação. Por outro lado, sua perda poderia abrir caminho para uma correção mais profunda.

Fonte: OKX (BTC-USDT) e indicador proprietário.

Nosso indicador de tendência ajuda a entender essa mudança de comportamento. Depois de permanecer positivo durante boa parte da recuperação, o indicador recuou para uma região próxima de zero, passando a apresentar uma leitura neutra.

Isso significa que o movimento de alta perdeu força e que o mercado ainda não demonstra uma direção clara no curto prazo.

No médio prazo, a tendência continua favorável

Quando ampliamos a análise para o gráfico semanal, encontramos um cenário mais construtivo. Apesar das oscilações recentes, o Bitcoin continua apresentando uma sequência de fundos cada vez mais altos, característica importante de uma tendência de alta.

Na prática, isso significa que as correções vêm encontrando compradores em níveis superiores aos observados anteriormente. Esse comportamento sugere que, mesmo diante de períodos de pressão vendedora, o mercado ainda preserva uma estrutura favorável no médio prazo.

Fonte: OKX (BTC-USDT) e indicador proprietário.

Nosso indicador de momentum semanal reforça essa interpretação. Embora tenha perdido parte da força nas últimas semanas, ele continua em território positivo, mostrando que a tendência de médio prazo ainda não sofreu uma deterioração significativa.

Naturalmente, isso não impede novas quedas no curto prazo. O que a análise semanal sugere é que a recuperação mais ampla continua preservada, mesmo com o enfraquecimento recente dos preços.

Amarrando as pontas

Nesse contexto, seguimos atentos à capacidade do Bitcoin de sustentar a região dos US$ 80 mil e, principalmente, de recuperar a força de sua tendência diária. Até que isso aconteça, preferimos manter uma postura equilibrada, sem interpretar a fraqueza recente como uma reversão definitiva, mas também sem antecipar uma nova aceleração de alta.

Seguimos monitorando os indicadores e voltaremos a avisar caso identifiquemos mudanças relevantes nesse cenário.

Luis Kuniyoshi é especialista em criptoativos na Empiricus Research. É bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e investidor do mercado cripto desde 2017. É consultado regularmente por relevantes portais de notícias brasileiros, como Exame, Valor Econômico, Seu Dinheiro e Money Times. Também integra o Crypto Never Sleeps, um dos maiores podcasts de ativos digitais do Brasil.