A sangue frio

Diante de tantas notícias ruins, muita volatilidade e atenção focada na disparada do dólar, talvez você não tenha percebido, mas o Ibovespa fechou em alta de 0,3% na semana passada — pode parecer pouco, mas dá uma surra no CDI.

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A sangue frio

Gostei da pesquisa FSB/BTG Pactual. Ela acaba de sair do forno. No cenário sem o estímulo dos nomes dos candidatos, João Amoêdo aparece com 3% das intenções de voto. Muito criativa a ideia de pesquisar dentro do próprio banco. Adorei.

Já que estamos no campo do jornalismo literário, vou contar uma história. Não foi exatamente assim. Aliás, foi, mas não com todos estes personagens. Vale a essência.

Como Gay Talese define o novo jornalismo, “embora possa ser lido como ficção, não é. É ou deveria ser tão verídico como a mais exata das reportagens, buscando, no entanto, uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo. O jornalismo literário permite — na verdade, exige — uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar.”

Se troco nomes e datas, é somente para que a realidade ganhe contornos de ficção, não para moldá-la à minha própria argumentação. Na confusão entre mundo real e folclore, vai que a gente usa o nome do Curupira e ele resolve vir tirar satisfação. Aquilo que você mais teme pode ser exatamente o que vai encontrar bem no meio do caminho, alertava Eddie Vedder na linda “Crazy Mary”. Estamos na versão “Felipe: paz e amor” e pretendemos mantê-la.

Estávamos pelos idos de 2008. Eu dava aulas de Opções Reais num curso qualquer de pós-graduação. Aquela noite, porém, havíamos todos sido dispensados do ato de declarar-se em público — a etimologia do professor. A FGV de São Paulo pararia para assistir à apresentação de um gestor de fundos italiano bastante rico e renomado — bom, pelo menos era renomado na época. Tinha aparecido em capa de revista e tudo mais.

Ele desenvolvera um modelo econométrico (uso de técnicas de estatísticas aplicadas à economia) bastante sofisticado. Vinha de Harvard. Bom, quando você fala: “Desenvolvi uma técnica econométrica em Harvard e estou trazendo para vocês”, bingo! Não precisa fazer mais nada. A plateia de economistas, administradores e financistas já está babando por você.

Para ser sincero, e isso é apenas um apêndice técnico que você pode pular sem nenhum problema, nem era tão sofisticado assim. Mas enganava bem. No fundo, era um Markowitz um pouco mais elaborado, usando especificações da família ARCH generalizada (variância heterocedástica com autorregressão) para capturar variações não lineares. Ou seja, um T-GARCH qualquer, mas que, ali, parecia a quinta essência de Aristóteles.

Faltaram carregar o apresentador no colo. Aplaudiram ao fim, estenderam tapete vermelho até a saída da Itapeva, deram um belíssimo Brunello di Montalcino de presente.

Poucos meses depois, o sujeito quebrou. Na jurídica, claro. O fundo saiu de vários bilhões de euros, para alguns poucos milhões. O tal modelo não funcionava tão bem diante de mudanças súbitas de cenário, das chamadas quebras estruturais. E quando você comete um único erro grande dentro de um fundo que se propõe a ser de baixa volatilidade já era.

A partir daí, seguiu o protocolo de sempre. Mudou o nome da gestora, atraiu um sócio bastante capitalizado e bem relacionado, refinou o modelo para incorporar novas variáveis (“a reparametrização impede que passamos pelos mesmos problemas do passado”) e, claro, com o discurso sofisticado de sempre, voltou a captar.

Passou alguns bons meses ganhando dinheiro, oferecido nas plataformas de distribuição da Itália como um grande fundo multimercado. “Um dos melhores da região”, sem dúvida.

Quando parecia ter dado a volta por cima, quebrou de novo. As eleições na Itália estão mesmo trazendo um tempo duro para os gestores de lá.

A simplicidade é a maior das sofisticações.

Por que não acredito em econometria aplicada ao mercado financeiro? (Calma, essa conversa tem, sim, a ver com você.)

Porque, nesse mundo, estamos no Quarto Quadrante de Nassim Taleb.

