A única boa alternativa heterodoxa para esta eleição

A turma que se debruça sobre pesquisas e modelos para antecipar o vencedor das eleições incorre numa arrogância epistemológica atroz, como se sua técnica pessoal fosse capaz de fazê-los entrar no DeLorean e transportá-los.

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A única boa alternativa heterodoxa para esta eleição

— Mas e se eu não conseguir fazer este trabalho, Coleman? E se eu não for exatamente o que eles esperam?

— Apenas seja você mesmo, senhor. Não importa o que acontecer, isso eles não poderão tirar de você.

Há vários filmes legais sobre mercado financeiro. “Wall Street”, “Margin Call”, “Inside Job” e “O Lobo de Wall Street” são obras-primas. Mas, digam o que quiserem, meu favorito é “Trocando as Bolas”, de onde tirei o diálogo inicial.

Eddie Murphy e Dan Aykroyd juntos é uma coisa maravilhosa. O mendigo Billy Ray Valentine (Murphy), com a inteligência e a sagacidade típicas da rua, se torna um investidor de Wall Street, depois que dois irmãos apostam se seria possível um pobretão trocar de identidade com o magnata Louis Winthorpe III (Aykroyd).

Embora seja uma comédia escrachada, existe ali uma mensagem séria: não precisamos tratar as finanças e o dinheiro como algo sagrado, pertencente exclusivamente a um clube de aristocratas que alija o cidadão comum de uma prática que deveria ser popular. Todos precisam, de uma forma ou de outra, cuidar de seu dinheiro. Pode ser muito ou pouco em termos absolutos, mas, no relativo, a importância é a mesma para todo mundo. Estamos todos nós condenados a esse fetiche.

E também não há motivo para irmos ao outro extremo e abordarmos o mercado financeiro como profano, como se houvesse algo pecaminoso, trapaceiro ou mesmo criminoso em ganhar dinheiro. Gordon Gekko (ou poderia ser Bobby Axelrod na versão mais moderna) é uma personagem atraente, mas também repulsiva.

No esforço de sermos nós mesmos, talvez pudéssemos falar de finanças como um tema qualquer, do dia a dia das pessoas, pois, afinal, é disso que se trata em essência, do exato mesmo jeito que a rodinha de amigos conversa sobre mulher (eu ainda posso falar isso?), futebol e política.

Tomando emprestado as palavras de Hilda Hilst, homenageada na Flip deste ano: “As pessoas têm pânico de falar naturalmente de sexo. O que é que vocês imaginam que falam um homem e uma mulher na cama? Ele não vai falar aquela frase que eu sempre repito: deixa-me oscular a sua rósea orquídea. [risos] Então, se existe um texto que se usa na cama, onde se usam as palavras abaixo da cintura com seu nome normal, por que esse medo horroroso?”.

Troque o tema sexo por dinheiro e ela poderia estar escrevendo esta newsletter – obviamente, ela faria muito melhor do que eu.

Não há nada de hermético, excessivamente técnico ou muito sofisticado em boas estratégias de investimento. Se outros querem dar uma roupagem de erudição e sofisticação ao que fazer com seu dinheiro, só para parecerem mais inteligentes e preparados, como uma forma de justificar suas próprias comissões e fazê-lo seguir as bobagens que tentarão ser empurradas aos clientes, prefiro seguir o caminho mais básico e elementar.

Num desses diálogos atribuídos a Sócrates (se não foi ele, desta ele esqueceu), teria pintado algo assim: “É melhor se desentender com o mundo todo do que com a única pessoa com quem se é forçado a viver após ter se despedido de todos”. Voltando a Hilda Hilst, “se você é coerente consigo mesmo, o resto é suportável”.

Poderia ainda apelar a Leonardo da Vinci no clássico “a simplicidade é a maior das sofisticações” para provar o ponto de hoje, porque é disso que se trata.

