(Imagem: iStock.com/ismagilov)
Os últimos dias foram dominados pela política, e esta semana não foi diferente. Os americanos foram às urnas nas eleições de meio de mandato, as chamadas midterms, e devolveram aos democratas o controle da Câmara e do Senado.
Na última quarta-feira (4), o mercado recebeu o resultado com alívio. A perspectiva de um fim para a guerra no Oriente Médio derrubou o petróleo, e o Bitcoin voltou a fechar acima dos US$ 80 mil. Na quinta-feira (5), porém, a queda foi tão aguda quanto a alta da véspera: tudo que vai, volta. O Bitcoin devolveu o ganho em um único dia, puxado por uma forte correção das ações de tecnologia.
Nesta edição, explicamos como funcionam as midterms e por que o Congresso importa tanto, mostramos por que o mercado passou do alívio à aversão a risco em 24 horas e avaliamos o que o novo Congresso significa para a regulação cripto.
Midterms: eleições de meio de mandato
As midterms acontecem na metade do mandato presidencial. O presidente não está em jogo, mas o Congresso está: todas as 435 cadeiras da Câmara, cujos mandatos duram dois anos, e cerca de um terço do Senado, onde os mandatos são de seis anos.
O peso dessa eleição está no desenho do poder americano. O presidente propõe a agenda, mas são a Câmara e o Senado que votam leis, impostos e gastos. Quando a oposição tem a maioria, ela consegue barrar propostas e ganha o poder de fiscalizar o governo, com audiências, investigações e pedidos de documentos. Em outras palavras, as midterms decidem quanto espaço o presidente terá para governar nos dois anos seguintes.

O resultado foi expressivo. Os democratas devem chegar a cerca de 253 das 435 cadeiras da Câmara e a 54 das 100 do Senado, onde viraram sete vagas antes republicanas, inclusive em estados tradicionalmente conservadores, como Texas, Ohio e Kansas. A nova composição toma posse em 3 de janeiro de 2027.

