Como ter sorte nos investimentos? Sim, há um jeito!

“The man who said ‘I’d rather be lucky than good’ saw deeply into life. People are afraid to face how great a part of life […]

Compartilhe:
Como ter sorte nos investimentos? Sim, há um jeito!

“The man who said ‘I’d rather be lucky than good’ saw deeply into life. People are afraid to face how great a part of life is dependent on luck. It’s scary to think so much is out of one’s control. There are moments in a match when the ball hits the top of the net, and for a split second, it can either go forward or fall back. With a little luck, it goes forward, and you win. Or maybe it doesn’t, and you lose.”

Trecho do filme “Match Point”, do Woody Allen.

Eu tinha programado outra coisa para hoje. De repente, a vida te acerta em cheio e a maré das circunstâncias te empurra para onde ela mesma quer. Esgotadas as forças para lutar contra a correnteza, a emoção posterga o tema desta quinta para amanhã: duas estratégias de investimento até as eleições.

O recebimento de um e-mail e a definição final dos detalhes do nosso evento de nove anos obrigaram a mudança do cardápio. Às 7h04, quando os olhos percorreram a caixa de entrada do Gmail, um filme passou pela minha cabeça.

Como o mundo psíquico é atemporal e não linear, começo do final: a comemoração de aniversário da Empiricus acontecerá no dia 23 de novembro, com palestras de Richard Thaler, Pedro Malan e José Cordeiro. Eu devo falar as bobagens de sempre também, coisa rápida — vou tentar trazer bobagens novas pelo menos.

Agora, volte nove anos na história. Conto o começo da Empiricus sob minha perspectiva individual — não é um papo autista ou ensimesmado; logo, trago implicações disso para as suas decisões de investimento.

Eu, Felipe, tinha dois sonhos ao criar esse negócio — e deixo claro que “sonhos” é realmente a palavra certa para descrever as coisas àquela altura.

A primeira obedecia à vocação profissional. Queria levar às pessoas físicas, cidadãos comuns, investidores da vida real, ideias para aplicar seu dinheiro tão boas ou melhores do que aquelas dos profissionais de mercado, sem os conflitos de interesse da indústria financeira tradicional. Se pudéssemos ajudar, sei lá, 50, 100 pessoas, eu já estaria feliz. O sistema era — e ainda é — muito corrompido e algo, uma força estranha, talvez o “daimon” de James Hillman, sussurrava nos meus ouvidos sobre a possibilidade de criar uma alternativa.

Veja: meu pai foi feirante e virou diretor de banco. Foi dono de corretora, trader de ações de casa, agente autônomo. Era pobre, ficou rico e quebrou. Morreu pobre. Sou nascido e criado neste ambiente financeiro. Esse universo não é minha atividade profissional. Ele é meu habitat natural. As conexões com investimento transcendem a estrita relação de trabalho. Elas fazem parte do meu caráter, daquilo que me caracteriza desde a infância.

O segundo sonho era mais urgente e se ligava às necessidades pessoais e familiares. Meu pai tinha acabado de morrer, eu acabava de ser subitamente informado que, em um mês, eu teria um filho e a responsabilidade de cuidar de minha mãe, com depressão e dona de casa, recaía inteiramente sobre mim, filho único. Àquela altura, acordava e ia dormir perturbado por um pensamento obsessivo: “Eu vou conseguir pagar o Colégio São Luís para o João Pedro?”.

Sim, hoje ele está lá e o papai vai deixá-lo na Haddock Lobo todos os dias, onde ele é recebido pelos auxiliares como “Felipinho”.

Como você talvez saiba, as coisas deram certo. Não merecem detalhes, nem pormenorização da trajetória.

O que eu gostaria de revelar hoje é o fator preponderante para nos trazer ao Pátio Malzoni.

Poderia elencar um monte de coisa aqui, mas a verdade é que nada se compara à sorte. Foi ela a grande responsável por nos catapultar até os 300 mil assinantes no Grupo Acta.

Mas eu gostaria de explicar o que quero dizer com sorte. Não estou falando que não trabalhamos feito loucos, pensamos (até hoje!) na Empiricus 24×7 (Bia e Beto, me desculpem pelas mensagens depois das 23h), estudamos mais do que todo mundo, perseguimos a excelência como um prato de comida, quebramos o pau internamente (Lu, me desculpe pelos últimos dias!). É justamente o contrário disso.

Tentamos, tentamos e tentamos. Criamos uma série de oportunidades para que a sorte possa nos encontrar. É da exposição ao acaso e a fatores exógenos positivos que acontece um evento surpreendente para fazê-lo mudar de patamar.

Sim, você tem toda razão. Eu dei sorte com O Fim do Brasil. Corrijo: eu dei muita sorte. Mas as pessoas sabem o quanto eu trabalhei para colocar aquilo de pé? E quantas outras tentativas não deram certo? Aquela influência da sorte ficou conhecida, mas e as outras 999 intervenções do azar que ninguém viu e permaneceram no obscurantismo?

Há um jeito sistemático de aumentar suas chances de ser impactado pela sorte. Este é o ponto. E o pior: não há outro caminho na vida. Exponha-se à possibilidade de ser atingido por um evento de alto impacto positivo.

Aqui o exemplo está na atividade empreendedora, mas serve para a vida e, principalmente, para seus investimentos.

