(Imagem: iStock.com/scaliger)
O conflito no Oriente Médio ainda não foi resolvido. O Estreito de Ormuz segue operando bem abaixo do norma, e o alívio geopolítico permanece incompleto. Mesmo assim, os mercados avançaram nos últimos dias.
Por baixo do ruído, dois movimentos estão moldando o que acontece com o Bitcoin: a liquidez global voltou a se expandir, impulsionada pela queda dos juros reais, e o capital institucional não parou de comprar – nem nos momentos de maior estresse.
Nesta edição, analisamos esses dois vetores, e o que eles significam para o seu portfólio.
Tudo certo, nada resolvido na guerra no Oriente Médio
Donald Trump prorrogou o cessar-fogo com o Irã por prazo indefinido e, no papel, o cenário-base de normalização gradual segue como o mais plausível, o suficiente para sustentar o bom humor dos mercados. Ainda assim, a evolução diplomática ainda não se traduziu plenamente na prática.
Desde o início do conflito, o fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz — responsável por cerca de um quinto do petróleo global — saiu de algo próximo de 100 navios por dia para níveis próximos de zero e, desde então, apesar dos últimos avanços, a recuperação foi apenas marginal. A trégua não se traduziu em retomada do tráfego.

Cada semana adicional com Ormuz operando abaixo do normal aumenta a probabilidade de que um choque inicialmente temporário assuma um caráter mais duradouro. Nesse contexto, o prêmio de risco em energia permanece elevado, a visibilidade de médio prazo segue reduzida, e o equilíbrio do mercado continua frágil. Enquanto o fluxo não apresentar melhora relevante, qualquer leitura de alívio geopolítico permanece incompleta.
Apesar disso, os mercados voltaram a avançar rapidamente, reflexo de uma dinâmica de rotação.
O que move os mercados no momento?
As bolsas dos Estados Unidos já superaram os níveis anteriores ao conflito, e voltaram a alcançar novas máximas históricas. Os spreads de crédito recuaram, e empresas com maior alavancagem — normalmente as primeiras a sofrer quando a liquidez aperta — passaram a subir de forma consistente. Quando esse tipo de ativo performa, temos um sinal de que a liquidez está expandindo, um terreno fértil para ativos de risco.
Boa parte dessa leitura passa pela própria aritmética dos juros nos EUA. O choque de energia mantém a inflação pressionada na margem, e isso vem sendo incorporado nas expectativas. Em um cenário mais tradicional, esse movimento seria suficiente para gerar preocupação com aperto monetário adicional. Mas não é o que está acontecendo.
A inflação sobe, mas não o bastante para deslocar de forma relevante a trajetória esperada de juros nominais. O resultado dessa combinação aparece não no headline, mas na variável intermediária: os juros reais.
Com inflação implícita mais alta e juros nominais relativamente estáveis, o juro real recua. E essa compressão funciona, na prática, como um afrouxamento indireto das condições financeiras. Não há corte formal por parte do Federal Reserve (Banco Central dos EUA), mas o efeito econômico se aproxima disso, e a taxa de desconto dos ativos diminui.
Isso altera o jogo. Com a queda dos juros reais, a renda fixa perde atratividade relativa. Não porque deixou de render, mas porque rende menos em termos reais, abrindo espaço para outros ativos. Nesse contexto, o Bitcoin acaba se beneficiando.
A divulgação dos últimos dados macro reforça essa leitura. Os indicadores de atividade vieram acima do esperado, com destaque para o consumo das famílias americanas, que segue resiliente e afasta, ao menos por ora, o risco de uma desaceleração mais brusca. Com crescimento ainda sustentado e o crédito funcionando, o incentivo para posições defensivas diminui, e o capital volta a avançar ao longo da curva de risco.
A leitura, portanto, é de um regime construtivo, com espaço para continuidade do movimento. Ao mesmo tempo, esse avanço se apoia em pilares que não são totalmente sólidos, o que exige cautela e reforça que o processo dificilmente será linear.
O mercado não reage apenas ao nível das variáveis, mas à forma como elas evoluem ao longo do tempo. Em períodos mais estáveis, os preços tendem a oscilar dentro de faixas relativamente bem definidas. Quando essa dinâmica se rompe — como nas sequências recentes de alta — o que entra em jogo não é apenas a direção, mas a possibilidade de mudança de regime.
Em cenários mais sensíveis, como o atual, estratégias capazes de identificar a rotação de fluxos e agir de forma tática ganham ainda mais relevância. Para quem busca capturar esse movimento de forma automática e sem custo, existe uma solução que já mencionamos na última edição — e que vem entregando cerca de 15% de performance adicional em relação ao BTC.
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Comprando Bitcoin ao som dos canhões
À medida que o Bitcoin retoma a alta, o fluxo que sustenta esse movimento é, em grande medida, institucional. Foram os institucionais que absorveram a volatilidade ao longo das semanas mais difíceis do conflito sem recuar, e eles é quem respondem pela maior parte da performance de preço que nos trouxe até aqui.
A Strategy, maior detentora corporativa de Bitcoin do mundo, reportou, em 20 de abril, uma posição de 815.061 BTC em tesouraria. Desde o início de março, a empresa adicionou mais de 94 mil BTC — acelerando a acumulação justamente no período de maior ruído geopolítico. Não é um caso isolado: as chamadas Digital Asset Treasuries, empresas que adotaram o Bitcoin como reserva estratégica de balanço, somam agora 49 instituições ao redor do mundo, com cerca de 5,7% de toda a oferta circulante do ativo, reforçando seu papel como fonte estrutural.
Os ETFs de Bitcoin à vista seguem nessa mesma linha. O saldo líquido de entradas desde o começo de março já passa de US$ 3,5 bilhões, e vem ficando ainda mais robusto em abril.

Além disso, grandes bancos passaram a estruturar produtos próprios para oferecer exposição ao Bitcoin diretamente aos seus clientes. Isso confirma que a demanda existe e foi validada, e que a distribuição, que coloca o ativo nas mãos do investidor final, está mudando de forma relevante. Quando o Bitcoin passa a ser acessível dentro da plataforma do próprio banco do cliente, sem que ele precise migrar para uma corretora especializada, o alcance potencial da demanda cresce, impulsionado pela escala e capilaridade dessas instituições.
O Morgan Stanley foi o primeiro a dar esse passo: em 8 de abril, lançou o MSBT, o primeiro produto cripto de uma gestora afiliada a banco nos Estados Unidos, e o lançamento rapidamente se tornou o mais bem-sucedido nesse formato na história da instituição. Dias depois, o Goldman Sachs protocolou na SEC o seu próprio ETF ligado ao Bitcoin.
Ambos os movimentos reforçam a institucionalização do setor e fortalecem o médio/longo prazo. No conjunto da obra, seguimos com prospectos positivos, ainda que com ressalvas, dada a fragilidade do momento atual.