Na prática, Donald Trump segue presidente e mantém o poder de veto, ou seja, pode barrar o que o Congresso aprovar. Mas passa a depender de votos democratas para aprovar qualquer proposta. O cenário mais provável é de mais negociação, mais investigação e um cabo de guerra que tende a travar boa parte da agenda em Washington.
Dois lados de uma mesma moeda
A primeira reação do mercado veio pelo petróleo. Boa parte da derrota republicana foi atribuída à guerra no Oriente Médio: o conflito elevou o preço do barril, que pressionou combustíveis e expectativas de inflação e, com elas, a popularidade do governo. O próprio vice-presidente, JD Vance, escreveu que “a razão de termos perdido é a guerra”, e os democratas prometem pressionar pelo fim do conflito.
Com isso, o mercado passou a apostar em um desfecho definitivo da guerra. O petróleo, que chegou a US$ 118 por barril, recuou para a casa dos US$ 100 — só na quarta-feira, a queda passou de 8%. Preço do petróleo mais baixo significa menos pressão inflacionária e, por consequência, menos motivo para o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, voltar a subir juros. Esse alívio levou o Bitcoin a fechar a quarta-feira em US$ 80.504, porém durou pouco…
Na quinta-feira, o mercado viu o outro lado da moeda, o partido tende a ser bem mais restritivo com a expansão da infraestrutura de inteligência artificial, que avançava em ritmo acelerado sob o governo Trump, com novos centros de dados, consumo de energia e investimentos bilionários.
Isso importa porque o investimento em IA virou um dos motores da economia americana. Segundo estimativas do Fed de St. Louis, os setores ligados à inteligência artificial responderam por cerca de 1 ponto percentual do crescimento do PIB dos Estados Unidos nos três primeiros trimestres de 2025 — algo próximo de 40% de toda a expansão do período. Se esse motor desacelera, cresce o risco para a economia como um todo.
A reação foi uma correção generalizada, mais forte justamente onde o investimento em IA é mais relevante. Só na quinta-feira, o índice de semicondutores caiu 11,2%, e a Nasdaq, 5,5%. Desde o início da temporada de balanços, em 13 de outubro, os semicondutores acumulam queda de quase 24%. O Bitcoin acompanhou o movimento, recuou 5,5% e devolveu os US$ 76 mil. Os ETFs de Bitcoin registraram saídas de US$ 430 milhões no dia e de quase US$ 870 milhões na semana até quinta.
Amarrando as pontas, tudo isso culminou na deterioração acelerada do momentum do BTC, reforçando ainda mais a postura de cautela que já vínhamos adotando nas últimas edições. Mais uma vez, reforçamos que nossa leitura é de que o momento é mais favorável a um portfólio de ativos digitais com menos volatilidade, afastado de posições concentradas em altcoins e favorecendo BTC e caixa.
Essa postura já vem sendo adotada há algum tempo na Crypto Momentum e tem ajudado a mitigar parte relevante das perdas provocadas pelos eventos de cauda recentes. Nossa carteira de criptomoedas com investimento automatizado no BTG Pactual amplia ou reduz a exposição aos criptoativos conforme a tendência, com rebalanceamentos mensais executados automaticamente.
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Eventualmente essa correção nos levará a uma oportunidade de recompra dos ativos a um preço descontado, mas com os indicadores ainda negativos, esse evento parece (ainda) não ter chegado. O ponto a acompanhar agora é a região dos US$ 75 mil, que funciona como nosso principal suporte atual.
Acompanhar a performance relativa do BTC x S&P500 e proxies (mineradoras e DATs) x BTC devem nos dar uma ideia de quando o apetite pelo setor estiver voltando, bem como expectativa de inflação para baixo e economia ainda estável.
Dos males, o menor
Para o mercado cripto em particular, o resultado das midterms não é bom. Diferentemente dos republicanos, os democratas costumam adotar uma postura bem mais restritiva em relação ao setor, o que tende a dificultar a captação de recursos e a operação e expansão de negócios cripto nos Estados Unidos.
A mudança aparece onde mais importa: nos comitês que regulam o setor. No Senado, o Comitê Bancário deve passar a ser comandado por democratas céticos, como Elizabeth Warren, cunhada como a “carrasca de cripto”. Na Câmara, o Comitê de Serviços Financeiros deve ficar com Maxine Waters. O setor também saiu derrotado nas urnas: gastou mais de US$ 170 milhões em campanhas e perdeu aliados importantes, como o deputado que presidia a subcomissão de ativos digitais.

Ainda assim, o resultado foi ruim, mas menos ruim do que se esperava. O Stand With Crypto, grupo de defesa do setor que atribui a cada político uma nota de 0 a 100 conforme seu apoio a cripto, mostra que a maioria do novo Congresso segue favorável ao setor: na Câmara eleita, são 235 deputados pró-cripto contra 106 contrários; no Senado, 50 contra 33.
O que muda é o partido, não a maioria. Cripto já é uma pauta bipartidária — em 2025, 78 democratas votaram a favor do Clarity Act. Por isso, nossa leitura é que a regulação deve avançar, mas de forma mais lenta e provavelmente mais restritiva do que no desenho republicano.
Conclusão para o Bitcoin: no médio prazo, tendência é positiva
A semana deixou dois lados. De um, o petróleo em queda e a perspectiva de fim da guerra aliviam a inflação e reduzem a pressão sobre os juros. De outro, a ameaça ao investimento em IA pesa sobre o crescimento americano, e o novo Congresso torna o caminho regulatório de cripto mais lento e incerto.
Para o Bitcoin, o curto prazo voltou ao negativo. A região dos US$ 75 mil é a primeira referência; se for perdida, o próximo suporte relevante fica na casa dos US$ 70 mil.
Ao ampliar o horizonte, o quadro é mais construtivo. Enquanto o Bitcoin sustentar a região dos US$ 75 mil, segue formando fundos mais altos no gráfico semanal — ou seja, a tendência de médio prazo permanece positiva. Contudo, só voltaremos a aumentar a exposição a risco de fato quando o curto prazo também virar para o positivo.