(Imagem: iStock.com/scaliger)
Caro leitor,
De um lado, o principal catalisador regulatório para o mercado cripto ficou mais próximo de virar lei. O Clarity Act, projeto mais aguardado pelo setor, foi aprovado pelo Comitê Bancário do Senado por 15 votos a 9, com apoio bipartidário. Um gargalo que permanecia travado havia meses finalmente cedeu, e os mercados de predição já começaram a ajustar as probabilidades para cima.
Do outro, o macro voltou a acender um sinal de alerta. Dados de inflação acima do esperado, uma cúpula entre Trump e Xi sem resolução concreta e o petróleo novamente próximo dos US$ 100 por barril criaram pressão suficiente para derrubar, ao mesmo tempo, bolsa americana, ouro e Bitcoin. O regime de mercado segue construtivo, mas o ambiente ficou menos confortável.
Nesta edição, atualizamos a leitura técnica do Bitcoin, explicamos os fatores por trás da correção recente e detalhamos o que o avanço do Clarity Act significa para o setor — e porque o prazo de aprovação pode ser tão importante quanto o conteúdo do projeto.
Análise Gráfica

O gráfico combina dois elementos. À direita, o modelo de densidade distribui o histórico de negociação por nível de preço. As regiões mais densas indicam onde o mercado concentrou volume ao longo dos últimos meses e funcionam como suportes e resistências. O cone projetado à esquerda indica a faixa esperada de oscilação para os próximos sete dias, com base na volatilidade realizada dos últimos 30 dias.
O Bitcoin é negociado a US$ 79.278, em uma região de suporte que, até o momento, segue sustentando o preço apesar dos últimos dados macroeconômicos, que reacenderam preocupações com a trajetória da inflação. A perda dessa faixa aumentaria a probabilidade de um movimento em direção aos US$ 75 mil, próximo suporte relevante identificado pelo modelo.
Acima do preço atual, a principal resistência aparece na região dos US$ 85 mil.
Para os próximos sete dias, o cone de volatilidade projeta, com 68% de probabilidade, uma oscilação entre US$ 76.301 e US$ 82.371. Essa projeção não deve ser interpretada como uma previsão direcional, mas como uma estimativa estatística da faixa mais provável de negociação caso o comportamento recente da volatilidade se mantenha.
No consolidado, o viés permanece positivo. O Bitcoin ainda preserva a tendência de alta e se encontra acima de um nível de suporte relevante. Vale a ressalva de que um de nossos modelos proprietários indica que esse regime direcional está relativamente próximo do fim, indicando que as probabilidades de entrarmos em lateralização cresce daqui pra frente.
Sinal amarelo
No curtíssimo prazo, estamos vendo uma correção generalizada dos ativos de risco. O gatilho foi uma combinação de dados macro e acontecimentos que, lidos em conjunto, mudaram o tom do mercado.
Os dados do CPI e do PPI de abril vieram acima do esperado, assim como o índice de produção industrial na comparação mensal. O conjunto reforça a leitura de uma economia aquecida, com cada vez menos espaço para o Fed reduzir juros e uma inflação que segue pressionada.
Para completar, a cúpula Trump-Xi não trouxe grandes avanços. O encontro entre as duas maiores potências econômicas não foi ruim, mas também não produziu nenhuma resolução concreta. Sem um desfecho positivo nas tensões geopolíticas, o petróleo voltou a subir, voltando a se aproximar da faixa de US$ 100 por barril, mais lenha numa fogueira que já vinha acesa.
Esse conjunto altera, em parte, a dinâmica que vínhamos descrevendo. A queda dos juros reais, que vinha impulsionando ativos de risco, fica mais difícil de sustentar quando os dados apontam para inflação persistente e uma economia que não precisa de estímulo. Os yields dos Treasuries americanos subiram, refletindo um mercado que começa a precificar essa realidade. Nas probabilidades implícitas dos contratos de juros futuros, uma alta de juros em 2027 começa a entrar no radar, um sinal ruim para risco.

O resultado apareceu nos preços. Bolsa americana, ouro e Bitcoin recuaram em conjunto. Quando os yields longos sobem, a renda fixa americana se torna mais atrativa em termos absolutos.
Vale uma ressalva importante: o crédito segue tranquilo e a volatilidade está relativamente contida. Não estamos diante de uma ruptura de regime, mas de um sinal que merece atenção.
Por isso, acendemos o alerta amarelo. Os gatilhos a monitorar são os yields dos Treasuries longos, a volatilidade cambial e o nível de estresse nas bolsas americanas. Enquanto esses três sinais não se deteriorarem de forma coordenada, o regime segue.
Apesar do cenário mais cauteloso no macro, o mercado cripto registrou avanços relevantes nesta semana.
Tão perto, mas tão longe
O Clarity Act é o principal catalisador regulatório para o mercado cripto em 2026. Por anos, dois reguladores americanos — a SEC e a CFTC — disputaram jurisdição sobre os mesmos ativos, sem que nenhum dos dois tivesse autoridade clara. O mesmo token poderia ser legal sob uma ótica e ilegal sob a outra. O projeto busca resolver esse impasse: divide a supervisão, cria regras claras para stablecoins e exchanges, e abre caminho para que ativos saiam da zona cinzenta jurídica.
O projeto passou pela Câmara em julho de 2025 com ampla maioria bipartidária e então emperrou no Senado por meses. O obstáculo era a questão das stablecoins: bancos tradicionais temiam que moedas digitais com rendimento funcionassem como substitutos diretos de depósitos. Negociações entre os partidos desbloquearam o impasse, e nesta quinta-feira o Comitê aprovou o texto por 15 a 9, com dois democratas do lado favorável.
Apesar do avanço, não há nada definido ainda. O projeto precisa passar por revisão final e ir a plenário. Se aprovado no Senado, volta à Câmara para uma última rodada. Alguns pontos não estão completamente amarrados, regras sobre lavagem de dinheiro via DeFi e restrições para funcionários públicos com interesse no setor seguem em aberto.
Com esse obstáculo parcialmente superado, o cenário volta a ficar mais favorável. Os mercados de predição já refletem essa melhora de percepção: no Polymarket, a probabilidade de o Clarity Act ser sancionado em 2026 subiu para 68%.

O problema é o relógio. As midterms de novembro de 2026 se aproximam, e os democratas têm chance real de reconquistar o Senado. Se o projeto não for aprovado este ano, o debate tem altas chances de ser adiado para 2027 com um Congresso possivelmente menos favorável. Já vimos nesse mesmo processo o quanto pontos aparentemente resolvidos voltam à mesa e prazos escorregam. Daí o “tão perto, mas tão longe”.
Se aprovado ainda em 2026, o Clarity Act deve funcionar como um catalisador relevante: menos atrito jurídico significa mais oferta de produtos institucionais, mais infraestrutura construída sobre blockchain e mais capital que hoje fica de fora por falta de segurança jurídica.
Atenciosamente,
Equipe Empiricus Cripto