Taleb propõe combinações entre dois tipos de decisão e dois tipos de incerteza.

No caso das formas de decisão, temos as binárias (0 ou 1) ou as complexas, em que a intensidade é importante (não somente a frequência é relevante, mas também o tamanho do impacto).

No caso das possibilidades de incerteza, temos o mundo do Mediocristão e do Extremistão. No primeiro, as exceções acontecem, mas não trazem grandes consequências. No segundo, as exceções determinam tudo.

O Quarto Quadrante reuniria decisão complexa no Extremistão, que é o exemplo de onde estamos no mercado financeiro. Nele, a estatística não funciona. Pior ainda: ela passa a ser um mapa errado.

Você consegue perceber isso com a intuição. Se você está num mundo em que as exceções importam muito, não pode haver como a estatística funcionar bem. Para isso acontecer, sempre precisamos de uma amostra razoavelmente grande. Mas como ter amostra grande de exceções, de eventos raros? Ora, se elas acontecessem com frequência, ou seja, se tivéssemos uma amostra grande delas, não seriam exceções, certo? É uma contradição em termos.

Os modelos econométricos não conseguem capturar bem as exceções, os eventos raros. E eles são a essência da coisa. Assim, a econometria jamais vai antecipar quebras estruturais, justamente os momentos mais problemáticos e naqueles em que você mais vai precisar do dinheiro. Nesses momentos, correlações históricas são quebradas; elas sempre são quebradas, de modo que apoiar-se na estatística das séries de tempos é guiar um carro olhando para o retrovisor.

Diante de tantas notícias ruins, muita volatilidade e atenção focada na disparada do dólar, talvez você não tenha percebido, mas o Ibovespa fechou em alta de 0,3% na semana passada — pode parecer pouco, mas dá uma surra no CDI. Quebramos o fato estilizado clássico de que quando o dólar sobe (+5% na semana), a Bolsa cai.

Ok, ok, é uma janela de tempo muito curta. Mas essa pode ser a dinâmica até as eleições. Tenho chamado a atenção para isso: uma boa estratégia até lá pode ser ter dólar e Bolsa. Note que, no ano, o Ibovespa está praticamente zerado; em 12 meses, sobe 7,21%. Em ambas janelas, o dólar também sobe.

E por que isso acontece? Entre outras coisas, por conta da presença forte de empresas exportadoras e ligadas à commodity no índice.

Se você não puder ter dólares ou não quiser, ao menos reserve uma boa parte do seu capital para uma reserva de caixa gorda. Esteja ciente da importância do momento e da oportunidade que pode se abrir à frente.

Em cerca de dois meses, saberemos o novo presidente do Brasil. Então, teremos dois cenários:

i. Um candidato em prol das reformas eleito
ii. Um candidato contra as reformas eleito

Se for o primeiro caso, os ativos brasileiros estarão um pouco mais caros, mas o risco terá caído abruptamente.

Se for o segundo caso, o Brasil poderá entrar em liquidação e você precisa ter caixa nessa hora para encher o carrinho de coisas que vão deixá-lo realmente rico lá na frente.

O trem vai passar na sua frente. É bom você estar pronto na plataforma.

Afinal de contas, como diria Truman Capote, autor de “A Sangue Frio”: “O dinheiro não tem a mínima importância, desde que a gente tenha muito”.

Mercados brasileiros iniciam a semana em clima mais positivo, pegando carona na alta das Bolsas asiáticas, ajudadas pelos esforços de Pequim para estabilizar o yuan, e nas notícias de suposto avanço nas negociações entre EUA e México sobre o Nafta.

Cena política continua em foco, com nova pesquisa divulgada pelo BTG — há umas outras 200 esperadas para a semana — e início da rodada de entrevistas no “Jornal Nacional”, com Ciro Gomes abrindo a série hoje.

Na agenda econômica estrita, saem prévia do IPC-Fipe, relatório mensal da dívida pública e nota do setor externo. Lá fora, sai atividade do Fed de Chicago, enquanto feriado em Londres reduz um pouco a liquidez global.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,4%, dólar e juros futuros recuam.