Todos perseguem uma estratégia de investimento para as eleições. Há zibilhão de dinheiro sendo gasto em pesquisas, algumas públicas, outras privadas, para tentar antever o resultado do pleito. Modelos econométricos ultrassofisticados são montados para tentar adivinhar o próximo presidente.

Honestamente, acho isso ridículo. Nós simplesmente não sabemos. Ninguém sabe. É simplesmente um desperdício de tempo e dinheiro. Não há como antever o resultado, pois a incerteza não vai desaparecer do próximo. Ela é intrínseca ao futuro. Não é um problema de desconhecimento ou falta de técnica. É da natureza desta eleição revelar-se apenas no ato em si — olhe o que acaba de acontecer no Tocantins.

A turma que se debruça sobre pesquisas e modelos para antecipar o vencedor das eleições incorre numa arrogância epistemológica atroz, como se sua técnica pessoal fosse capaz de fazê-los entrar no DeLorean e transportá-los.

Além do grupo dos adivinhadores, há um outro com o qual mantenho discordância: aquele que vai propor-lhe uma carteira diversificada, extraída de um modelo de otimização tal qual proposto por Harry Markowitz, em que colocam-se ativos de risco médio com correlação histórica negativa entre si (quando um sobe, outro desce, e vice-versa), de modo a chegar-se num risco consolidado baixo para todo o portfólio — seriam os chamados “ganhos da diversificação” permitindo que, para um mesmo retorno esperado, poderíamos atingir o risco mínimo para sua carteira.

Woody Allen já fez o “Desconstruindo Harry”, mas a Faria Lima não viu e insiste em replicar Markowitz, com derivadas de primeira ordem que conferem um ar científico às suas propostas pseudo-imparciais, para montagem de carteiras.

Para mim, se você, com receio das eleições, quer um portfólio de baixo risco (não tiro sua razão!), só haverá um jeito: colocar a maior parte do seu dinheiro num ativo de baixíssimo risco. Não tem mágica, nem segredo. Títulos soberanos pós-fixados, junto a um pouco de dólar, por exemplo.

Para não abrir mão completamente de retorno potencial, separe um pequeno teco do seu portfólio para a compra de ativos que possam subir destacadamente no caso de um resultado positivo das eleições. Exemplo canônico seriam ações de estatais e opções de compra fora do dinheiro sobre essas ações.

Se um candidato reformista for eleito, a parte arriscada de seu portfólio observará grande valorização. Por construção, será um pedaço pequeno da carteira, mas como a apreciação esperada é vigorosa nesse cenário, o movimento empurraria para cima todo o consolidado da sua carteira.

Já no caso de eleição de um não reformista, você perderia dinheiro na parte arriscada de seu portfólio – no entanto, como se trata de uma fatia pequena do todo, os prejuízos seriam mais do que compensados pelo rendimento da grande posição em títulos pós-fixados e pelo lucro de sua exposição em dólar.

Aplicação prática e objetiva da proposta talebiana do chamado Barbell Strategy. Nada de risco médio. Dois blocos: muito dinheiro em pouco risco, pouco dinheiro em muito risco. Simples assim.

Mercados brasileiros iniciam a quinta-feira no vermelho, com variações razoavelmente comedidas. Sentem pressão por realização de lucros após excelente desempenho recente, além de acompanharem algum mau humor externo a partir de resultados e guidance ruins do gigante Facebook na noite de ontem. Todo setor de tecnologia norte-americano amanhece sob pressão — hoje saem balanços de Amazon e Intel.

Amenizando o pessimismo, acordo para redução de tarifas entre EUA e Europa afasta temores mais pronunciados de guerra comercial global. Internamente, resultado da Vale, no geral, agradou, bem como a surpresa com programa de recompra. Números de Ambev e Bradesco também chamam a atenção.

Agenda macro traz nota do setor externo e contas do governo central. Nos EUA, temos encomendas de bens duráveis e pedidos de auxílio-desemprego.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,2%, dólar e juros futuros sobem.por