Por mais brilhante, genial, diligente e competente que seja Luis Stuhlberger (e ele é!), o fundo Verde não seria o fundo Verde se não fosse uma imposta viagem de férias com as filhas às vésperas da maxidesvalorização cambial — aos pouco familiarizados com a história, o gestor, sem acesso aos mercados nas cataratas, decidiu montar uma enorme posição em dólar. “Vai que acontece algo estranho.” Foi quando o real se depreciou vigorosamente. Aquilo mudou a história do Verde, de maneira definitiva.

Nassim Taleb ficou trilhardário com a Segunda-Feira Negra, em 87, quando o Dow Jones caiu 23 por cento e ele estava lotado de puts (apostas na queda). Deu sorte? Sem dúvida. Mas quantas outras vezes Taleb esteve comprado em opções fora do dinheiro que viraram pó, sabe?

A história é contada por eventos aleatórios, jogadas de sorte que definem tudo. Só pode ser atingido pela deusa Fortuna aqueles que criaram as chances. A bola fica rondando o gol adversário a todo momento, uma hora ela entra, entende o que quero dizer?

Eu me acho um grandessíssimo idiota, um humano limitado que só usa dez por cento de sua cabeça animal. Mas se me colocasse hoje na posição de transmitir uma única lição depois disso tudo seria: ao tomar qualquer atitude na sua vida, você nunca sabe o que vai acontecer. O seu impacto no mundo é muito menor do que você gostaria. A realidade vai continuar rolando do jeito dela; ela é meio insensível e não liga muito para a gente. As consequências dos nossos atos, dos atos dos outros e de todo o resto não nos pertencem. Num mundo assim, em tudo que você fizer, seja no seu lado pessoal, no seu trabalho ou nas suas decisões sobre dinheiro, aumente sua exposição (diversifique) a eventos que podem lhe oferecer um grande benefício ou um pequeno ferimento. Faça cálculos do valor presente líquido de cada decisão. Siga em frente se ele for positivo. Repita o procedimento ad nauseam. No final, todos vão te achar muito sortudo. Os azarados costumam ser invejosos também.

Para encerrar, se eu pudesse ter um desejo realizado no nosso próximo aniversário, talvez fosse para que todos nossos leitores tivessem autocrítica, porque ela é gêmea siamesa da inteligência. Sem essas irmãs, é difícil ter sucesso.

Mas, pensando melhor, talvez gostaria mesmo era de desejar-lhe sorte. Contudo, essa, em si, não é uma aptidão que se tem ou se desenvolve. Podemos, porém, maximizar nossas chances de obtê-la por vias tortas, tentando, tentando e tentando, nos expondo a várias possibilidades até que um evento aleatório positivo venha nos impactar e, subitamente… poft! Somos alçados a outro patamar. Saímos de idiotas sonhadores, babacas e ridículos a visionários, vivendo eternamente de um único empurrão da sorte, aquele que foi visto, enquanto vários outros obstáculos do azar ficaram no ostracismo.

Nessas horas, eu lembro do meu pai, que foi embora muito antes de a sorte nos atropelar. Curiosamente, morreu prometendo que um dia ganharia na Mega-Sena (não é bem desse tipo de sorte que estou falando; lembra do valor presente líquido, pai!).

Quase posso sentir o cheiro do desodorante verde da Polo. À memória olfativa soma-se a auditiva. A trilha sonora de “O Guarda-Costas” tocava rigorosamente todos os finais de semana naquele apartamento da Rua Realengo 133, 9° andar.

Pode soar cafona — emocionado, raramente me inclino ao brega; só quando respiro —, mas a mensagem é poderosa e, para os mais frios e que necessitam de um argumento de autoridade do mercado financeiro, também aparece de outra forma no livro “Princípios”, do Ray Dalio.

“Eu espero que a vida te trate bem. E eu espero que você tenha tudo o que você sonhou. E eu te desejo alegria e felicidade. Mas, acima de tudo, eu te desejo amor.”

Se você não amar o que você faz, se não pegar algum amor pelo ato de investir, não conseguirá errar, errar e errar… e continuar tentando, obstinadamente. Até que um dia a sorte te acerte em cheio, para alçar-lhe a um montante que você mesmo nunca sonhou.

De volta ao Planeta Terra, mercados iniciam a quinta-feira próximos à estabilidade. Sem novidades de cunho eleitoral (não há pesquisas hoje e o debate do SBT trouxe pouca coisa nova, além de uma pequena elevação de tom, principalmente contra Fernando Haddad) e sem drivers externos nessa manhã, fica tudo meio parado.

Talvez o fato mais concreto seja a decisão do STF de cancelar os 3,3 milhões de títulos de eleitores que não fizeram cadastramento biométrico obrigatório, com 45 por cento concentrados no Nordeste, região liderada por Haddad.

Aguarda-se com ansiedade PIB dos EUA, que pode trazer sinais sobre futuro do juro por lá, num momento importante. Decisão do Fed ontem gerou bastante volatilidade ao retirar a palavra “acomodatícia” do texto do comunicado. Ficou estranho e a verdade é que ninguém entendeu muito bem.

Agenda do dia traz ainda Relatório Trimestral de Inflação, IGP-M de setembro, encomendas de bens duráveis nos EUA e pedidos de auxílio-desemprego, também por lá.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,21 por cento, dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.